quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A CONTRIBUIÇÃO DO CALVINISMO NA CRIAÇÃO DE UM AMBIENTE FAVORÁVEL À ÉTICA E À MORAL, A PARTIR DA ATITUDE INDIVIDUAL - Parte 1/3


O Calvinismo não é apenas uma sistematização teológica a partir de preceitos das Escrituras Sagradas. Ele é, antes, um Sistema, uma Cosmovisão de Mundo, capaz de refletir sobre as mais graves e profundas inquietações do homem, oferecendo-lhes respostas. Tendo a bíblia como a fonte fundamentadora de sua Cosmovisão, seu olhar sobre o homem, sobre Deus e sobre o mundo tem contribuído para promover grandes avanços na área social, na área econômica, na área política e em muitas outras áreas.

O Calvinismo realmente nos prevê uma unidade de sistema de vida [...]. Devemos perguntar quais são as condições requeridas para sistemas gerais de vida, tais como o Paganismo, o Islamismo, o Romanismo e o Modernismo, e então mostrar que o Calvinismo realmente preenche essas condições [...]. Portanto, como fenômeno central no desenvolvimento da humanidade, o Calvinismo não está apenas habilitado a uma posição de honra ao lado das formas paganista, islâmica e romanista, visto que como estes ele representa um princípio peculiar dominando o todo da vida, mas também satisfaz cada condição requerida para o avanço do desenvolvimento humano a um estágio superior. E isto permaneceria ainda uma simples possibilidade sem qualquer realidade correspondente, se a história não testificasse que o Calvinismo tem realmente induzido o rio da vida humana a fluir em outro canal e tem enobrecido a vida social das nações (KUYPER, 2002. p.28,47).

Lembo, escrevendo sobre isto ainda observa:

O Calvinismo não é somente um sistema teológico completo [....], mas também é uma completa biocosmovisão que determina para o calvinista o ponto de partida para toda a sua reflexão e sua vida prática; que determina enfim diretrizes pressuposicionais de qualquer área da vida e do pensamento (LEMBO, 2000. p.120).

Além disso, o calvinismo é capaz de promover, naqueles que abraçam essa Cosmovisão de mundo, um rigoroso sentido de busca pela Ética, pela Moral e pelas virtudes. Basta um olhar, ainda que não muito atento, para os países que, de alguma forma, foram influenciados pelo Calvinismo e logo ficará evidente que são países com um grau de justiça social e de desenvolvimento extremamente relevantes, como bem observa Weber:

Um simples olhar às estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição mista mostrará, com notável frequência, uma situação que muitas vezes provocou discussões na imprensa e literatura católicas.O fato de que os homens de negócios e donos do capital, assim como os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das modernas empresas é predominantemente protestante (WEBER, 2002. p.37)

Em tempos de colapsos, de relativismo das virtudes, da falta de Ética e da moral questionável, o Calvinismo tem surgido como sendo um antídoto interessante, já testado historicamente.

Esse ambiente favorável à Ética e à moral não é promovido apenas pelos chamados “calvinistas”. O próprio Calvino, no século XVI, pondo em prática a Cosmovisão de Mundo que tinha, influenciou grandemente, positivamente, e até com certa radicalidade moral, segundo alguns historiadores, a política, a economia e muitas outras áreas[1].

Calvino é um dos teólogos clássicos que mais escreveram sobre o governo civil e em suas ideias firma-se a tradição reformada sobre política. Sua atuação na cidade de Genebra não foi somente teológica e eclesiástica, mas [...] teve intensa atuação na estruturação da sociedade civil daquela cidade, participando igualmente da administração e dos detalhes operacionais do seu dia-a-dia (PORTELA, 1996, p.98).

Calvino, além de ter tido uma grande atuação na esfera Política e na Administração Civil, áreas das mais afetadas pela frouxidão Moral e Ética, também deu grande contribuição escrevendo sobre o tema. Em seu mais famoso trabalho  As Institutas da religião Cristã[2],  no Livro Quatro, capítulo 20, que tem por título “Do Governo Civil”, Calvino dedica 32 seções sobre o assunto.

Escrevendo sobre os governantes, Calvino deixa claro que é inconcebível que vivam de forma corrupta. Ele entendia a atuação do governo civil quase que como um ministério divino, conforme observa Portela, citando-o, no livro 4 capítulo 20:

Se eles cometem qualquer pecado isso não é apenas um mal realizado contra pessoas que estão sendo perversamente atormentadas por eles, mas representa, igualmente, um insulto contra o próprio Deus de quem profanam o sagrado tribunal. Por outro lado, possuem uma admirável fonte de conforto quando eles refletem que não estão meramente envolvidos em ocupações profanas [...], mas ocupam um ofício por demais sagrado, até porque são embaixadores de Deus (PORTELA, 2009, p.99).

E ainda, em seu tempo,

Genebra foi o primeiro lugar na Europa a ter leis especiais que proibiam [...]; sendo comerciante, cobrar além do preço permitido ou roubar no peso e também (e isso se estendia aos produtores) estocar mercadorias para fazê-las faltar no mercado e assim majorar o preço (NICODEMUS, 1998, p.131).

Calvino parece ter entendido como ninguém que:
                  
A compreensão do cristianismo como um sistema total de vida é fundamental para nosso engajamento nas questões de desenvolvimento, busca de equidade e justiça social em nosso tempo (LEITE, 2006. pg.57).

Biéler deixa isso muito claro ao citar as palavras de Calvino:

Os pobres aí estão como testemunhas do ministério de Jesus Cristo, destinados a serem reconhecidos como tais pelas pessoas de fé [...] e os ricos são ricos senão para exercer o ministério do rico, segundo Deus, que consiste em reconhecer que a parte suplementar que recebeu é precisamente destinada aos pobres (BIÉLER, 1990. p.643).

E ainda:

O homem é apenas o fiduciário dos bens que lhes foram entregues pela graça de Deus. Ele deve, como o servo da parábola, prestar contas até o último centavo do que lhe foi confiado, e seria no mínimo perigoso gastar qualquer deles apenas para seu prazer, em detrimento da glória de Deus. (BIÉLER, 1990. p.127).


[1] Embora não tenha ocupado nenhum cargo governamental, Calvino exerceu enorme influência sobre a comunidade, não somente no aspecto moral e eclesiástico, mas em outras áreas. Ele ajudou a tornar mais humanas as leis da cidade, contribuiu para a criação de um sistema educacional acessível a todos e incentivou a formação de importantes entidades assistenciais como um hospital para carentes e um fundo de assistência aos estrangeiros pobres. Conforme: http://www.mackenzie.br/7034.html, acessado em 31/08/2016.
[2] As Institutas: Calvino produziu ao todo oito edições do texto latino (1536-1559) e cinco traduções para o francês. A 1ª edição tinha apenas seis capítulos; a última totalizou oitenta. Equivale em tamanho ao Antigo Testamento mais os Evangelhos sinóticos e segue o padrão geral do Credo dos Apóstolos. Visava ser um guia para o estudo das Escrituras.Livro I:    O Conhecimento de Deus, o Criador: o duplo conhecimento de Deus, as Escrituras, a Trindade, a criação e a providência.Livro II:   O Conhecimento de Deus, o Redentor: a queda e a corrupção humana, a Lei, o Antigo e o Novo Testamento, Cristo o Mediador – sua pessoa (profeta, sacerdote, rei) e sua obra  (expiação).Livro III: A Maneira Como Recebemos a Graça de Cristo, Seus Benefícios Efeitos: fé e regeneração, arrependimento, vida cristã, justificação, predestinação, ressurreição final.Livro IV: Os Meios Externos Pelos Quais Deus nos Convida Para a Sociedade de Cristo: a igreja, os sacramentos, o governo civil. Conforme: http://www.mackenzie.br/15914.html, acessado em 02/09/2016.

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