segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A QUESTÃO DA ETERNIDADE EM AGOSTINHO DE HIPONA – PARTE 7/11


A controvérsia contra os Pelágio                                              

A antropologia pelagiana: centro da discussão

A outra controvérsia que leva Agostinho a trabalhar o conceito de eternidade, desta vez pelo prisma de sua Antropologia, é a controvérsia contra Pelágio e seus seguidores, por volta de 411 a 412, em Cartago. Monge Britânico, eunuco, natural da Irlanda, engajou-se em intenso conflito contra Agostinho, numa questão que envolvia basicamente o problema do livre-arbítrio humano.

Sproul, citando Harnack, demonstra a importância histórica desse debate, contando-o como um dos mais intensos e proveitosos:

A questão entre Pelágio e Agostinho era clara. Não estava ofuscada por argumentos teológicos intricados, especialmente no começo. “nunca houve, talvez, uma outra crise de igual importância na história da igreja na qual os oponentes tenham expressado os princípios em debate tão clara e abstratamente. Somente a disputa Ariana pode ser comparada a ela”[1].
                       
Para Pelágio, o homem continuava habilitado, mesmo depois da queda, a fazer o bem se assim desejasse e que não se fazia necessário uma assistência especial da graça de Deus para que o ser humano o obedecesse.

Ele acreditava que o homem estava habilitado para atender a todos os chamados de Deus e quando Ele o convoca a arrepender-se é porque o homem pode fazer isto, por ele só, sem que seja necessário o auxílio da Graça Divina; caso contrário, Deus não o haveria ordenado, pois não ordena nada que seja impossível. A idéia de livre-arbítrio é predominante no pensamento Pelagiano. Para ele, o homem pode alcançar tudo o que se requer dele, quer em assuntos que digam respeito à moral quer em assuntos pertinentes à religião e à sotereologia, por meio de seu próprio esforço. Esta habilidade do homem se estende, em Pelágio, inclusive, à escolha do seu eterno destino.

Para efeito didático, veremos resumidamente as premissas do Pensamento Pelagiano com o objetivo de contrastar, posteriormente, com o Pensamento Agostiniano sobre o destino dos homens e a continuação da vida de sua alma, de sua consciência; o que, conseqüentemente, nos conduzirá de volta à questão do tempo, fazendo um  contraponto entre duração e eternidade.

A primeira premissa é que Deus é bom e as outras decorrem basicamente desta. A segunda é que Deus sendo completamente bom, criou tudo igualmente bom, sendo boa toda sua criação; isto inclui o homem que tem a liberdade como bem supremo. Para Pelágio, a essência do livre-arbítrio do homem consiste em sua habilitação para escolher entre o bem e o mal, tendo recebido essa habilitação, como parte integrante de sua natureza, do próprio Deus. A terceira premissa aponta para a impossibilidade de mudança nessa natureza, livre e boa do homem, aconteça o que acontecer. Para ele, não há corrupção inerente no homem; muito menos alguma coisa o impele para o pecado ou para o mal; cada maldade que o homem pratica “flui de um novo começo, um bloco limpo de papel que não é inscrito a priori com alguma predileção”[2]. Sua quarta premissa ensina que a natureza humana, como tal, é inalteravelmente boa, isto é, o homem é essencialmente bom. A quinta premissa de seu pensamento indica que o mal ou pecado nunca pode transformar-se em natureza; para ele, o pecado é sempre um ato, nunca uma natureza. Essa mesma maldade, no homem, não pode ter sido herdada. Na sexta premissa Pelágio de certa forma retira a culpabilidade do homem. Segundo ele a maldade é fruto das armadilhas de satanás e da concupiscência sensual. Isto equivale dizer que a maldade não é interior ao homem mas age nele de forma extrínseca. A sétima premissa aponta para a possibilidade do homem, por ele mesmo, alcançar a perfeição. Pelágio não só acreditava ser isto possível como reconhecia também que alguns homens haviam conseguido tal façanha; isto posto, devido seu pensamento contrário à tese do pecado original ou ainda da hereditariedade da maldade. Na oitava premissa Pelágio ensina que o primeiro homem foi criado livre e possuidor de um livre arbítrio completo e que essa habilidade natural, por ser um dádiva e não adquirida por ele, não poderia ser mudada porquanto lhe foi atribuída e outorgada em sua criação. A nona premissa indica que o primeiro homem pecou por vontade própria, ou seja, não foi coagido por ninguém e nem mesmo pela sua própria natureza a errar, fez porque escolheu fazer, porque era livre para isto. Este pecado do primeiro homem não pode, segundo ele, ser a causa da morte dos seus descendentes pois, tanto ele como estes foram criados já com a mortalidade em sua natureza. De onde decorre a décima premissa que afirma categoricamente que a posteridade do primeiro homem não herdou nem a morte física nem a morte espiritual, simplesmente morre sua descendência porque, à semelhança do material genético inicial, também é mortal; e ainda, se morre uma morte espiritual, isto é, a separação definitiva de seu criador, é por culpa particular, não podendo ser atribuída culpabilidade ao tronco da espécie. Assim também afirma a décima primeira premissa. Pelágio considerava a doutrina do pecado transmitido “como uma doutrina blasfema arraigada no maniqueísmo. Pelagio insistia que seria injustiça de Deus transmitir ou imputar o pecado de um a outros”[3]. A décima segunda premissa afirma que todos os homens são criados por Deus na mesma condição de Adão antes da queda. Isto equivale dizer que o homem nasce natural e essencialmente bom. Em sua décima terceira premissa afirma que  o hábito de pecar enfraquece a vontade; mas isto, em hipótese alguma deve ser interpretado como uma mudança de natureza. A décima quarta premissa revela que Pelágio não rejeitava de todo a graça. Para ele, a graça facilita a bondade, o que não significa dizer que o homem só pode ser bom com o auxilio da graça, ao contrário, ele pode ser bom sem essa assistência, seguindo sua própria natureza boa. A décima quinta premissa afirma que a graça de Deus é dada no ato da criação, isto é, ela vem incorporada à sua natureza que é essencialmente boa e daí decorre que não pode haver mudança de essência. A décima sexta premissa aponta para a graça da instrução, que muito embora não possua nenhum valor de modificação no interior do homem ela produz uma clara definição da bondade. A décima sétima afirmação pelagiana afirma que a graça é dada não só por meio da lei mas também por meio de Cristo, cuja principal obra foi tão somente nos fornecer o exemplo da bondade. E, por fim, sua ultima argumentação ensina que a graça de Deus é compatível com sua justiça, ou seja, ela não fornece benefício adicional algum mas é dada mediante o mérito de cada um, isto é, uma graça que não é graça, uma graça merecida.

Como vimos as principais reivindicações pelagianas diziam respeito à sua Antropologia, ao seu conceito de homem, como afirma Sproul citando Schaff, fazendo  a seguinte observação acerca da Antropologia de Pelágio:

Pelágio, destituído da idéia do todo orgânico da raça ou da natureza humana, via Adão meramente como um indivíduo isolado; ele não deu a Adão nenhum lugar representativo, logo seus atos não acarretavam conseqüências além de si mesmo. Em sua visão, o pecado do primeiro homem consistiu de um único e isolado ato de desobediência ao comando divino [...]. Esse ato de transgressão único e desculpável não gerou conseqüências à alma e nem ao corpo de Adão, muito menos à sua posteridade, onde todos se mantém ou caem por si mesmos[1].

Apesar de sua antropologia diferenciada da habitual, Pelágio tentava manter-se ligado à Igreja e por vezes até fazia questão de ser considerado como um ortodoxo:

Orósio, um amigo e discípulo de Agostinho, solicitou uma sindicância contra Pelágio em 415, mas Pelágio foi exonerado. Em dezembro desse mesmo ano, um sínodo palestino denunciou alguns escritos de Pelágio. Quando o sínodo exigiu que ele renunciasse ao seu ensino de que o homem pode estar sem pecado sem a ajuda da graça, Pelágio capitulou. Ele disse, “eu os anatemizo como insensatos, não como heréticos, visto não ser caso de dogma”. Ele repudiou o ensino de Coelestius, dizendo: “Mas as coisas que declarei não serem minhas, eu, de acordo com a opinião da santa igreja reprovo, pronunciando um anátema a todo aquele que se opuser” [...] Como resultado Pelágio foi considerado ortodoxo. [...] Isso deixou Pelágio com a difícil tarefa de recuperar a sua credibilidade diante de seus próprios defensores [...] e Agostinho disse, “não  foi a heresia que foi absolvida lá, mas o homem que a negou”. Dois sínodos norte-africanos aconteceram em 416 e ambos condenaram o pelagianismo[2].

Fica claro no Pensamento Pelagiano uma visão positiva acerca do homem e isto influencia todo o restante da sua construção intelectual. Para ele a queda do homem não trouxe para si uma repentina destruição, muito menos ainda para sua descendência:

O homem pelagiano goza de perfeito equilíbrio moral.
O pecado não atinge sua natureza, mas seu mérito. Quando peca, torna-se culpável de sua má ação. Perdoado volta à sua perfeição. Não é prisioneiro de uma inclinação mórbida para o mal[3].




[1] SPROUL, 2001, p.35
[2] Ibid., p.40
[3] AGOSTINHO. A graça . São Paulo: Editora Paulus, 1999, p.105


[1] SPROUL, R.C. Sola Gratia.: a controversia sobre o livre arbítrio na história. São Paulo: Ed.Cultura Cristã, 2001, p.31
[2] SPROUL, 2001, p.33
[3] SPROUL, 2001, p.34

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