quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

OS MODELOS DE GOVERNO ECLESIÁSTICO, SUAS VANTAGENS E DIFICULDADES PRÁTICAS


Sinteticamente podemos dizer que existem três formas de Governo Eclesiástico. Provavelmente sua igreja é governada por uma delas. São elas:  

a)   a) Episcopal: Essa forma de governo é caracterizada por ter um "Líder Maior", geralmente chamado de Epíscopo, Papa, Bispo, Pastor Presidente e até Apóstolo, que governa todos os outros líderes e demais membros da igreja. É ele quem toma todas as decisões. Ou seja, “Um” governa a “Todos” (Igreja Episcopal, Universal, Católica, Assembléia de Deus e a maioria das igreja neopentecostais);

b)     b) Congregacional – A principal característica dessa forma de governo eclesiástico é a participação de toda a congregação na  tomada de decisões. Nada é decidido sem que antes tenha a aprovação da Assembléia de membros da igreja.  Ou seja, "Todos" governam (Igreja Batista, Congregacional etc.);        


  c) Presbiterial ou representativo – Nesse Regime de governo "Alguns" são eleitos para governar a "Todos" (Igreja Presbiteriana).

Cremos ser a última forma de governo eclesiástico (letra c) a  que mais se aproxima do modelo bíblico. É o governo do povo por meio de representantes por ele escolhido; um governo republicano. Calvino, em sua interpretação das Escrituras sobre esse assunto, considera também ser o governo representativo aquele que  foi ensinado pelos apóstolos para a organização da Igreja de Cristo. Na Bíblia, podemos encontrar facilmente os princípios norteadores e constituintes dessa forma de governo eclesiástico: Atos. 11: 30; 14: 23; 15: 2, 4, 6, 22; Tito 1: 5.

Apesar do exposto acima, nossa intenção é demonstrar, de forma prática, despretensiosa  e sem a (talvez) necessária preocupação hermenêutica, os pontos positivos e negativos de cada forma de governo eclesiástico. Contudo, principalmente em relação à forma de governo que entendemos ser a mais aproximada do modelo bíblico, os pontos negativos, não estão, necessariamente, relacionados à falhas do próprio sistema de governo e sim daqueles que o adotam. Mas que elas existem, existem. Comecemos na mesma ordem:

Governo Episcopal:

Pontos positivos:   Esse talvez seja  o modelo de governo que dê mais agilidade à igreja. Tudo só depende da aprovação de uma pessoa. Por exemplo: a reforma do prédio do departamento infantil da igreja. O Epíscopo decide fazer, quem vai fazer e o que vai ser feito. Tudo é resolvido de forma rápida e ágil. A igreja é muito beneficiada neste sentido. Os casos de disciplina eclesiástica também são rapidamente resolvidos trazendo a devida ordem à comunidade.

Pontos negativos: É desnecessário dizer que a concentração de poder na mão de uma única pessoa é algo muito perigoso. Os erros desse Epíscopo podem desviar para sempre sua igreja e como não há uma autoridade superior ninguém pode impedir essa derrocada. As escolhas das prioridades, dos materiais e das pessoas a serem contratadas podem ter critérios não muito corretos, em caso de desvio de conduta pessoal do Epíscopo e não haverá ninguém para lhe dizer um basta. Nos casos de injustiças na aplicação da disciplina eclesiástica o membro da igreja ficará sempre prejudicado, não tendo a quem recorrer. Esse modelo também dá margem a perseguições de possíveis oponentes, ainda que esses estejam com a razão, bem como a beneficiamento e falta de disciplina para aliados. Todos esses problemas são decorrentes do poder absoluto que o Epíscopo ou líder tem.

Governo Congregacional:

Pontos positivos: Uma das principais vantagens dessa forma de governo eclesiástico é que ninguém pode reclamar por não ter sido consultado ou ainda ouvido. Todos os membros têm direito a voto e a opinar sobre os mais diversos da igreja. Usando o mesmo exemplo da a reforma do prédio do departamento infantil da igreja, todos podem opinar sobre a necessidade dessa reforma, sobre as pessoas a serem contratadas e até sobre o material a ser utilizado. Ninguém pode dizer depois que não sabia ou que não foi ouvido. Isso acaba diminuindo bastante o grau de insatisfação da cumunidade.

Pontos negativos: Em qualquer igreja há pessoas maduras e pessoas imaturas. Essa é uma das maiores dificuldades desse regime de governo eclesiástico. Num caso de disciplina eclesiástica, por exemplo, além do constrangimento do membro faltoso ser apresentado diante de toda a congregação, ainda corre gravíssimo risco de ter sua situação emocional e espiritual agravada por conta das perguntas e das abordagens dos possíveis desafetos e dos membros que ainda não sabem lhe dar com esse tipo de situação. É algo realmente extremamente constrangedor. A morosidade na tomada de decisão também é um fator complicador, tendo em vista que depende da quantidade de membros presentes e da votação da maioria para aprovar um projeto. Diante disso, muitas igrejas Batistas, por exemplo, estão assumindo uma prática que descaracteriza por completo o regime congregacional: estão criando uma espécie de conselho para tratar de alguns assuntos antes mesmo de ser levado à assembléia dos membros, não sendo raras as vezes quando chegam com a decisão tomada esperando apenas a aprovação de todos.

Governo Presbiterial ou Representativo:

Pontos positivos: Esse regime de governo eclesiástico está tanto livre dos perigos que se apresentam quando o poder está concentrado nas mãos apenas de uma pessoa quanto da participação e decisão de pessoas imaturas que ainda não estão em condições de traças os rumos da igreja. Ele pressupõe que os homens  mais preparados da igreja são eleitos por todos os membros, em assembléia extraordinária, para governá-la. A igreja é autônoma e livre para escolher seus representantes, baseada nas condições pré-estabelecidas na bíblia para a ordenação de um presbítero. O conselho da igreja, em casos de disciplina eclesiástica, via de regras, tem condições de tratar o faltoso e aplicar-lhe a pena necessária para trazê-lo de volta aos caminhos da palavra de Deus. Em caso de disciplina aplicada fora dos preceitos bíblicos ou ainda por alguma espécie de perseguição, o membro que se sentir prejudicado poderá apelar para o "tribunal eclesiástico" imediatamente superior (geralmente são três instâncias superiores de apelação). Isso diminui bastante a possibilidade das injustiças e erros.

Pontos negativos: Como a congregação não participa das decisões de forma ativa, isso acaba dando margem para críticas às decisões do conselho.Outro ponto negativo é a morosidade com que os processos se desenrolam. Utilizando o mesmo exemplo da reforma do prédio do departamento infantil da igreja, uma obra que poderia ser relativamente rápida pode durar duas ou três vezes mais tempo para ser concluída. Começando pela discussão de como será feita a obra, os materiais utilizados e quem vai executá-la até a disposição da verba para a realização dos projetos. Em muitas vezes decisões como essas não saem antes de duas ou três reuniões do conselho.  A própria dificuldade de reunião dos presbíteros atrasa muitos processos necessários ao bom andamento da igreja. Os presbíteros não são obreiros exclusivos da igreja, todos têm seus trabalhos seculares, famílias e dificuldades particulares. Além disso, o pastor, que é também é um presbítero (docente) e que, geralmente, se dedica em tempo integral à igreja (pelo menos deveria),  não pode tomar decisões sozinho. Basta faltar um número considerável de presbíteros (geralmente cada igreja possui de 02 a 10 presbíteros) para a reunião não acontecer. Isso gera muito atraso nos projetos da igreja, dando, muitas vezes, uma impressão de desgoverno e abandono da igreja, uma vez que somente esses presbíteros podem decidir os rumos a serem tomados e não o fazem, muitas vezes, com a agilidade necessária.

Outra dificuldade prática desse sistema de governo é que nem sempre são eleitos presbíteros homens conhecedores da palavra e das doutrinas basilares ensinadas pela Igreja Presbiteriana. Geralmente são oficiais leigos, isto é, sem formação teológica alguma. Mas esse não é o maior problema. Isso não impediria desse oficial estudar e conhecer a bíblia e as principais sistematizações doutrinárias de sua igreja, como, aliás, muitos fazem. Outros tantos, porém, não se interessam pelo estudo doutrinário, assumindo a postura do senso comem que afirma ser "importante a bíblia e não teologia", esquecendo que qualquer afirmação acerca da bíblia é, necessariamente, uma interpretação teológica. Por conta disso, muitas igrejas Presbiterianas locais acabam se descaracterizando, e, com isso, tornando-se mais parecidas com muitas igrejas neorenovadas e neopentecostais que com uma genuína igreja Presbiteriana, propriamente dita. Além disso, essa falta de conhecimento dos presbíteros torna esses oficiais presas fáceis para pastores que parecem ter vocação para o governo episcopal e simpatia por práticas neopentecostais. Muitas desses pastores acabam manipulando os presbíteros, não raras as vezes, em benefício próprio. Não é interessante, para muitos pastores, a presença no conselho de presbíteros conhecedores da bíblia, dos símbolos de fé e da constituição da igreja. Por conta disso, o governo presbiteriano, de algumas igrejas locais, fica extremamente prejudicado, estando mais próximo a um governo episcopal,  onde tudo é decidido pelo pastor, que presbiterial. Outras vezes, para fugir das possíveis críticas, alguns conselhos, por pura falta de conhecimento, acabam levando assuntos que seriam de sua exclusiva competência, para a igreja, em assembléia, se pronunciar e até votar decidindo sobre o fato, igualmente descaracterizando o sistema de governo representativo.

16 comentários:

  1. Quero parabenizar meu amigo Pb. Fábio pela sua capacidade pedagógica de escrever sobre tantos assuntos complexos, de forma clara e acessível. Que Deus continue a abençoa-lo com essa clareza de pensamentos.
    Rev. Eraldo Gueiros
    Presidente do PCRE
    (projetoapocalipse.blogspot.com)

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  2. walter periquito mendes primeira iprb goiania6 de março de 2012 19:36

    esclarecedor. muito bom parabéns

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  3. Caros Irmãos,

    Me permitam elogiar o autor do blog, pois é de suma importância que o conhecimento das coisas eclesiásticas saiam dos muros dos seminários, conselhos (presbitérios), entre outros lugares, para adentrar na mente daqueles que servem a D'us. Parabéns pela iniciativa!

    Quanto ao tema, acho interessante como os defensores das três formas de governo eclesiástico dizem estar embasados na própria bíblia, justificando ser as verdadeiras práticas da "igreja primitiva". Isto então me põe a perguntar: quem está certo?

    Responder a esta pergunta me parece um desafio muito grande, pois a depender do uso de uma ou outra corrente exegética (e hermenêutica, consequentemente) o governo da igreja vai se alternar entre as três, e, sinceramente sobre qualquer outro modelo híbrido.

    No meu modesto ponto de vista, considero que os 3 modelos podem ser usados, e nunca teremos verdadeiramente certeza de qual modelo foi usado na época da cristandade primitiva, e pouco importa isto. As necessidades administrativas eram outras sem sobra de dúvidas. Acaso, a Igreja (católica=universal) de Cristo esta aprisionada ao que um acha ou outro pensa? Acaso não é Cristo a cabeça que controla este corpo? Acaso a Igreja é estática, ou a manifestação da graça? O que foi aplicado ao passado da Igreja é plenamente aplicável hoje? São perguntas que se tornam mais importantes, no meu modo de entender, do que qual tipo é o melhor governo.

    Entendo que para o brasileiro é mais fácil se adaptar a um sistema episcopal, já para um americano o presbiterial e o congregacional, já que nossa sociedade possui características herdadas do Brasil Colônia e da dominação eclesiástica da Igreja de Roma, que nos coloca dentro de um padrão social conservador que se reflete em toda a vida e cultura da nação.

    Por fim, se olharmos atentamente para os sistemas de governos eclesiásticos percebe-se que seguem o padrão dos modelos governos seculares: Episcopal (comp. Monarquia), Presbiterial (comp. República Representativa e Monarquia Representativa) e Congregacional (Democracia Direta). Isto é apenas um entendimento próprio da questão.

    Assim, quer presbiteriais (prefiro o termo, presbiterianos), quer congregacionais, quer episcopais, quer qualquer outra forma híbrida, devem estar debaixo da orientação da Cabeça, Jesus. Aí sim, o governo passa a ser obra da direção do Espírito.

    No amor de Cristo.

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    1. gostei muito com a analogia direta dos sistemas de governos seculares com o governo eclesiástico!!

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  4. Que bom ALine. Ficamos felizes em ter contribuído. Convido vc a ler outras postagens do nosso blog.
    Forte abraço.

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  5. Muito bom abençoado. Você tem uma boa didática continue assim

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  6. existem muitas igrejas congregacionais que o regime esta sendo episcopal os pastores é quem manda nas igrejas

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  7. Na igreja moderna entrou mais um modelo. O modelo Empresarial, que é pior que o episcopal. No modelo Empresarial se passa de pai para filho. A igreja tem dono, e não é Jesus.

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    1. Concordo plenamente, hoje infelizmente existe um modelo de Governo que centraliza os interesses materiais do que espirituais.

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  8. Na igreja moderna entrou mais um modelo. O modelo Empresarial, que é pior que o episcopal. No modelo Empresarial se passa de pai para filho. A igreja tem dono, e não é Jesus.

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  9. Excelente esclarecimento sobre as formas de governo eclesiásticos, sem tendências de defesa, mas explicando os pontos positivos e negativos de cada sistema.

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  10. Muito claro na sua apresentação. Parabéns!
    Suas explanações foram concisas e me ajudaram na hora de escolher qual doutrina eclesiástica vou seguir.
    No meu caso decidi voltar a congregar em uma igreja cristã onde a direção é Episcopal (poder centralizador). Reconheço que o poder centralizador pode acarretar falhas, mas se o governante se manter alinhado às doutrinas bíblicas, não vejo problema.

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