quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A QUESTÃO DA ETERNIDADE EM AGOSTINHO DE HIPONA – PARTE 6/11


A segunda controvérsia contra os Maniqueus: O Problema do Mal. Cont.

Esta questão da origem do mal afligiu o coração de Agostinho e foi uma das razões que o fez enveredar pelo caminho maniqueu, pois acreditava ter encontrado nesta seita uma resposta que pudesse ao mesmo tempo explicar a origem do mal e isentar Deus de tal culpa. O prof.Drº Marcos Roberto Nunes Costa, em sua importante obra “O Problema do Mal na Polêmica Antimaniqueia de Santo Agostinho”, clarifica isso. Diz ele:


Os maniqueus, e agostinho, durante o tempo em que pertenceu a essa seita, estavam preocupados em  responder a uma simples pergunta: como é possível conciliar as maldades presentes no mundo – as injustiças, as desgraças, os ódios, as pestes, as calamidades, as misérias dos homens, os defeitos das sociedades e muitas outras com a bondade de Deus? Ou seja, Deus, O Bem, pode ser causa do mal? Ou devemos atribuir a outro ser tão poderoso quanto Ele a causa do mal? Tentando responder a tal dilema, os maniqueus vão construir uma doutrina que isenta Deus de toda responsabilidade pelos males existentes no universo e o homem pelas maldades praticadas individualmente[1].

O próprio Agostinho quando esteve como ouvinte entre os maniqueus concordava e de certa forma nutria a idéia da possibilidade do mal ter sido criado por outra divindade. Diz ele:

Certa religiosidade que possuía me obrigava a crer que um deus bom não podia ter criado uma natureza má [...], me parecia mais justo crer que não tivesses criado  mal nenhum, do que acreditar que a natureza do mal – como eu a imaginava – proviesse de ti[2].

Por fim, reconhece que “desse princípio peçonhento derivam todos os outras idéias errôneas”[3]. Afastado do Maniqueísmo ele agora entende o erro deles com relação à criação de todas as coisas, como afirma:

Com  atenção procurei saber se por sete ou oito vezes viste que as tuas obras eram boas, quando te agradaram. Mas não encontrei uma seqüência de tempo, enquanto contemplavas, pela qual pudesse deduzir quantas vezes contemplaste tuas criaturas. E eu disse: “Senhor, por acaso não será verdadeira a tua Escritura, ditada que foi por ti, que és verdadeiro ou melhor, que és a própria verdade? E porque então me dizes que a visão dos seres criados não está sujeita ao tempo, quando a tua Escritura me afirma que dia por dia estavas vendo que as tuas obras eram boas, e que eu, contando, encontrei o número de vezes que as contemplastes? A esta minha pergunta, respondes que tu és o meu Deus e dizes, falando com voz poderosa ao ouvido interior do teu servo, respondendo-lhe a surdez e clamando: “Homem, o que a minha Escritura diz, eu o digo. Mas ela o diz no tempo, e este não atinge o meu verbo, que subsiste comigo numa eternidade igual à minha. Assim o que vedes através do meu espírito, sou eu que vejo; o que dizeis pelo meu espírito, sou eu que digo. Mas, o que vedes no tempo, eu não vejo no tempo; assim também o que dizeis no tempo, eu não o digo no tempo[4].            

E ainda,

Escutei, Senhor meu Deus, e consegui recolher uma doce gota da tua verdade. Compreendi que a alguns desagradam as tuas obras. Sustentam que muitas delas criaste impelido pela necessidade; assim por exemplo, a estrutura dos céus e o sistema dos astros. Dizem que essas não foram criadas por ti, mas que já existiam, provindas de outra fonte. Tu as terias apenas reunido, compondo-as e coordenando-as, quando edificaste as muralhas do mundo, depois de teres vencido os teus inimigos, para que cativos, nessa construção, não pudessem de novo rebelar-se contra ti. Quanto aos outros seres, não os terias criado nem ao menos ordenado; assim por exemplo os corpos carnais, os animais menores e tudo o que se radica na terra; teria sido um espírito hostil e uma natureza não criada por ti e oposta à tua; quem teria gerado e formado tais seres nas regiões inferiores do universo. São loucos os que assim falam porque não vêem as tuas obras através do teu espírito; nem nelas te reconhecem[5].
            
Em relação à origem do mal, Agostinho tentou convencer os maniqueus que a existência de qualquer coisa que seja, no céu, no mar, no ar ou na terra, é criação de Deus; no caso do mal, por ser criatura, foi Deus também que criou, contudo, não podendo ser responsabilizado moralmente por sua utilização.

A clareza em relação à criação de tudo e de todas as coisas inundou a mente de Agostinho fazendo-o corrigir seu antigo erro e ao mesmo tempo entender que tudo é perfeito e todas as coisas existem para determinados fins, como partes integrantes de um grande projeto.

Agostinho chega a esta conclusão já no final de suas “Confissões”, como reconhece:

“No Espírito Santo nós vemos que é bom tudo o que de algum modo existe, porque precede, não de quem existe em certo grau, mas daquele que é por essência”[6].

Assim sendo, Agostinho mais uma vez reafirma a eternidade e o poder criacional de Deus.

Evidentemente que esse tema – a origem do mal – precisa de um trabalho especificamente sobre ele. Há muitas outras questões a serem abordadas, como por exemplo, o tratamento que Agostinho dá a essa questão na sua obra “Livre Arbítrio”, onde parece intentar uma “defesa” de Deus, em relação a suposta criação do mal. Sobre essa obra, vale salientar que foi revisitada e repaginada por Agostinho, no que diz respeito a muitos assuntos ali abordados, inclusive o “Livre-Arbítrio”, mudando radicalmente sua posição inicial, como pode ser visto em sua última obra “A Graça”. Outro tema a ser pensado dentro desse assunto é a influência de Plotino na formulação do conceito de mal de Agostinho. Sendo ele – Plotino – um neoplatônico, entendia o mal como sendo o distanciamento ou a ausência do Sumo Bem e não um ente. Todas essas são facetas desse difícil tema – O problema do mal – que precisam ser aprofundadas. Aqui, porém, não é nosso objetivo principal, visto que o que nos interessa é a questão da eternidade.



[1] COSTA, Marcos Roberto Nunes. O problema do mal na polêmica antimaniquéia. Porto Alegre: Edipuc, 2002, p.58,59.
[2] Conf., V.10,20
[3] Ibid.,V.10,20
[4] Ibid., XIII, 29,44
[5] Conf., XIII, 30, 45
[6] Ibid., XIII, 31,46

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