sábado, 12 de setembro de 2015

A QUESTÃO DA ETERNIDADE EM AGOSTINHO DE HIPONA – PARTE 4/11


A primeira controvérsia contra os Maniqueus: O que fazia Deus antes de Criar a Terra? Cont.

Nem mesmo em suas eternas palavras há sombra de mudanças ou variação, do contrario onde estaria o conselho eterno? Em Deus, devido sua eternidade não se pode pensar na linguagem assim como em nós ocorre: sucessivamente e depois do pensamento. Tudo, pensamento, palavras e frases acontece ao mesmo tempo. Os tipos de antropormofismo por vezes nos dão uma falsa impressão de secessão em suas palavras e atos, porém como o entenderíamos nós, pelo menos em fagulhas, se não utilizássemos esse recurso de dizer as coisas concernentes a Deus através das coisas que conseguimos entender?

Pois o que  foi dito não foi sucessivamente proferido – uma coisa concluída para que a seguinte pudesse ser dita, mas todas as coisas proferidas simultânea e eternamente. Se assim não fosse, já haveria tempo e mudança, e não verdadeira eternidade e verdadeira imortalidade[1].
                        
O que fazia Deus antes de criar o mundo?

“Aqueles que falam assim, ainda não te compreenderam [...]; ainda não compreenderam como se fazem as coisas criadas por ti e em ti”[2]. Em Deus não há devir, apenas ser. “Na eternidade nada passa, tudo é presente, ao passo que o tempo nunca é todo presente”[3].

Com esse desvinculamento do tempo perguntado pelos maniqueus e a eternidade divina, Agostinho esvazia seus argumentos, a ponto de responder, supostamente não respondendo, que antes da criação “Deus preparava o inferno para aqueles que perguntam estes profundos mistérios”[4].

Com essa séria construção lógica, confrontando o tempo perguntado pelos maniqueus com a eternidade de Deus, Agostinho põe por terra toda cadeia argumentativa do mito maniqueu, de uma criação co-eterna e assim sendo, sem um criador. Põe abaixo também a dualidade maniquéia da existência também co-eterna de duas forças incriadas, o bem e o mal e empunhando a bandeira, lógica e racional, não apenas mística, de que todas as coisas, por sua natureza, quer direta ou indiretamente, são criaturas de Deus, independentemente de seus juízos de valores.

Agostinho afirma um Deus eterno e uma criação não eterna, por sua própria natureza, e que todas as coisas foram criadas por Deus, quer direta ou indiretamente e que não cabe a pergunta: “o que Deus fazia antes”, pois, antes da criação, não havia tempo, nem homem, para que se possa utilizar o termo “antes”, nem criação, apenas Deus em seu atributo incomunicável de imutabilidade, em sua eternidade:

Porventura Senhor, tu és eterno, já não conheces o que te digo? Não vês no tempo o que se passa no tempo? Por que motivo te narro então tantos acontecimentos? Não é, certamente, para que os conheças por mim, mas para despertar meu amor por ti[5].

A partir desse conceito de eternidade e em contraponto com ele, Agostinho desenvolve, de forma mais elaborada, sua teoria sobre o tempo, abordando entre outros aspectos, a subjetividade do tempo, no  desenvolvimento da noção de passado, presente e futuro, perpassando também pelo primado do presente, que é, como vimos, uma janela para a eternidade, que é um presente que não passa.

A primeira controvérsia de Agostinho com os maniqueus - sobre o que Deus fazia antes de criar o mundo – levou-o a afirmar a eternidade de Deus e assim procedendo, inegavelmente, admite a possibilidade de um “tempo” para além-do-tempo; o faz entretanto, buscando apoio nas revelações, não diminuindo por isto, de forma alguma, o valor lógico e racional de seus argumentos. Fica evidente de igual modo que Deus sendo eterno – Ele sozinho – sem ninguém com quem tome conselho - é também livre para criar; e o que criou, criou segundo sua exclusiva, soberana e eterna vontade:

Tuas obras te louvam para que te amemos e nós te amamos, para que tuas obras te louvem, elas que tiveram início e fim no tempo, nascimento e morte, progresso e regresso, beleza e imperfeição. Todas elas têm sucessivamente manhã e tarde, ora oculta ora manifesta. Do nada foram criadas por ti, não da tua substância; não de alguma matéria não tua que existisse antes, mas de matéria concreta, criada por ti ao mesmo tempo que lhe deste uma forma sem nenhum intervalo de tempo. Uma é a matéria do céu e da terra. Essa matéria foi tirada da matéria informe, mas essas duas operações foram simultâneas, de forma que entre a forma e a matéria não houve intervalo de tempo[6].

A possibilidade da eternidade está intimamente ligada com a questão da imutabilidade. Para Agostinho, Deus é um eterno “Ser”, que não muda, que não possui sequer sombra de variação; mais que isso, ele é único sob essas condições:

A imutabilidade de Deus é necessariamente concomitante com sua asseidade. É a perfeição pela qual não há mudança nele, não somente em seu Ser, mas também em suas perfeições, em seus propósitos e em suas promessas. Em virtude deste atributo ele é exaltado acima de tudo quanto há, e é imune de todo acréscimo ou diminuição e de todo desenvolvimento ou decadência em seu Ser e em suas Perfeições [...] Até a razão nos ensina que não é possível nenhuma mudança em Deus, visto que qualquer mudança é para melhor ou para pior. Mas em Deus, a perfeição absoluta, melhoramento e deterioração são igualmente impossíveis[7].











[1] Conf., XI. 7, 9
[2] Conf.,XI.10.11
[3] Ibid.,XI.10.11
[4] Ibid.,XI.10.12
[5] Ibid. XI.1.1
[6] Conf., XIII, 33, 48
[7] BERKHOF, 1998, p.61

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