quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A TEOLOGIA DE LUIZ GONZAGA E A DEPRAVAÇÃO TOTAL DO HOMEM. UMA HOMENAGEM AO CENTENÁRIO DE GONZAGÃO - Parte 2/3



Como vimos na postagem anterior, a afirmação de Luiz Gonzaga em sua lendária música “Apologia ao jumento” é que o homem é mau. Provavelmente o Rei do Baião, como já dissemos, não tinha noção das implicações teológicas de sua afirmação. Mas, a partir dela, iremos desenvolver o tema acerca da condição do homem. Por que é importante saber da condição do homem diante de Deus? Primeiro porque esse assunto está diretamente ligado à sua própria salvação.  Segundo porque só há uma forma de receitar o remédio correto: através de um correto diagnóstico da doença. Ou seja, se o homem  é bom, o remédio será um; provavelmente bem fraco ou até mesmo não haja necessidade de sua prescrição. Se, ao contrário, o homem é realmente mau, como afirma Gonzaga, o remédio prescrito será bem mais poderoso; talvez o mais poderoso de todos.

Devemos nos certificar sobre o estado do homem no que diz respeito ao seu direito de escolha, à liberdade que supostamente tem, ao seu Livre-arbítrio. Para tanto iremos abordar o primeiro ponto da doutrina calvinista: A depravação total do homem, contudo, para fins analíticos, vamos transcrever tanto o primeiro ponto do calvinismo como também o primeiro ponto do Arminianismo, refutador principal da doutrina de Calvinista. Começaremos com ele:

ARMINIANISMO

O homem é dotado de vontade livre. Armínius  acreditava que a queda do homem não foi total e sustentou que, no homem, restou bem suficiente, capaz de habilitá-lo a querer aceitar Cristo como Salvador.

CALVINISMO

O homem não regenerado é totalmente incapaz de exercer sua própria vontade livremente para salvar-se, sendo absolutamente escravo do pecado e, dependendo, portanto, da intervenção  de Deus, que  vivifica o homem (regeneração) antes que este possa crer em Cristo.


A DEPRAVAÇÃO TOTAL DO HOMEM

a)   Situação do homem antes da queda, conforme a interpretação dos teólogos  da Assembleia de Westminster:

Deus dotou o homem de liberdade natural, e não era obrigado a fazer nem o bem  nem o mal (Tiago 1:14; Deut. 30:19; João 5:40; Mat. 17:12; At.7:51; Tiago 4:7). O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder (Ec. 7:29; Col. 3: 10; Gen.  1:26 e 2:16-17 e 3:6), conforme Confissão de Fé de Westminster, Capítulo IX.I,II.

b)   Situação do homem depois  da queda, conforme a interpretação dos teólogos  da Assembleia de Westminster:

O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu pr6prio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso (Rom 5:6 e 8:7-8; João 15:5; Rom 3:9-10,12,23; Ef.2:1, 5; Col. 2:13; João 6:44, 65; I Cor. 2:14; Tito 3:3-5.). Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua natural escravidão ao pecado e, somente pela sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção, ainda nele existente, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau. (Col 1:13; João 8:34, 36; Fil 2:13; Rom 6:18,22; Gal 5:17; Rom 7:15, 21-23; I João 1:8, 10) , conforme Confissão de Fé de Westminster, Capítulo IX.III,IV.

Como vimos acima, o homem, antes da queda, possuía uma natureza boa. Depois da queda ela é totalmente corrompida pelo pecado, ficando o homem completamente averso às coisas de Deus, como se, de fato, estivera morto espiritualmente, sendo  assim, completamente incapaz de, por ele mesmo, buscar a Deus ou mesmo desenvolver bondade tal que o habilite, por merecimento, a um retorno à comunhão com Deus.

O homem recebeu uma ameaça solene de Deus: De toda árvore do jardim comerás livremente,  mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” (Gêneses 2:16,17). Satanás, porém, mentindo, disso o contrário: “É certo que não morrereis” (Gêneses 3:4). Acreditar que a queda não trouxe morte espiritual ao homem, isto é, a depravação total de sua natureza, como afirmam Agostinho, Lutero, Calvino e até Luiz Gonzaga, é dar ouvido a voz de Satanás e desprezar a ameaça solene de Deus.

O homem é  tão degradado quanto pode ser. O homem está além de toda capacidade de se auto-ajudar, como diz Paulo em (Ef 2:2-3). Ponto também defendido por Lutero, Calvino e Knok. O espírito do homem está morto.

O homem em seu estado natural é incapaz de fazer qualquer coisa ou desfazê-la para agradar a Deus, no que se refere à salvação (Gn 6:5).

Do ponto de vista de Deus, todos os homens (não regenerados) estão sob condenação, porque amou o pecado e este o impede de dar glória a Deus. E para os que afirmam que existe no coração do homem o bem divino, veja as afirmações da bíblia nestes textos (Rm 3:10-11; Jo 3:19).

O homem é totalmente depravado, no sentido de que tudo, na sua natureza, é rebelião contra Deus (Is 64:6). A depravação total significa que o homem, por sua livre vontade, nunca se decidirá por Cristo (Jo 5:40,42). E por que Jesus diz isto? Paulo explica a Timótio (II Tm 2:26).

A depravação total significa que o homem natural é incapaz de discernir a verdade de Deus (I Co 2:14).

Só pode ver ou discernir as coisas de Deus quem é regenerado pelo Espírito Santo (Jo 3:3-4).

O homem natural não pode ver a “luz”, porque nasceu espiritualmente morto (Sl 51:5). A só vem depois do dom ou dádiva da  vida (espiritual), e tanto a fé como a vida é Deus quem os dá (Ef 2:1,4,5).

O homem não é salvo por algum ato de sua livre vontade. Ele é salvo pela graça (Ef 2:8-9).

As escrituras afirmam que o homem é escavo do pecado, está espiritualmente morto, que amou mais as trevas do que a luz, e que só pode ouvir a voz de satanás, a menos que Deus lhe dê ouvidos para ouvir e olhos para ver (Pv 20:12; Jo 8:43-44, At 16:14).

Depravação total significa que o homem  não regenerado está enredado no pecado, sem esperança e atado a satanás com laços da morte espiritual, e por isso desinteressado pelas coisas do criador, até o tempo daqueles laços serem quebrados, da morte ser substituída pela vida eterna, coisa que só a obra de Deus pode realizar. Veja o que Paulo diz aos eleitos (Ef 2:11-13).

Assim como Lázaro jamais teria ouvido a voz de Jesus nem jamais teria “saído do túmulo”, sem que primeiro Jesus lhe tivesse dado vida, assim todos os homens, mortos em seus delitos e pecados, devem primeiro receber a vida de Deus (regeneração),  antes de poder querer a vida, por sua “livre vontade”  (Jo 10:26-28).

A doutrina da Depravação Total afirma que a única esperança do “morto pelo pecado”, do homem perdido, está na eleição (Jo 8:47).

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A TEOLOGIA DE LUIZ GONZAGA E A DEPRAVAÇÃO TOTAL DO HOMEM. UMA HOMENAGEM AO CENTENÁRIO DE GONZAGÃO - Parte 1/3


Que Luiz Gonzaga, também conhecido como Rei do Baião, foi  um dos maiores e mais importantes cantores da música popular brasileira, isso todo mundo já sabe. Que exatamente hoje, 13/12/2012, se estivesse vivo, estaria completando 100 anos, isso todo mundo também já sabe.  Aliás, como prova disso, as justíssimas homenagens se espalham por todo o Brasil. 

Luiz Gonzaga, como todos também já sabem, era Pernambucano, da cidade de Exu. Por conta disso, os Pernambucanos, com sua conhecida mania de grandeza, pelas glórias do passado e por ser hoje o Estado que mais cresce no Brasil são, muitas vezes, tentados a reivindicarem para si  a "naturalidade exclusiva de Gonzaga". Tudo bem que aprouve a Deus que ele nascesse nessa "terra dos altos coqueiros, de beleza soberbo estendal", mas seu Luiz e sua obra pertencem ao patrimônio histórico-cultural Mundial. Ele não apenas cantava um ritmo, como é próprio dos que são apenas cantores. Ele os inventava e depois, como criador que conhece profundamente sua criação, demonstrava como deveria ser cantado. 

O que muita gente não sabe é que o genial Luiz Gonzaga fez uma das mais profundas e importantes afirmações teológicas: "O homem é mau". Aquilo que os grandes teólogos da história do cristianismo dizem em centenas de páginas em compêndios teológicos, Luiz Gonzaga dizia cantando, em sua lendária música "Apologia ao jumento". Ele "matava a cobra e mostrava o pau", como se diz no Sertão. Dizia e provava. Ele desnudava o mal residente no nosso coração decaído com um testemunho simplório, mas muito revelador. Depois de elencar uma série de benefícios que o jumento, historicamente, proporcionou ao homem, ele pergunta: 

"E o homem? Em retribuição o que é que lhe dá? Castigo", responde ele mesmo e continua: "pau, nas pernas, no lombo, no pescoço, nas ureia; e quando o bichinho não aguenta mais o peso duma carga e se deita no chão, o homem faz é um foguinho debaixo do rabo dele". E conclui: "o homem é mau".  Veja uma animação dessa música abaixo:


Gonzaga percebeu, como poucos, que esse tipo de atitude é inerente à natureza humana, que não são raras as vezes que o homem sente prazer na dor do outro ser. Evidentemente que ele não vislumbrava a dimensão dos desdobramentos teológicos dessa afirmação, contudo, intuitivamente, talvez por experiência própria, ele sabia: o homem é mau. Na verdade, sentimos uma forte identificação com e pelo mal; pelo erro, e pior: gostamos dele.   Já assim nascemos,  mau. Herdamos de nossos pais o "gen" do pecado.  "Pecamos porque somos pecadores e não o contrário; isto é, ser pecador porque pecamos". Precisamos ensinar o mal aos nossos filhos? Existe a necessidade de escolas e cursos para os mais variados crimes? Alguém precisou fazer um curso intensivo de como tornar-se um viciado em crack? Obviamente que não. O mal, esse já sabemos fazer. Fazer o mal é simples para nós; é fácil. Fazer o bem e aprender coisas boas é uma luta constante.

Alguém em sã consciência ousaria discordar do Rei do Baião?  

Um dos mais brilhantes teólogos e filósofos de todos os tempos, Agostinho de Hipona, em suas Confissões, faz um relato surpreendente de como sua própria vontade corrompida tinha prazer no pecado, no erro, no mal. Diz ele, em perfeita harmonia com Luiz Gonzaga, mas, por ser "dotor", em palavras "bunitas":  "o homem é mau". Vale à pena ler:

Tua lei, Senhor, condena certamente o furto, como também o faz a lei inscrita no coração humano, que a própria iniquidade não consegue apagar. Nem mesmo um ladrão tolera ser roubado, ainda que seja rico e o outro cometa o furto obrigado pela miséria. E eu quis roubar, e o fiz, não por necessidade, mas por falta de justiça e aversão a ela por excesso de maldade. Roubei de fato coisas que já possuía em abundância e da melhor qualidade; e não para desfrutar do que roubava, mas pelo gosto de roubar, pelo pecado em si. Havia, perto da nossa vinha, uma pereira carregada de frutos nada atraentes, nem pela beleza nem pelo sabor. Certa noite, depois de prolongados divertimentos pelas praças até altas horas, como de costume, fomos, jovens malvados que éramos, sacudir a árvore para lhe roubarmos os frutos. Colhemos quantidade considerável, não para nos banquetearmos, se bem que provamos algumas, mas para jogá-las aos porcos. Nosso prazer era apenas praticar o que era proibido. […] Que o meu coração te diga, agora, o que procurava então, ao praticar o mal sem outro motivo que não a própria malícia. Era asquerosa e eu gostava dela… Pobre alma embrutecida, que se apartava do teu firme apoio para autodestruir-se, buscando, não algo desonesto, mas a própria desonestidade! […] Eu, miserável, o que foi que amei em ti, furto meu, noturno delito dos meus dezesseis anos? Não eras belo, pois eras roubo!… Sim, eram belas aquelas frutas, mas não era a elas que minha alma infeliz cobiçava, eu as possuía em abundância e melhores. Eu as colhi somente para roubar, e uma vez colhidas atirei-as fora para saciar-me apenas com a minha maldade, saboreada com alegria. Se alguma tocou meus lábios, foi o meu crime que me deu sabor.[…] Talvez eu tenha sentido prazer em agir contra a lei pela fraude… Eis-me aqui, escravo que foge do seu senhor, à procura da escuridão. Oh, podridão! Oh, vida monstruosa! Oh, abismo da morte! Como pude achar prazer no ilícito somente por ser ilícito?… Eu, que amei o pecado por si mesmo, sem motivo?… Daquele furto que me satisfez pelo furto em si e nada mais? De fato, ele em si nada valia, e por isso me tornei ainda mais miserável! No entanto, eu não o teria praticado, se estivesse sozinho. Lembro-me bem do meu estado de alma: sozinho não o teria feito absolutamente. Portanto, amei também no furto a companhia daqueles com quem o cometi; daí não ser verdade ter amado apenas o furto em si. […] Se eu tivesse na ocasião desejado de fato aqueles frutos que roubei, e com eles me tivesse regalado, poderia tê-los roubado sozinho. Poderia ter cometido a iniquidade, satisfazendo o meu desejo, sem necessidade de estimular, por outras companhias, o prurido de minha cobiça. O fato é que não eram os frutos que me atraíam, mas a ação má que eu cometia em companhia de amigos que comigo pecavam. […] Era uma vontade de rir que nos acariciava o coração ao pensar que estávamos enganando os que não esperavam de nós semelhante ato e muito o detestariam. Por que eu me divertia ainda mais por não praticá-lo sozinho? Talvez porque seja mais difícil rir sozinho? Sim, é mais difícil. No entanto, acontece às vezes que rimos sozinhos, sem a presença de outros, se algo muito ridículo se apresenta aos nossos sentidos ou ao nosso pensamento. Ah! sozinho eu não teria praticado tal ação; absolutamente, não o faria! Meu Deus, eis diante de ti a lembrança viva de minha alma. Sozinho, eu não cometeria aquele furto, no qual não me comprazia na coisa que eu roubava, mas no ato de roubar; sozinho, não me teria atraído a ideia de roubar, nem sequer teria roubado. Oh! Amizade tão inimiga! Oh, sedução misteriosa da mente, vontade de fazer o mal por brincadeira ou diversão, gracejo, prazer de lesar os outros sem vantagem pessoal ou sede de vingança! Basta que alguém diga: “Vamos! Mãos à obra”! E temos vergonha de não ser despudorados  (Confissões, Santo Agostinho, São Paulo: Editora Paulus, 1984, 446p).


E não pense o senhor que somente Agostinho concordava com Gonzaga não. Na segunda postagem dessa série traremos a opinião de outros renomados teólogos acerca da natureza humana. Demonstraremos também quem é o homem aos olhos de Deus à luz das Escrituras Sagradas. Na terceira e última postagem, abordaremos a única solução de Deus para esse mal que nós, pela nossa própria vontade, nos metemos. Aguardem!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O CAOS INSTALADO PELO CRIME ORGANIZADO EM SÃO PAULO E SANTA CATARINA E A QUEBRA DO SEXTO MANDAMENTO: NÃO MATARÁS


O Brasil assiste estarrecido e passivo à onda de ataques provocada pelo crime organizado em São Paulo e Santa Catarina. A impressão que temos é que apenas o “crime é organizado”. O Estado, mesmo com o arsenal que dispõe, simplesmente não consegue sufocar esses atrevidos.

Eles são frios, assassinos, sanguinolentos e o pior de tudo: reincidentes. Eis a origem do recente problema. Eles são reincidentes. O Estado, sob a aprovação da sociedade, de certa forma, oportuniza a reincidência, colhendo, agora, os frutos dessa escolha e acordo coletivo, tornando-se, também, alvo dos meliantes. O braço armado do Estado, a polícia, está sob a mira dos marginais. Virou alvo; fácil, diga-se de passagem. Isso é gravíssimo; um verdadeiro atentado contra as instituições democráticas. Num Estado onde nem mesmo a polícia se sente protegida, o que deve esperar o cidadão comum?

Quantos pais de família terão ainda suas vidas ceifadas, muitas vezes na frente de seus filhos, como temos visto, por bandidos que trazem em sua folha corrida diversas outras mortes? Segundo a própria polícia, a ordem para as execuções de policias partiu de dentro dos presídios, de presos que já estão cumprindo pena pelo crime de assassinato. Isso é ou não é a promoção da oportunidade de reincidência?

Esses bandidos banalizam a vida humana, num flagrante de quebra do sexto mandamento, que ordena: “Não matarás”. Sim, senhores, nem mesmo os bandidos estão isentos do julgamento da Lei Moral de Deus. Eles sabem disso; todos nós sabemos. Por mais perversos que sejam eles têm consciência do seu próprio erro. A Lei Moral de Deus, gravada no coração de todo homem, seja crente ou ateu, atormenta suas mentes dia e noite, acusando-os de quebra do mandamento. Por isso se escondem; por isso fogem.

De acordo com o Catecismo Maior de Westminster, o sexto mandamento pressupõe duas dimensões de entendimento:


a) A dimensão pessoal: São deveres e proibições direcionados aos indivíduos. Exemplos de deveres exigidos: Retribuir o mal com o bem; estar pronto a reconciliar-se; evitar todas as ocasiões que tendam a tirar injustamente a vida de alguém; Perdoar pacientemente as ofensas. Exemplo de proibições: tirar de qualquer modo a nossa vida ou de outros, exceto em casos de defesa necessária.

b) A dimensão Social: São deveres e proibições direcionados ao Estado. Exemplos de deveres exigidos    Proteger a vida. Exemplo de proibições: tirar de qualquer modo a vida de outros, exceto em caso de justiça publica e guerra justa; negligência ou retirada dos meios lícitos e necessário de preservação da vida.


O objetivo maior do mandamento é o esforço contínuo para promover a preservação da vida. Ao indivíduo e ao Estado está proibido tirar a vida de forma injusta. Porém, diferentemente do que possa parecer, o mandamento não é uma proibição absoluta de matar. Quando o indivíduo mata em legítima defesa, por exemplo, e somente nesse caso, ele não quebra o mandamento. Quando o Estado, usando seu poder de espada, outorgado por Deus, executa um malfeitor, após justo julgamento, impondo-lhe a pena capital, em retribuição ao seu crime de assassinato e com objetivo nobre de preservar a vida das outras pessoas da sociedade e promover a justiça social, no sentido de não lhe permitir a possibilidade de reincidência, igualmente não quebra o sexto mandamento. Por outro lado, devemos notar que a omissão do dever de “proteger a vida” é que constitui quebra de mandamento.

O que está ocorrendo em São Paulo e em Santa Catarina e que se alastrará, certamente, por outras regiões do Brasil, é tão somente a omissão do Estado do seu dever primaz de “proteger a vida” do seu cidadão. E, se assim preferir,  o preço da laicidade levada ao extremo.

Enquanto isso, a sociedade desnorteada promove caminhadas pedindo paz. Marginais sanguinolentos sempre existiram e continuarão a existir. Certamente esse tipo de movimento não produz nenhuma comoção e sentimento de arrependimento em seus corações. A sociedade deve, sim, exigir de seus legisladores leis mais severas que realmente protegem suas vidas e punam duramente os marginais, especialmente os assassinos.

Até quando a sociedade suportará essa situação? Quando retomará o debate acerca da necessidade da aplicação da pena de morte? Penso que ainda haverá muita resistência. Mas, quando a situação ficar insustentável, e caminhamos a passos largos para isso, quereremos voltar a esse preceito Bíblico. Só esperamos que não seja tarde de mais.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

SIMPÓSIO REFORMADO EM RECIFE - OS 5 SOLAS DA REFORMA PROTESTANTE



Em outubro de 2012 acontecerá na cidade do Recife um grande evento em comemoração aos 495 anos da Reforma Protestante.


É o Simpósio de Teologia Reformada sobre OS 5 SOLAS da Reforma, que acontecerá na 1ª Igreja Presbiteriana do Jordão, sito à rua Drº José Martorano, 402 – Jordão Baixo.

Os cinco solas são frases latinas que surgiram durante a Reforma Protestante e princípios fundamentais da Reforma Protestante em contradição com o ensinamento da Igreja Católica Romana da época. A palavra latina "sola" significa "somente" em Português. Os cinco solas sintetizam os credos teológicos básicos dos reformadores, pilares os quais creram ser essenciais da vida e prática cristã. Todos os cinco implicitamente rejeitam ou se contrapõe aos ensinamentos da então dominante Igreja Romana, a qual tinha na mente dos reformadores usurpado atributos divinos ou qualidades para a Igreja e sua hierarquia, especialmente seu superior, o Papa. http://pt.wikipedia.org/wiki/Cinco_solas.

Veja abaixo os temas,  resumo das palestras e preletores:

Solus Christus – 14/10/12 – 9:30hs.

Reafirmamos que nossa salvação é realizada unicamente pela obra mediatória do Cristo histórico. Sua vida sem pecado e sua expiação por si só são suficientes para nossa justificação e reconciliação com o Pai.

Negamos que o evangelho esteja sendo pregado se a obra substitutiva de Cristo não estiver sendo declarada e a fé em Cristo e sua obra não estiver sendo invocada. 

Preletor: Rev.Gaspar de Souza: Pastor da IPB Guararapes; Mestrando em Teologia Filosófica pela Mackenzie(SP); Professor de Teologia, Apologética e Hermenêutica  do  SPN.

Sola Gratia – 14/10/12 – 18:30hs

Reafirmamos que na salvação somos resgatados da ira de Deus unicamente pela sua graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, soltando-nos de nossa servidão ao pecado e erguendo-nos da morte espiritual à vida espiritual.

Negamos que a salvação seja em qualquer sentido obra humana. Os métodos, técnicas ou estratégias humanas por si só não podem realizar essa transformação. A fé não é produzida pela nossa natureza não-regenerada. 

Preletor: Rev.Marcos André: Pós-Grad.em Revitalização e Multiplicação de Igrejas  e  Mestrando  em Teologia Sistemática pela Mackenzie(SP); Diretor do SPN; Membro da APMT e da SBB.

Sola Scriptura – 21/10/12 – 9:30hs.


Reafirmamos a Escritura inerrante como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado.

Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação. 

Preletor: Rev.Edijece Martin: Bel.Teologia pelo SPN; Mestre em Teologia pelo Union Theological Seminary-EUA; Doutor-PhD pelo Princeton Theological Seminary–EUA; Prof.da Unicap  e  SPN.

Soli Deo Gloria – 21/10/2012 – 18:30hs         


Reafirmamos que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente.

Negamos que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, se negligenciarmos ou a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a auto-estima e a auto-realização se tornem opções alternativas ao evangelho.

Preletor: Rev.Daniel Carneiro: Pós-grad. em Teologia Exegética; Mestre em Aconselhamento; Pastor na Cong. Presbit. em Jardim Jordão; Prof. Teologia Sistemática e Símbolos de Fé do SPN;

A importância da Reforma para a Igreja de Hoje  - 28/10/12 – 9:30hs


Preletor: Rev.Stefano Alves: Pastor da IPB Prado;  Mestre em Teologia pela Mackenzie(SP); Mestrando da UFPB; Presidente Sínodo Sesquicentenário.; Professor de Teologia Exegética do SPN.

Sola Fide – 28/10/12 – 18:30hs


Reafirmamos que a justificação é somente pela graça somente por intermédio da fé somente por causa de Cristo. Na justificação a retidão de Cristo nos é imputada como o único meio possível de satisfazer a perfeita justiça de Deus.

Negamos que a justificação se baseie em qualquer mérito que em nós possa ser achado, ou com base numa infusão da justiça de Cristo em nós; ou que uma instituição que reivindique ser igreja mas negue ou condene sola fide possa ser reconhecida como igreja legítima. 

Preletor: Rev.Paulo Brasil: Mestre em Antigo Testamento pela  Mackenzie(SP), Doutor em Antigo Testamento pelo Greenville Presbyterian Theological- EUA; Prof.de Hebraico  e  VT  do  SPN.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

USOS E COSTUMES. A IGREJA PODE DITAR A MODA?


Em um bairro do Recife havia uma loja cuja placa anunciava em letras garrafais: "Vendemos Roupas Evangélicas".  Infelizmente não fotografei. A loja passou por uma reforma e a placa foi substituída. Minha ingenuidade, porém, me levava a acreditar que aquela loja era um caso atípico, isolado, uma aberração. Ledo engano. Esse nicho de mercado cresce a todo vapor. Basta uma rápida busca no Google e logo surgirão site especializados em "moda evangélica". O tema já foi até reportagem da revista veja:

Dá para conciliar preceitos religiosos rigorosos com o gosto brasileiro por roupas vistosas? Cerca de 15 milhões de evangélicas, uma multidão que, na hora de compor o guarda-roupa, segue mais ou menos ao pé da letra (ou melhor, da tradição, já que textos religiosos raramente entram em tais detalhes) as doutrinas da sua igreja, tentam fazer isso. De modo geral, o código de vestuário das religiões evangélicas reza o seguinte: calça comprida, não; decote, também não; saia, abaixo do joelho; transparências, nem pensar; mangas, sempre, conforme: http://veja.abril.com.br/040804/p_146.html. 

Possivelmente me acusarão de exagerado, mas essa tendência pode ser também sintomática. Cada vez mais as pessoas estão deixando de ser "evangélicas", no sentido mais restrito da palavra, que significa uma profunda identificação com o genuíno evangelho de Cristo. Como suas ações já não mais denunciam sua fé, restando-lhes apenas a vaga necessidade de pertencer a uma "tribo", nada melhor que uma grife que diga o que seu testemunho não consegue mais dizer:  "sou da tribo dos evangélicos".

Será que Jesus, em seu tempo, usava roupas de alguma grife especializada para religiosos? Havia roupas especias para "apóstolos"?

Claro que não! Tanto Jesus quanto os Apóstolos, bem como todos os outros discípulos, homens e mulheres que seguiam a Jesus, usavam as roupas habituais para sua época.  Evidentemente que àquela época também havia roupas inapropriadas para os servos de Deus, mas, de forma geral, suas roupas seguiam o mesmo padrão do restante do povo. Jesus, algumas vezes, precisou se ocultar, provavelmente no meio do povo, para livrar-se de ser apedrejado (Jo 8:59; Jo 10:30,31,39). Certamente ele não teria conseguido passar desapercebido se utilizasse indumentárias diferentes das que o povo usava. Isso pode ser verificado também quando Judas o entregou. Foi necessário um sinal (o beijo) para que os guardas identificassem Jesus, tal sua semelhança com as outras pessoas. Judas o beijou como quem quisesse dizer "o homem é este".

Preocupavam-se os principais sacerdotes e os escribas em como tirar a vida a Jesus; porque temiam o povo.    Ora, Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, que era um dos doze. Este foi entender-se com os principais sacerdotes e os capitães sobre como lhes entregaria a Jesus;  Falava ele ainda, quando chegou uma multidão; e um dos doze, o chamado Judas, que vinha à frente deles, aproximou-se de Jesus para o beijar.  Jesus, porém, lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do Homem? (Lucas 22:1-48).

A ideia de utilização de roupas diferenciadas em relação ao povo e à época como forma de distinção e de separação religiosa é bem antiga. No Velho Testamento encontramos a indicação de paramentos religiosos para os Sacerdotes. Mas tudo isso mudou com o "véu que se rasgou". No Novo testamento essa ideia de "separação por moda" já não existe mais. A igreja Católica Apostólica Romana, na idade média,  retomou o uso de paramentos eclesiásticos como forma de distinção religiosa.

Os pentecostais fazem o mesmo. Se observarem bem na reportagem da revista Veja, acima, perceberão que a "moda evangélica" em questão está diretamente relacionada com as "vestimentas Pentecostais", o que mais uma vez prova sua aproximação ideológica com a Igreja Católica Romana. As santas de lá, certamente, servem como inspiração e modelo para a "grife gospel" de cá. Desculpem o anacronismo, mas, já viram alguma santa da igreja Católica de calça comprida? Da mesma forma não verão calças compridas nos catálogos das inúmeras lojas virtuais de "moda evangélica". Afinal, seu público alvo - as irmãs pentecostais - simplesmente não as podem usar; são proibidas pelo "esquadrão da moda pentecostal".

Essa semana o jornal matinal Bom Dia Pernambuco noticiou que algumas alunas de uma escola pública, que também fazem pate da igreja Assembléia de Deus, foram impedidas de entrar na escola porque estavam de "saia". O problema é que o fardamento da escola prevê o uso de calças compridas. Pronto, a confusão estava formada.

A direção da escola exige calça e os "estilistas" da Assembléia de Deus, saia.

Não estamos discutindo aqui sobre o direito constitucional de culto, liberdade de expressão e religiosa que essas irmãos, certamente, têm. Nosso foco se restringe à pergunta retórica:

A igreja pode ditar a moda?

             Não  deixe de ver o vídeo da reportagem:

Penso que só Deus deve ser o senhor de nossas consciências. Nenhum líder religioso, nenhuma igreja tem o direito de normatizar nossas vidas com suas regrinhas humanas. Somos livres, inclusive para decidir o que vestir e o que não vestir. Paulo, escrevendo aos Gálatas, deixa claro a existência dessa antiga tendência, presente nos religiosos e nas religiões, de colocar algemas invisíveis na mente das pessoas, tal qual ocorre com as irmãs da Assembléia de Deus. Diz ele: "Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho,  o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo.   Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema" (Gálatas 1:6-8).

Mas, e a Bíblia? Não se pronuncia com relação ao que se deve vestir? Existe algo do tipo "moda dos eleitos" na Bíblia? Obviamente que não. Porém, as Escrituras trazem alguns princípios que devem nortear nossas vidas quanto a esse assunto. Por eles, devemos deixar de usar roupas provocantes, sensuais, indecorosas. Devemos nos vestir de forma recatada. Os teólogos de Westminster, interpretando o sétimo mandamento (não adulterarás), nos trazem algumas informações importantes quanto a esse assunto. Vejamos as perguntas 137 e 138:

Pergunta 138: Quais são os deveres exigidos no sétimo mandamento? Resposta:  Os deveres exigidos no sétimo mandamento são a castidade no corpo, entendimento, afetos( I Ts 4. 4,5), palavras( Ef 4. 29; Cl 4. 6) e comportamento(I Pe 3. 2, e a preservação dela em nós mesmos e nos outros( I Co 7. 2; Tt 2. 4,5); a vigilância sobre os olhos e todos os sentidos( Mt 5. 28); a temperança( Pv 23. 31,33; Jr 5. 7), a conservação da sociedade de pessoas castas( Pv 2. 16,20; I Co 7. 9), a modéstia no vestuário( I Tm 2. 9) [...]. Pergunta 139: Quais são os pecados proibidos no sétimo mandamento?  Resposta:  Os pecados proibidos no sétimo mandamento, além da negligência dos deveres exigidos( Pv 5. 7; Pv 4. 23,27), são [...] o comportamento imprudente ou leviano; o vestuário imoderado ( Pv 7. 10,13,14) [...].

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A BELEZA E A ARTE DE UM HOMEM E UMA RETROESCAVADEIRA


Estética é a parte da filosofia que estuda, de modo geral, o belo, a arte. Daí surge uma pergunta: o que é o belo? O que é a arte? Diríamos, parafraseando grandes pensadores, como Kant, que algo é belo e igualmente arte quando nosso sentimento é invadido pouco a pouco até ser completamente tomado por aquilo que estamos vendo ou ouvindo. Isso é arte, isso é belo.

Em uma atuação conjunta improvável nasce a  arte e o belo. Homem e Máquina interagindo na produção de um grande espetáculo. Veja no vídeo abaixo o Ballet protagonizado por um Homem e uma Retroescavadeira:   

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O ATENTADO DE 11 DE SETEMBRO DE 2001 E O SEXTO MANDAMENTO: NÃO MATARÁS



Onze anos depois, hoje, dia 11/09/2012, o mundo relembra, ainda estarrecido, o maior atentado terrorista de todos os tempos. Sua magnitude foi sem precedentes na história.

Após o atentado de 11 de setembro de 2001, quando dois aviões tomados por terroristas suicidas, ligados ao Islamismo, colidiram com o maior símbolo econômico dos Estados Unidos, as duas torres do World Trade Center em Nova York, matando milhares de pessoas inocentes de diversas nacionalidades, o EUA decretou a chamada “Guerra ao terror”, ao “eixo do mal”. Relembre as cenas:



Na ocasião, depois dos ataques, o presidente Cristão George W. Bush (2001-2009) prometeu, em pronunciamento à nação pouco depois das 21h (22h em Brasília), "caçar e punir os responsáveis por esses atos covardes. Não faremos distinção entre os terroristas que cometeram esses atos e aqueles que lhes dão guarida", disse ele. Conforme: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1209200107.htm.

Em última análise, o que temos aqui? Guerra entre religiões? De um lado, radicais Islâmicos invadem um território "Cristão",  derrubam dois prédios de particular significado e matam milhares de pessoas inocentes, cristãos em sua maioria, incentivados por seus pressupostos religiosos. Do outro, uma nação predominantemente Cristã, de origem protestante, declara guerra e mata outras centenas de pessoas.

Que mulçumanos matem motivados por questões religiosas não é nenhuma novidade (a julgar pela comemoração demonstrada no primeiro vídeo, acima). Afinal, em seu próprio texto sagrado - o alcorão - e também na sua tradição, há essa recomendação de matar os “infiéis” ou os não-mulçumanos: “Deus cobrará dos fiéis o sacrifício de seus bens e pessoas, em troca do paraíso. Combaterão pela causa de Deus, matarão e serão mortos” (Sura 9-111). E ainda: Fazei guerra, com sangue e extermínio, a todos que não crêem em Alá [...]. Quando encontrardes com os infiéis, matai-os (Hadith).

Dos Cristãos, porém, se espera outra atitude. Afinal, não foi o próprio Cristo, do qual se dizem seguidores, que ensinou a “amar os inimigos”, no sermão do monte?

Além disso, o sexto mandamento é bem claro: “Não matarás”.

“Não se trata de desvios doutrinários como os que ocorreram com a igreja Católica, na idade média, levando-a a matar em nome de Deus. Trata-se, antes, de uma Religião que já nasceu com o propósito de eliminar o "infiel" (não-mulçumano). Conforme: http://filosofiacalvinista.blogspot.com.br/2011/03/islaminsmo-religiao-que-mata-e-possivel.html .

A questão que se levanta é a seguinte:

Não teriam os Cristãos direito à legítima defesa? Um país Cristão ou simpático  a esses pressupostos, como os EUA, por exemplo, não poderia revidar tamanha afronta? Não pode uma "nação cristã" utilizar-se de poderia bélico para defender-se e defender seu povo, sem quebrar o sexto mandamento?

A grande dificuldade de entendimento dos preceitos Cristãos, bem como dos mandamentos, especialmente o sexto, “não matarás”, é a falta de distinção entre “obrigação pessoal” e “obrigação social”.

Enquanto indivíduo, no âmbito da “obrigação pessoal” o Cristão deve, realmente, “dar a outra face”. “Amar aos inimigos” e até mesmo “orar” pelos seus algozes perseguidores. O cristão também está proibido, nesse mesmo âmbito, pelo sexto mandamento, de tirar a vida de outrem. Ou seja, ele está proibido de fazer justiça com as próprias mãos. Essas são as obrigações a que todo Cristão está sujeito, sob pena de não sintonia com os ensinamentos de Cristo, com uma rara “exceção à essa regra”, como veremos mais adiante.

Contudo, no âmbito da “obrigação social” essa questão precisa passar por uma releitura. Portanto, nesse sentido, um “Estado Cristão” (ainda que Laico, mas que cultive, simpatize ou tenha maioria que preze pelos valores Cristãos) não está obrigado ao mandamento “Não Matarás”, que é essencialmente dirigido a indivíduos. Muito pelo contrário, se necessário for “matar para promover e proteger a vida”, mas somente com essa motivação, que é o grande objetivo do sexto mandamento, o Estado deve assim fazê-lo, incorrendo em grave erro, inclusive, o Magistrado Civil, se assim não proceder. 

A pergunta 136 de um importante Catecismo Cristão Protestante Reformado, conhecido como Catecismo Maior de Westminster, formulado no século XVII, pelos Puritanos, ensina de forma esclarecedora esse assunto:

Pergunta 136: Quais são os pecados proibidos no sexto mandamento?  Resposta: Os pecados proibidos no sexto mandamento são: O tirar a nossa vida (At 16. 18) ou a de outrem (Gn 9.6), exceto no caso da justiça pública (Nm 35. 31,33), da guerra legítima ( Dt 20. 1-20), ou da defesa necessária ( Ex 22. 2); a negligência ou retirada dos meios lícitos ou necessários para a preservação da vida ( Mt 25. 42,43; Tg 2. 15,16); a ira pecaminosa( Mt 5. 22), o ódio( I Jo 3. 15; Pv 10. 12), a inveja( Pv 14. 30), o  desejo de vingança( Rm 12. 19); todas as paixões excessivas( Tg 4. 1; Ef 4. 31)  e  cuidados demasiados( Mt 6. 31,34); o uso imoderado de comida, bebida( Lc 21. 34), trabalho( Ex 20. 9,10)  e recreios( I Pe 4. 3,4); palavras provocadoras( Pv 15. 1; Pv 12. 18); a opressão( Is 3. 15; Ex 1. 14), contenda( Gl 5. 15), espancamentos, ferimentos( Nm 35. 16) e tudo o que tende à destruição da vida de alguém( Pv 28. 17 cf Ex 21. 18-36).”

Concluímos que, segundo essa interpretação, há algumas exceções em que o "Cristão" e o “Estado” podem matar

Mas, mesmo essas exceções, visam claramente atingir o objetivo maior do sexto mandamento: a preservação da vida.

Para o Cristão, no âmbito de sua “obrigação individual”, só e somente só, em caso de “defesa necessária” ou da chamada “legítima defesa”, também prevista na forma da Lei.

Para o Estado, entendido aqui como “cristãos no exercício de suas obrigações sociais”, mas não só,  a exceção aplica-se em casos de “justiça pública” (pena de morte, que consiste basicamente em eliminar, após justo julgamento, o assassino, que quebrou individualmente o sexto mandamento,  da sociedade, visando o bem estar e proteção da vida dos cidadãos) e “guerra legítima”.

Esclarecidos esses fatos, a dificuldade agora é julgar se a chamada “guerra ao terror” foi legítima ou não. O que você acha? Comente, deixe sua opinião.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O AMOR LIMITADO DE DEUS - Parte 4 (final)



A consequência lógica da antropologia Agostiniana só pode ser uma: o amor limitado de Deus. Evidentemente que esse termo precisa ainda ser esclarecido. Quando dizemos “amor limitado” de Deus, não estamos querendo reduzir algo que, por si só, é infinito. Mas queremos dizer que a destinação eterna desse “amor salvífico” tem caráter específico e não contempla toda a raça humana, antes, pelo contrário, contempla apenas, só e somente só, o número exato daqueles que foram eleitos “antes da fundação do mundo” para a salvação. Nenhum a mais, nenhum a menos. Para esses, e somente para esses, repetimos, o “amor salvífico” de Deus não teve limites, chegando ao ponto extremo de entregar seu unigênito Filho para morrer no lugar deles. “O amor salvífico de Deus é limitado na medida em que atinge, por pura vontade Soberana do próprio Deus, somente os eleitos, tirando-os da condição de perdição que um dia se meteram, em Adão, por vontade livre, e não tirando o restante da raça humana desse estado de justa condenação eterna, mas apenas deixando-os onde, naturalmente, sua natureza decaída tem prazer em estar: distante de Deus. Por outro lado, o amor salvífico de Deus é ilimitado porque não mede esforços para salvar os predestinados”.

Para Agostinho, sendo o homem incapaz de qualquer bem por si só, estando com sua natureza corrompida e totalmente depravado, resta-lhe tão somente esperar o favor não merecido da graça divina. A partir desse ponto, e como consequência lógica e racional de sua antropologia, ele desenvolve seu conceito de predestinação. Essa doutrina, embora tenha suas bases firmadas em escritos paulinos, é a alternativa racional encontrada por Agostinho para resolver o problema da natureza decaída do homem.

Ora, se o homem, segundo Agostinho, não possui mais as condições para, por suas próprias forças, fazer qualquer bem que concorra para a reabilitação de sua própria natureza e considerando ainda que a revelação escriturística o fazia entender que nem todos, por mais que tentassem, alcançariam tal reabilitação, Agostinho avança, para a única conclusão cabível como desfecho de sua antropologia, para a única alternativa de reabilitação da alma decaída, isto é, a predestinação. Agostinho chega à conclusão que, na eternidade, Deus teria escolhido alguns homens para agraciá-los com essa graça salvífica, não por merecimento, pois, por merecimento todos deveriam, justamente, perecer eternamente na condição decaída, como ele mesmo afirma:

Esses testemunhos demonstram a concessão da graça de Deus não em atenção aos nossos merecimentos. Às vezes verifica-se a concessão não somente faltando merecimentos, mas existindo desmerecimentos prévios (AGOSTINHO. A graça. p.37).

No segundo volume de sua obra “A graça” Agostinho desenvolve de forma clara e inequívoca, não somente as bases de sua soterologia, mas, sobretudo, o desfecho lógico de sua antropologia, diz ele:

Procuremos entender a vocação própria dos eleitos, os quais não são eleitos porque creram, mas são eleitos para que cheguem a crer. O próprio Senhor revela a existência desta classe de vocação ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15: 16). Pois, se fossem eleitos porque creram, tê-lo-iam escolhido antes ao crer nele e assim merecerem ser eleitos. Evita, porém, esta interpretação aquele que diz: Não fostes vós que me escolhestes. Não há dúvida que eles também o escolheram, quando nele acreditaram. Daí o ter ele dito: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, não porque não o escolheram para ser escolhidos, mas para que o escolhessem, ele os escolheu. Isso porque a misericórdia se lhes antecipou (Sl 53:11) segundo a graça, não segundo uma dívida. Portanto, retirou-os do mundo quando ele vivia no mundo, mas já eram eleitos em si mesmos antes da criação do mundo. Esta é a imutável verdade da predestinação da graça. Pois, o que quis dizer o Apóstolo: Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo?(Ef 1:4). Com efeito, se de fato está escrito que Deus soube de antemão os que haveriam de crer, e não que os haveria de fazer que cressem, o Filho fala contra esta presciência ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi. Isto daria a entender que Deus sabia de antemão que eles o escolheriam para merecerem ser escolhidos por ele. Consequentemente, foram escolhidos antes da criação do mundo mediante a predestinação na qual Deus sabia de antemão todas as suas futuras obras, mas são retirados do mundo com a vocação com que Deus cumpriu o que predestinou. Pois, o que predestinou, também os chamou com a vocação segundo seu desígnio. Chamou os que predestinou e não a outros; predestinou os que chamou, justificou e glorificou (Rm 8:30) e não a outros com a consecução daquele fim que não tem fim. Portanto, Deus escolheu os crentes, mas para que o sejam e não porque já o eram. Diz o apóstolo Tiago: Não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam? (Tg 2:5). Portanto, ao escolher, fá-los ricos na fé, assim como herdeiros do Reino. Pois, com razão, se diz que Deus escolheu nos que crêem aquilo pelo qual os escolheu para neles realizá-lo. Pergunto: quem ouvir o Senhor, que diz: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, terá atrevimento de dizer que os homens têm fé para ser escolhidos, quando a verdade é que são escolhidos para crer? A não ser que se ponham contra a sentença da Verdade e digam que escolheram antes a Cristo aqueles aos quais ele disse: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (AGOSTINHO. A graça. p.194,195).

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O AMOR LIMITADO DE DEUS - Parte 3



Dando continuidade à série de postagens sobre “O amor limitado de Deus”, dessa vez estaremos abordando a questão a partir do pensamento do grande filósofo medieval Agostinho de Hipona.  O debate em torno da questão conceitual do binômio  “homem e liberdade” é de vital importância para o esclarecimento desse assunto. Ouso dizer que, não entendendo quem é o homem diante de Deus, não há como avançar nem mais um centímetro na compreensão da Sotereologia Agostiniana/Reformada, portanto, bíblica.

INTRODUÇÃO

Agostinho, ao longo de sua vida, se envolveu em várias controvérsias, por conta de sua aguçada veia apologética. Dentre elas, aquela que foi a mais importante, no que diz respeito à questão da liberdade,  foi o embate travado com Pelágio, por volta de 411 a 412, em Cartago. Pelágio era um monge Britânico, eunuco, natural da Irlanda, que se engajou em intenso conflito contra Agostinho, numa questão que envolvia basicamente o problema do livre-arbítrio e da liberdade.

A ANTROPOLOGIA PELAGIANA

Para Pelágio, o homem continuava habilitado, mesmo depois da queda, a fazer o bem se assim desejasse e que não se fazia necessário uma assistência especial da graça de Deus para que o ser humano O obedecesse.

Ele acreditava que o homem estava habilitado para atender a todos os chamados de Deus e quando Ele o convoca a arrepender-se é porque o homem pode fazer isto, por ele só, sem que seja necessário o auxílio da graça divina; caso contrário, Deus não o haveria ordenado, pois não ordena nada que seja impossível.

As principais reivindicações pelagianas estão diretamente relacionadas à sua antropologia, ao seu conceito de homem, como afirma Sprol, fazendo a seguinte observação acerca da antropologia de pelágio:

Pelágio, destituído da ideia do todo orgânico da raça ou da natureza humana, via Adão meramente como um indivíduo isolado; ele não deu a Adão nenhum lugar representativo, logo seus atos não acarretavam consequências além de si mesmo. Em sua visão, o pecado do primeiro homem consistiu de um único e isolado ato de desobediência ao comando divino [...]. Esse ato de transgressão único e desculpável não gerou consequências à alma e nem ao corpo de Adão, muito menos à sua posteridade, onde todos se mantém ou caem por si mesmos (SPROL, 2001, p.35).

Fica claro no pensamento pelagiano uma visão positiva acerca do homem e isso influencia todo o restante da sua construção intelectual. Para ele a queda do homem não trouxe para si uma repentina destruição, muito menos ainda para sua descendência, como denuncia o próprio Agostinho:

O homem pelagiano goza de perfeito equilíbrio moral. O pecado não atinge sua natureza, mas seu mérito. Quando peca, torna-se culpável de sua má ação. Perdoado volta à sua perfeição. Não é prisioneiro de uma inclinação mórbida para o mal (AGOSTINHO. A graça, 1999. p.105).


A ANTROPOLOGIA AGOSTINIANA

Agostinho discordava de Pelágio essencialmente quanto à sua antropologia, de tal forma que as outras discórdias adviam dessa.

Diferentemente de Pelágio, Agostinho entendia que a queda trouxe consequências extremante severas para o primeiro homem; e não somente para ele mas também para toda sua descendência. Ele não o via como um indivíduo isolado mas, essencialmente, como o representante legal de toda a raça humana, como afirma: “Deus, autor das naturezas, não dos vícios, criou o homem reto; mas o homem, depravando-se, por sua própria vontade, e justamente condenado, gerou seres desordenados e condenados (De Civ. Dei, XI, 27).

Para Agostinho, com a queda, em certo sentido, veio também uma privação da liberdade, isto é, o homem que outrora não tendia nem para o bem nem para o mal, depois da queda, adquiriu certa tendência para o mal, passando a conviver com uma natureza pecaminosa que passa a seus herdeiros de forma hereditária, ou seja, essa natureza passa a habitar no homem, coisa que inicialmente não existia. A morte física vem também ao homem depois e só depois da queda e como consequência dela.

Agostinho afirma de forma bastante clara que o pecado corrompeu a natureza humana, criada por Deus, sem vicio nenhum, e não somente seu mérito, como pensava Pelágio. Esse ponto de seu pensamento é essencial para entendermos sua antropologia. Devemos ficar atentos para seu pensamento de que o homem foi criado com uma natureza boa, sem nenhuma propensão ao mal, ao pecado e que esta natureza foi, de fato, modificada, acrescentada, depois da queda com uma mórbida tendência à concupiscência, como afirma,

A natureza do homem foi criada no princípio sem culpa e sem vício. Mas a atual natureza, com a qual todos vêm ao mundo como descendentes de Adão, tem agora necessidade de médico devido a não gozar de saúde. O somo Deus é o criador e autor de todos os bens que ele possui em sua constituição: vida, sentidos e inteligência. O vício, no entanto, que cobre de trevas e enfraquece os bens naturais, a ponto de necessitar de iluminação e de cura, não foi perpetrado pelo seu criador, ao qual não cabe culpa alguma. Sua fonte é o pecado original que foi cometido por livre vontade do homem. Por isso, a natureza sujeita ao castigo atrai com justiça a condenação (AGOSTINHO. A trindade, 1995, XIV, 15).

E ainda:

A alma não pode conceder a si mesma a justiça que uma vez recebida não mais a possui. Recebeu-a quando foi feita criatura humana e perdeu-a, em consequência do pecado (AGOSTINHO. A graça, 1999. p.114).

Podemos resumir o entendimento de agostinho acerca do homem em quatro fases distintas:

a)     Capacidade para pecar, capacidade para não pecar (posse peccare, posse non peccare);
b)   Incapacidade para não pecar (non posse non peccare);
c)    Capacidade para não pecar (posse non peccare);
d)   Incapacidade para pecar (non posse peccare).

O primeiro estado corresponde ao estado do homem na inocência, antes da Queda; o segundo estado do homem natural após a Queda; o terceiro estado do homem regenerado; e o quarto do homem glorificado.

Homem Pré-Queda
Homem Pós-Queda
Homem Renascido
Homem Glorificado
capaz de pecar
capaz de pecar
capaz de pecar
capaz de não pecar
capaz de não pecar
incapaz de não pecar
capaz de não pecar
incapaz DE PECAR

A capacidade original do homem incluía tanto o poder para não pecar como o poder para pecar ( posse non peccare et posse peccare ). No pecado original de Adão, o homem perdeu o posse non peccare (o pode para não pecar) e reteve o posse peccare (o poder para pecar) - o qual ele continua a exercer. Na concretização da graça, o homem terá o posse peccare retirado e receberá o mais alto de todos, o poder para não ser capaz de pecar, non posse peccare (AGOSTINHO. Correction and Grace, XXXIII ).

Aqui está a chave para o entendimento da antropologia Agostiniana, que influencia sua visão de  moralidade e da ética.

Como fica claro, Deus, em sua essência bondosa, criou o homem bom e perfeito e lhe dotou da maior dádiva de todas, só concedida ao homem: a liberdade, que é, em si, essencialmente boa. De sorte que o homem, no estado pré-queda é absolutamente livre, não tendendo nem mesmo para o bem, podendo escolher, sem nada que o sugestione, o bem e a felicidade eterna. Contudo, com a possibilidade de escolher o mal, a desobediência. Do contrário, onde estaria a liberdade?

Podendo ele escolher o bem, resolve deliberadamente escolher o mal. Acaso haveria culpa em Deus por ter concedido dádiva tamanha, tendo, inclusive, advertido o primeiro homem do perigo e consequências da desobediência? Caindo o homem, trouxe sobre si e sobre aqueles que representava legalmente, todos os males existentes, tornando-se não somente vítima de si mesmo, mas também merecedor e único causador de todos os males que lhe sobrevém, sendo sua culpa transmitida e imputada a todos os seus descendentes, que já nascem pecadores e que, por sua natureza amante do pecado, tem prazer no pecado. Segue-se, então, o plano redentivo de Deus para resgatar alguns homens e trazê-los de volta à felicidade, só que, dessa vez, no seu último estágio, sem a possibilidade de cair novamente.

Proximo ponto: A CONSEQUÊNCIA LÓGICA DA ANTROPOLOGIA AGOSTINIANA: A PREDESTINAÇÃO. Aguarde!

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