sábado, 27 de fevereiro de 2010

CONSÓRCIO GRANDE RECIFE, OS ÔNIBUS NEGREIROS E O DIREITO DO CONSUMIDOR

 Existe uma grande discussão acerca da aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor nas relações de transportes de passageiro.

Poderia, por exemplo, o passageiro propor uma demanda contra uma empresa de transporte aéreo pleiteando perdas e danos? Ou, ao contrário, só poderia recorrer ao Código brasileiro de Aeronáutica e às convenções internacionais? Nesse caso, já existe multa prevista de US$ 20,00 (vinte dólares) para alguns tipos de descumprimento dos serviços contratado. Ricardo Alvarenga, Diretor Jurídico da Líder Táxi Aéreo, considera que “é evidente que o Código de Defesa do Consumidor é também aplicável à matéria”. Segundo ele “o usuário é equiparado ao consumidor e a companhia aérea deverá responder por abusos praticados, como qualquer outro fornecedor de produtos ou serviços”.

Concordamos perfeitamente e até ampliamos a questão: por que esse modelo não é estendido ao relacionamento entre os “consumidores/usuários” de ônibus, as operadoras e o Consórcio Grande Recife? Ora, uma relação de consumo pressupõe direitos e deveres das partes envolvidas. O “consumidor/usuário” tem cumprido fielmente sua parte. Aliás, ou “cumpre ou desce”. Ou paga a passagem (uma das mais caras do Brasil) ou não utiliza o serviço. E isso é justo e esperado, mas a questão é: as operadoras têm cumprido sua parte? O Consórcio Grande Recife tem cumprido sua parte? A contrapartida do pagamento do serviço está sendo executada de forma satisfatória? Claro que não. Há um flagrante descaso com o “consumidor/usuário”.

Quero citar apenas duas violações do Código de Direito do Consumidor: A primeira está relacionada com o respeito e dignidade do usuário do transporte coletivo. Os ônibus andam tão lotados que nos fazem rememorar os antigos “navios negreiros”, verdadeiros "Ônibus Negreiros". Homens e mulheres de todas as cores e raças se amontoam como animais, com um agravante: os “antigos escravos” não pagavam passagem. Quem quiser ver um ser humano humilhado e rebaixado à escória da sociedade é só observar algumas linhas em horário de pico: Barro/Prazeres, UR-11/Boa Viagem, Circular (Príncipe), Circular (Prefeitura). Esses são apenas alguns exemplos do desmando contra o “consumidor/usuário”.

Já que mencionamos o famoso ônibus "Circular", cabe aqui uma reflexão sobre esse "genial" Sistema de Transportes Integrados; não que o sistema seja ruim em si mesmo, mas para que fosse funcional e eficaz seria necessário criar o mínimo de infra-instrutura, o que absolutamente não foi feito. Pelo contrário, em nome da "Mobilidade Urbana", a população é toda deslocada de seus bairros para as Estações do Metrô (sem direito a opções), desembarcando, finalmente, na Estação Central do Recife. Isso gera diversos problemas. A quantidade de trêns e de ônibus que integram o Sistema não são suficientes para atender a demanda. O resultado disso é a super-lotação tanto dos metrôs quanto dos ônibus que fazem as linhas "circulares". Além disso, o tempo de deslocamento dobrou. Um trabalhador que levava, antes do estabelecimento desse Sistema Integrado, cerca de 45 minutos para chegar ao trabalho (em linha direta do seu bairro à Boa Vista, por exemplo), hoje não leva menos que 1:30hs (uma hora e meia). Ou seja, o dobro do que levava anteriormente. Diante disso cabe a pergunta: Mobilidade pra quêm? Pode parecer um exagero ou ainda uma espécie absurda de "teoria da conspiração", mas a impressão que fica é que querem deixar o trânsito livre para aqueles mais abastardos circularem livremente com seus carros. E os pobres que ainda não têm esse privilégio? Estão escondidos e abarrotados dentro dos quentes (alguns deles) vagões do deficiente metrô do Recife; estão sendo imprensados pelas portas dos ônibus que fazem a linha "Circular".

O que tem o Código de Direito do Consumidor a nos dizer sobre isso? Cabe ou não cabe, nesses casos, uma demanda contra as operadoras e o Consórcio Grande Recife, por danos morais? Claro que sim. Convocamos toda a população a produzir provas materiais e testemunhais dessa quebra de contrato e, posteriormente, requerer indenização nos juizados especiais de pequenas causas. A segunda violação tem haver com a questão custo/benefício e o favorecimento de alguns poucos usuários em detrimento de outros. Por que alguém que viaja em pé nos ônibus, muitas vezes se sentindo, como diz a expressão, “numa lata de sardinha”, tem que pagar o mesmo preço de alguém que está viajando sentado? Isso é justo? É legal? Aqui cabe uma ação de perdas e danos. O usuário paga pelo serviço, o que pressupõe condições adequadas de viagem, contudo, não é isso que ocorre.

Senhores responsáveis pelo transporte público no Recife e Região Metropolitana (que não são "consumidores/usuários" de ônibus): cumpram sua parte no contrato de prestação de serviço à população; antes que comece a “chover processo”.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

10.000 Acessos...

A imagem representa bem as dificuldades de manter atualizado um blog, bem como de defender as idéias que acreditamos. Como diria Lutero: "um homem não pode ir contra sua consciência" e eu completo: desde que ela esteja cativa às Escrituras. Brevemente estaremos com novo layout. Agradecemos a visita de todos e os bons debates. Certamente eles contribuíram, de alguma forma, para alguém, em algum lugar.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O "PRINCÍPIO" REGULADOR DO CULTO E SUA UTILIZAÇÃO ERRADA PELOS NEOPURITANOS

1- Introdução

Iniciamos nossas reflexões tratando sobre o erro da “antropocentridade” do culto nos nossos dias. Evidentemente que esse é um problema gravíssimo e que tem atingido a igreja do Senhor fazendo-a desviar-se por caminhos tortuosos, conforme já demonstramos em outro post.

É certo também que não é justo incluir apenas os irmãos pentecostais nesse grupo de “desviados dos princípios Escriturísticos” (não desligados do Senhor), no que diz respeito ao culto e a muitas outras áreas da vida da igreja. Evidentemente que precisamos reconhecer: algumas igrejas (locais) e muitos líderes (pastores, presbíteros e diáconos, da IPB e de outras igrejas históricas) têm aumentado essa fileira; cedendo, assim, à tentação de um culto voltado a agradar o pecador, objetivando abarrotar suas igrejas.

Contra esses desvios, personificados na nova modalidade de igrejas “evangélicas”, também convencionalmente chamadas de “neopentecostais”, temos lutado incessantemente (para livrar a IPB dessa influência); sem perspectivas, inclusive, de vislumbrarmos o final dessa batalha. Contudo, nos últimos dias, uma nova modalidade de “desvio” tem acometido a IPB e provocado muitas celeumas. Diferentemente do caso anterior, essa nova investida não vem de nenhuma “classificação eclesiástica”, mas de diversas “células” formadas de pessoas pertencentes a diversas denominações (inclusive da IPB), o que faz desse um problema atípico. Trata-se da influência dos chamados “neopuritanos” (a utilização desse termo, aqui, não tem nenhuma intenção de resgatar suas possíveis raízes históricas).

Nessa segunda parte, desse breve artigo, procuraremos refletir, como prometemos inicialmente, sobre algumas dessas idéias. Que fique claro, entretanto, que não faremos isso comissionados por nenhuma instância da IPB, mas, tão somente, por amor à reflexão, como leigos, inclusive. Nossa intenção é criticar (mas não para ofender e sim para provocar novas reflexões). Entendemos que a crítica é uma ferramenta importantíssima na construção de uma religiosidade sadia. Como diria o filósofo alemão Karl Popper “toda teoria (interpretação) precisa ser falseada (bombardeada, criticada) porque se depois desse procedimento ela se mantiver intacta, quanto mais digna será de ser seguida”. Nesse sentido, isso já acontece com as escrituras e suas interpretações. Ela tem prevalecido, para a glória de Deus.

Como oficiais da IPB, entendemos que precisamos estar atentos e prontos a combater tudo que atrapalhe a comunhão da igreja e fira seus símbolos de fé (como é o caso, em nosso entendimento), não importando de onde venha: se do meio pentecostal ou ainda do meio reformado (infelizmente e com muita tristeza),

“Até que todos cheguemos à unidade da fé [...] para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Efésios 4.13-14).

Evidentemente que ninguém, com o mínimo de sabedoria, deve enclausurar-se em suas teorias (ou interpretações) a tal ponto que não fique espaço algum para mudanças. Nesse sentido, em nosso caso, quando publicamos algo em um espaço público, esperamos tão somente contribuir para o debate em questão. Pedimos então que opinem a respeito; fiquem à vontade para comentar e criticar o que será exposto. Não queremos radicalizar, mas ajudar nesse processo mútuo de ensino/aprendizagem.

Enumeramos cada etapa para facilitar as possíveis refutações.

2- A Igreja Presbiteriana do Brasil e os Puritanos

O termo “Puritano” tem causado, em muitos presbiterianos que não conhecem sua própria história, verdadeira repulsa. A IPB é uma igreja essencialmente Puritana. E o que exatamente faz da IPB uma igreja puritana? Seus símbolos de Fé: a Confissão de Fé de Westminster e os Catecismos Maior e Menor de Westminster, todos formulados pelos puritanos. Herança bendita e extraordinária porque se trata da fiel exposição da bendita e extraordinária Palavra de Deus. Evidentemente os Puritanos têm muitas outras contribuições ao mundo e à IPB particularmente, contudo, essa contribuição como “Padrão de Fé”, limita-se “tão somente” aos documentos citados acima (outros documentos foram elaborados na mesma assembléia de Westminster, mas não foram adotados pela IPB).

Isso faz da IPB, além de uma igreja Puritana, uma igreja Confessional. Isso significa que, hipoteticamente falando, mesmo se o maior de todos os teólogos – João Calvino – ensine (ou interprete) algo diferente do que está ensinado (ou interpretado) nos referidos símbolos de fé, como membros da IPB (especialmente pastores, presbíteros e diáconos), por questão de coerência, devemos optar pela interpretação dos documentos de Westminster.

E em relação aos assuntos em que os símbolos de fé adotados pela IPB são silentos? Não podem ser ensinados na IPB? Podem sim, contudo, com muito zelo e cautela, a juízo do pastor e do conselho, sabedores que eles (esses assuntos ou ainda a interpretação desses assuntos) não possuem, para a IPB, oficialmente, nenhum status de “fiel exposição das Sagradas Escrituras”; não podendo, portanto, ser ensinado, nem cobrado, necessariamente, como tal.

3- Os Puritanos e a adoração

Temos aqui uma boa oportunidade para desfazer alguns “equívocos” com relação à abordagem puritana da adoração. Tem sido ensinado, nos últimos dias, que nossa adoração deve “imitar” ou “seguir” os mesmos passos (inclusive com riquezas de detalhes) da “adoração Puritana”. Mas, não é dito, entretanto, que não havia consenso entre eles, relativamente a esse assunto.

Infelizmente essa “omissão” tem causado muitas dificuldades na mente dos incautos. A idéia que é transmitida é a seguinte: “Os Puritanos” só cantavam salmos, “Os Puritanos” não permitiam outros cânticos, “Os Puritanos” eram contra instrumentos etc. Isso dá a impressão que esse era um conceito fechado e absolutamente aceito por todos eles. Mas isso não é verdade. Se usarmos de um pouco de sinceridade teremos que admitir que havia muita divergência, entre eles, quanto aos aspectos externos da adoração (divergência de interpretação da teologia do culto).

Alguém, por exemplo, já ouviu algum ensinamento quanto à opinião de John Owen (considerado como um dos mais importantes Puritanos), em relação à oração? Sabia que ele considerava falsa toda e qualquer oração espontânea? Não sabia? Claro, isso é propositadamente omitido por aqueles que defendem a salmodia exclusiva, mas que, por outro lado, concordam, defendem e fazem esse tipo de oração em suas igrejas. Diante da contradição, perguntamos: não é para seguir o que ensinavam “Os Puritanos”? Owen, pelo menos, era coerente em seu ensino: se só podemos cantar “salmos inspirados” (porque existem salmos não inspirados também) como poderíamos ter tamanha ousadia em dirigir palavras “espontâneas” (nascidas em nosso coração falível) a Deus? Packer, em seu famoso livro “Entre os Gigantes de Deus”, quanto a essa “divergência litúrgica”, no que tange à questão da oração, afirma o seguinte:

"A oração de improviso é necessariamente desigual em sua qualidade? [...]. Quanto a essas indagações, os evangélicos exibem diferenças em nossos dias, tal como os Puritanos diferiam uns dos outros em sua própria época. Baxter, por exemplo, tal como Calvino e Jonh Knox, aprovava uma liturgia que desse lugar às orações espontâneas, segundo a orientação dos ministros; mas Owen sustentava que “todas as liturgias, como tais (às de Baxter, Calvino e Knox), são falsas adorações usadas para frustrar a promessa de Cristo quanto aos dons e quanto ao Espírito de Deus”. Quem estaria certo? Novamente, tocamos aqui em uma questão que não é simples, nem pode ser considerada morta" (PACKER, 1991,p.269).

A falta de referência a essa questão da oração é muito interessante. Por que nunca vimos, nem mesmo nos cultos considerados “dentro dos padrões puritanos”, o liturgo anunciando: “vamos orar a oração de Ana” ou ainda “vamos orar a oração de Daniel”, ou “vamos orar a oração do fariseu e do publicano”? Coisa de Anglicano ou Católico Romano? Não, de Puritano também.

Por que só ouvimos “alarde” com relação à salmodia exclusiva (inspirada) e nenhuma palavra sobre o uso exclusivo de “orações inspiradas” no culto, mesmo sendo igualmente um ensinamento “dos Puritanos”?

A Confissão de Fé de Westminster (único ensino Puritano adotado como “padrão de fé” pela IPB, juntamente com os catecismos, como já demonstramos), dá uma ênfase muito grande à questão da oração, chegando a afirmar que é “parte especial do culto”. Ora, se por um lado “Os Puritanos” ensinavam a salmodia exclusiva, por outro lado também “ensinavam” que a oração não podia ser espontânea e sim, exclusivamente, inspirada. A questão é: porque os adeptos de uma (salmodia exclusiva) não adotam também a outra (orações inspiradas) em seus cultos? Adotar um ensinamento e não adotar o outro é uma completa falta de senso e uma contradição inacreditável, uma vez que a base do argumento serve tanto para um como para o outro.

Diante do exposto, esperamos ter ficado claro que não é justo simplesmente afirmar: “Os Puritanos” ensinavam assim ou pensavam assim, principalmente quanto à adoração. O mais honesto seria afirmar: “Alguns Puritanos pensavam assim, mas outros pensavam de forma completamente diferente”.

Antes que alguém possa dizer (e alguém dirá): “os Puritanos só discordavam nesse aspecto da adoração – a oração –“ (o que já seria suficiente para desmontar o argumento dos recentes “ventos de doutrina”), queremos deixar claro que há evidências históricas que demonstram que a discordância era muito mais abrangente, atingindo quase todos os itens relacionados aos aspectos externos da adoração.

Packer, na obra já citada, reconhece que quanto ao aspecto interno (espiritual) da adoração, de acordo com um dos princípios ensinados por Jesus (Jo 4:24), isto é, ao “trabalho do coração”, de fato, havia unidade entre os puritanos. Porém, não é omisso a ponto de não demonstrar que, quanto ao aspecto externo da adoração, como já dissemos, havia grande grau de discórdia que havia entre eles. Veremos algumas importantes constatações nesse sentido:

Minha principal preocupação, portanto, não é com as controvérsias a respeito da adoração que dividiram os puritanos tanto do clero anglicano quanto uns dos outros […]. As controvérsias deles sobre os aspectos formais e externos da adoração eram reais e contínuas, religiosamente motivadas e defendidas de forma apaixonada […]. Não pretendo traçar detalhes históricos, nem tomar partidos (não quero começar tudo de novo!), mas, procurarei enfocar os problemas que ocasionaram aquelas controvérsias, a fim de demonstrar exatamente o quanto o conflito dividiu as partes conflitantes (PACKER, 1991, p.265). E ainda: […] a autoridade e a suficiência das Escrituras […] serviam de base comum para ambos os lados do conflito, embora não estivessem de acordo sobre como aplicar esse princípio. Em outras palavras, o desacordo deles estava relacionado à interpretação e ao conteúdo das Escrituras e não ao princípio formal da natureza e da extensão de sua autoridade (idem, 1991, p.266).

Não vamos nos estender mais nessa questão. Concluo esse tópico fazendo um apelo: Por favor, ensinem tudo, sem nada omitir. Não venham ensinar que “Os Puritanos” diziam dessa ou daquela maneira, como se houvesse uma “estranha” harmonia entre eles. Esse desacordo, entretanto, não diminuí em absolutamente nada a importância que esses servos de Deus tiveram e ainda têm para a igreja do Senhor, porque são fruto de um desejo sincero de encontrar a melhor interpretação para essa difícil questão. Entretanto, quão verdadeiro é também dizer que esse “desacordo”, explicitamente, desautoriza o que está sendo ensinado, quanto à adoração, nesses últimos dias, em nome dos Puritanos. Querem fazê-lo? Que façam, mas não em nome dos Puritanos, pelo menos citem aqueles que pensam analogamente aos senhores, contudo, não esqueçam de observar que nem todos pensavam assim.

4- O que é e o que não é o “Princípio” Regulador

Quero começar esse tópico fazendo uma denuncia: Estão querendo transformar o Princípio Regulador do Culto (PRC) em uma Regra Reguladora do Culto (RRC). Isso é muito interessante porque PRC foi idealizado exatamente para combater a RRC.

No tempo dos Puritanos, por exemplo, havia (e ainda há), principalmente entre os anglicanos (muitos puritanos eram anglicanos), o estabelecimento de “regras rígidas” para direcionar o culto. Não havia lugar para a espontaneidade. O “Livro Anglicano de Orações Comuns” normatizava, de forma radical, como a liturgia deveria se desenrolar, passo a passo. Outra Regra Reguladora do Culto, muito combatida pelos Puritanos, era a utilizada pela Igreja Católica Romana. Ryken, em seu livro “Santos no Mundo”, tratando sobre a ojeriza dos Puritanos a essas “rígidas regras”, que visavam “engessar” o culto, faz a seguinte afirmação:

Uma preocupação principal do culto Puritano era a tentativa de preservá-lo de uma rotina que perdera seu poder através da mera repetição. Isto achava-se no coração da hostilidade Puritana ao Livro Anglicano de Orações Comuns [...]. Os Puritanos ansiavam pela liberdade e irritavam-se debaixo do confinamento (RYKEN, 1992, p.137).

Segundo Packer,

“Havia e continua havendo três diferentes modos de dirigir a adoração pública: contar com uma liturgia fixa, como Livro de Oração; ter um manual de orientações gerais (que, como tal, não prevê maiores detalhes), como o Westminster Diretory (não adotado pela IPB); ou deixar nas mãos do ministro ou da congregação regulamentar à vontade a sua própria adoração (essa opção está profundamente ligada com o chamado “princípio normativo do culto”, que defende que tudo que não é expressamente proibido no culto é, então, permitido). Essas alternativas estão historicamente ligadas aos anglicanos, aos presbiterianos e aos independentes (hoje representado pelos grupos pentecostais, renovados e liberais, em todas as suas variantes) e quacres, respectivamente” (PACKER, 1991, p.268).

Como Igreja Presbiteriana do Brasil, obviamente, que não podemos considerar como corretos nem o primeiro nem o terceiro modo (apesar disso, muitas igrejas locais, por falta de conhecimento, têm optado por esse último).

Muito embora a IPB não adote o Westminster Diretory, como “padrão de liturgia”, por força de sua confissão de fé, segue esse mesmo caminho do segundo modo descrito por Packer (manual de orientações “gerais”).

Dirigir a adoração por meio de “orientações gerais” ou mesmo de “princípios gerais” e não por “normas detalhadas”, sempre foi uma opção de presbiteriano e de muitos outros Reformados. Uma sábia opção, diga-se de passagem. Isso posto porque nem mesmo os mais profundos teólogos conseguiram desenvolver “uma liturgia cristã ideal”, em suas nuances. E não conseguiram simplesmente porque ela não está registrada, explicitamente, nas Sagradas Escrituras. Dela podemos abstrair, tão somente, “princípios gerais”.

“Os reformadores alemães, suíços e ingleses adotavam os mesmos princípios básicos quando à adoração [...]. Concordavam, igualmente, que cada igreja ou federação de igrejas tem a responsabilidade de estabelecer os detalhes de sua própria adoração, de acordo com o princípio apostólico [...] “edificação” (I Cor 14:26) [...]. Finalmente concordavam que as igrejas tem a liberdade de praticar sua adoração da maneira que melhor se adapta à edificação de seus membros [...] de tal modo que eles estavam certos de que as várais igrejas, em várias situações pastorais, diferenciariam quando aos detalhes” (PACKER, 1991, p.267).

A aplicação, equivocada, do Princípio Regulador do Culto como uma “Regra Rígida (RRC)” acaba gerando situações embaraçosas e que acabam por arrebanhar muitos irmãos na luta contra a implantação do verdadeiro PRC. Packer, tratando sobre esse assunto, expõe algumas dessas situações:

"A tentativa de pôr o ideal Puritano sobre a vida e a adoração da igreja, levou a alguns argumentos curiosos, como a “prova” de que dois cultos eram obrigatórios aos domingos, com base em Números 28:9-10, que prescreve dois holocaustos a cada sábado [...] ou a “prova” de que o ministro deve permanecer em um só lugar durante o culto, com base na declaração de Atos 1:15” (PACKER, 1991, p.267).

4.1- Qual a diferença de um “Princípio” para uma “Regra”?

Tanto o termo “Princípio” como o termo “Regra ou Norma” foram emprestados do vocabulário jurídico. Por mais que se queira dizer que em teologia eles assumem uma nova conotação não há como separá-los, indiscriminadamente, de suas raízes, sob pena de deixarem de ter o significado que se propõem, tanto em direito, como em teologia ou ainda em uso coloquial. Vejamos um pouco o que significa um e outro termo, a partir de sua origem, de sua raiz jurídica:

"O professor Bonavides (2000, p. 248-250), afirmou [...] que os princípios possuem alto grau de generalidade relativa, enquanto que as regras são de baixo grau de generalidade [...] os princípios são qualitativamente distintos das regras: 1.°) Uma regra é ou não é cumprida, um princípio possui vários graus de concretização, variando em razão de condicionalismos fáticos e jurídicos; 2.°) Os princípios podem coexistir, apesar de serem antinômicos, as regras em conflito excluem-se. Aqueles permitem "balanceamento de valores e interesses", as regras exigem o tudo ou nada; 3.°) Os princípios podem envolver problemas de validade e de peso, as regras só enfrentam questão de validade".

Observe ainda esses dois exemplos para clarear ainda mais a diferença entre “Princípio” e “Regra”:

“A aula começa às 7:30 da manhã. O aluno que chegar à sala depois desse horário não terá direito à presença”. Eis um exemplo de regra. Nesse exemplo, não há meio termo: o aluno deve chegar antes do horário marcado. Se chegar um minuto depois, estará descumprindo a regra e, portanto, deverá sofrer a sanção nela prevista. É na base do tudo ou nada. Agora veja um exemplo de princípio: “A aula começará bem cedo. O aluno deve chegar o mais cedo possível”. Observe que a estrutura da frase mudou substancialmente. Não é possível estabelecer com precisão qual é o horário exato em que a aula começará. Vai depender de diversos fatores. Num dia de chuva, o mais cedo possível é um pouco mais tarde do que num dia de sol. Se o carro “der o prego”, certamente haverá um atraso. Se houver engarrafamento, idem.

“O princípio Regulador do culto é um princípio que admite dentro de si várias normas, várias regras; bem como não admite, em hipótese alguma, outras tantas. Ele não é uma norma analítica, mas um princípio Geral”.

4.2- Definições e dificuldades do termo Princípio Regulador do Culto


“Princípio regulador do culto (ou princípio regulador da adoração) é a designação dada à forma como os calvinistas interpretam a relação entre o culto cristão e o segundo mandamento. De acordo com esta perspectiva, Deus só deve ser adorado da forma que ele mesmo requer nas Escrituras Sagradas”. http://pt.wikipedia.org/wiki/Princ%C3%ADpio_regulador_do culto

“Segundo Matthew McMahon, o Princípio Regulador do Culto afirma apenas isto: O verdadeiro culto é ordenado somente por Deus; o falso culto é algo que Ele não ordenou. Este era o conceito puritano a respeito do culto”.

Que o culto deve ser de acordo como Deus requer em sua Palavra; que o verdadeiro culto é aquele ordenado por Deus, todos nós concordamos. Mas, eis aqui uma grande dificuldade. De que parte das Escrituras estamos falando? Gerard Van Groningen, em um importante artigo, intitulado “A influência do culto do antigo Testamento na Liturgia”, lista pelo menos cinco épocas distintas em que houve variação no quesito adoração. Vejamos:

"Será que o Antigo Testamento oferece direção para uma adoração no culto contemporâneo? Isso nos leva imediatamente a um problema histórico que oferece um estudo muito desafiador: Que parte do Antigo Testamento devo estudar? Há pelo menos quatro épocas representadas no culto no Antigo Testamento: Primeira: De Adão ao Êxodo. Era um culto centralizado na família, pode ser chamado de adoração doméstica[...] Segunda: Desde Moisés, em Êxodo 19, até I Samuel. Foi o período do Tabernáculo. O Tabernáculo era a habitação simbólica de Deus, era um palácio portátil, mas era um palácio[...]. Terceira: De Davi até o Exílio. Essa foi a época do templo e a maior mudança foi a centralidade do culto. Era a adoração de um povo como um todo [...].Quarta: A era do exílio. Nessa época não havia templo, não havia sacrifício, não havia sacerdócio. Contudo, Deus enviou profetas, como Ezequiel e Daniel. Supõe-se, portanto, que os grupos fiéis se reuniram no exílio e começaram o que depois ficou conhecido como “sinagoga”[....]. Quinta: A era pós-exílica, com Neemias e Esdras. A partir de então, o templo foi restaurado, os sacerdotes voltaram a atividade, e os sacrifícios passaram a ser trazidos [...]. Então, à medida que analisamos estas cinco eras, encontramos mudanças, mas há sempre um lugar de adoração; há mudanças na liderança, mas há sempre o papel do líder; há ainda o papel da música, da Toráh e da hora de oração".
http://www.musicaeadoracao.com.br/artigos/meio/culto_antigo_liturgia.htm

Percebem a dificuldade? Qual o período, com sua particularidade, iremos seguir na nossa adoração? Precisamos ter muito cuidado com esse argumento. Só podemos dizer que nossa adoração segue as recomendações bíblicas por meio de “princípios gerais” e nunca através de “regras reguladores”.

O próprio Gerard Van Groningen, mais uma vez reconhece isso. Diz ele:

“Assim, nessas cinco eras, encontramos [...] princípios permanentes para o período do Novo Testamento: 1. Adoração, 2. A postura do povo na adoração, 3. O líder, 4. A adoração deve expressar a relação pactual estabelecida por Deus entre Ele e o Seu povo, 5. O quinto princípio da adoração é que há um julgamento pelo pecado e, por isso, o sacrifício deve ser representado, 6. O último princípio de que vou tratar é que o culto é para toda a família”.

Desafiamos, inclusive, que nosso leitor poste em comentário, um único texto bíblico que demonstre, em riqueza de detalhes, como deve ser uma liturgia de um culto cristão. Claro que ninguém citará I Cor 14:26 afinal, essa liturgia apresentada pelo Apóstolo Paulo não se parece, nem de longe, com a liturgia que dizem ser a ideal para nossas igrejas. Contudo, esse é o texto mais claro sobre o assunto.

5- A Igreja Presbiteriana do Brasil e o Princípio Regulador do Culto

O maior de todos os teólogos, o reformador João Calvino, ensinava o “Princípio Regulador” do culto. E fazia isso porque entendia ser um ensinamento extraído das Escrituras Sagradas e que qualquer desvio desse “princípio” seria um caminhar perigosamente às margens do abismo, assumindo sério risco de “adorar em vão”.

“Calvino sustentava este princípio utilizando diversas passagens bíblicas, incluindo 1 Samuel 15.22 – “Obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender, melhor do que a gordura de carneiros” – e Mateus 15.9: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens”.
http://www.editorafiel.com.br/artigos_detalhes.php?id=63

Sendo a IPB uma igreja historicamente reconhecida como calvinista, não poderia assumir outra postura frente a esse assunto. A IPB entende que o culto deve ter seus “princípios” firmados tão somente nas escrituras sagradas:

"A luz da natureza mostra que há um Deus que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras (CFW, XXI, Do culto Religioso e do domingo)".

Portanto, é fora de qualquer cogitação utilizar-se de recursos, práticas e elementos, no culto público, estranhos à Palavra de Deus. Práticas que “jamais” foram prescritas nas Escrituras Sagradas devem ser completamente descartadas em um culto da IPB. É bem verdade que alguns pastores e conselhos da IPB (não a IPB, insistimos), julgando erroneamente terem “carta branca” para definir sua própria liturgia, negam aquilo que juraram em sua ordenação e incluem, de forma grotesca e rebelde, “fogo estranho” no culto público. Coisas como “danças litúrgicas”, “coreografias” etc, tem sido, infelizmente, incluídas no culto público, porém, isso é uma flagrante quebra do Princípio Regulador do Culto defendido pela IPB. Em síntese, a IPB adota e defende o “Princípio” Regulador do Culto; entendido, diga-se de passagem, como um “Princípio” e não como uma “Regra Rígida”, como o livro de oração dos anglicanos, por exemplo.

6-A utilização errada do Princípio Regulador do Culto

Chegou o momento de nossa reflexão em que estaremos discutindo questões mais práticas e demonstrando como, em nossa opinião, o “Princípio” Regulador do Culto está sendo usado, por “algumas Células”, das mais diferentes denominações, de forma exagerada, equivocada e até mesmo legalista, como bem salienta Marckato Jr.

Os problemas relativos a esse tipo de utilização equivocada, que acaba transformando, como já dissemos, o que era pra ser um “princípio norteador” (o que já seria suficiente para barrar os exageros e o “fogo estranho” em nossas liturgias, como foi, desde o início, a intenção do PRC) em uma “rígida regra”, perpassa por algumas abordagens. Veremos apenas duas:

6.1- Salmodia Exclusiva: Segundo essa “célula”, é errado (pecado?) cantar outro cântico no culto público que não os “salmos inspirados” (porque existem salmos não inspirados também). Nem mesmo hinos do hinário devem ser cantados, segundo os defensores desse pensamento, mas apenas os Salmos (metrificados?).

6.2- Proibição de Instrumentos musicais, corais e solos nos cultos: Segundo essa mesma “célula”, não existe base bíblica para permitir-se a utilização de tudo isso no culto.

Basicamente são essas as reclamações daqueles que se sentem seguir, fielmente, os passos dos Puritanos (De qual deles? Pois não havia consenso sobre muitos desses assuntos, entre eles, como já demonstramos) e que, por isso mesmo, já estão sendo conhecidos, mais uma vez de forma pejorativa (só que isso não constitui, hoje, “um sofrer por Cristo”, como foi no passado) de “os novos puritanos”. Essa designação tem sito utilizada porque, diferente dos verdadeiros Puritanos, esses, não pautam sua vida “inteira” num projeto radical (no bom sentido) de seguir os ensinamentos da palavra de Deus. Antes, empunham apenas algumas bandeiras e por elas matam e morrem. De forma que não é raro encontrar-se um neo-puritano brigando com toda a sua liderança constituída, indo à fogueira se necessário, para defender a salmodia exclusiva ou mesmo a proibição de mulheres orarem no culto, e, ao mesmo tempo, não se preocupando em guardar o dia do senhor.

Esse alarde que estão fazendo já ultrapassou fronteiras. Veja o que Gerard Van Groningen, comentarista do Catecismo Maior, da editora Os Puritanos, disse acerca do assunto: “É um apelo à tradição puritana, querem cultuar como os puritanos fizeram, e eu estou ouvindo alguns rumores de que isso está acontecendo também no Brasil”.
Baseados em suas mentes sectárias, causam grandes problemas às igrejas, assumindo uma postura que é peculiar às seitas: “a confiança narcisista de serem os únicos certos”. Esquecem que fazem parte de uma igreja conciliar, democrática e que possui todos os recursos possíveis para as mudanças necessárias. Preferem a truculência; preferem quebrar o 5º mandamento ao rebelarem-se contra a liderança constituída por Deus, não considerando, entretanto, que a bíblia trata esse pecado – o da rebelião – análogo ao pecado da feitiçaria (I Sam 15:23), tamanho são os males que causam no meio do povo de Deus. Querem ensinar quando não são responsáveis pela docência da igreja. Querem dirigir e governar a igreja quando não foram escolhidos por ela para tal ofício. Arrebanham os incautos de forma sorrateira; dão as costas às decisões e ensinamentos dos pastores e presbíteros; “emburram” quando as coisas não são da forma como querem.

Contra esse grupo e com relação a esses assuntos a IPB já se pronunciou, como veremos mais adiante. “Perdemos”, entretanto, esse tempo em contestá-los com o simples objetivo de demovê-los de sua soberba. Claro que existe a possibilidade deles estarem completamente certos e nós, os outros, completamente equivocados e desviados das escrituras. Mas, isso não lhes dá o direito de fazer o que e como estão fazendo. Existe uma liderança constituída. Não estão satisfeitos com ela? Problema algum; a IPB dispõe de meios “legais” e constitucionais para tirá-los, para exonerá-los. Façam isso e depois se coloquem à disposição da igreja, em eleição de oficiais. Caso a igreja reconheça seu chamado e vocação; aí sim: estarão legitimados a liderar, ensinar, pastorear. Nunca, porém, saibam disso, a dizer e ensinar o que a IPB não diz e ensina.

Trataremos mais detalhadamente apenas dessas duas questões sugeridas acima.

6.1- Salmodia Exclusiva:

Penso que devemos começar essa seção relembrando o significado da palavra “salmo”, porque tem muita gente fazendo “tempestade de copo d’água”. Essa confusão parece ter lugar quando se quer dar um significado a essa palavra que ela simplesmente não tem, isto é, querem que a palavra “salmo” signifique exclusivamente “livro” e “livro inspirado”. Vejamos algumas definições:

a) Salmos ou Tehilim( do hebraico תהילים, Louvores[...]Tal como em outras tradições culturais, também a poesia hebraica andava estreitamente associada à música. Assim, embora não seja de se excluir para os salmos a possível recitação em forma de leitura, "todavia, dado o seu gênero literário, com razão são designados em hebraico pelo termo Tehillim, isto é, «cânticos de louvor», e, em grego psalmói, ou seja, «cânticos acompanhados ao som do saltério». In:

b- Na Sagrada Escritura Hebraica, Séfer Tehellim, ou em resumo, Tillim (Hinos); no A.T. grego, chama-se Psalmoi, donde o título da Vulgata e das traduções mais recentes, Psalmi, Salmos. No codedex grego A’ é apelidado de psalterium (instrumento que acompanhava o canto dos Salmos e, em seguida, coleção de Salmos assim executados), conde provém o psalterium da Vulgata e o Psaltério das traduções modernas. In:
http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/old_testament_p.htm

c- Salmo em hebraico é "Tehellim" que significa Hino, porém a palavra hebraica mais usada é "Mizmor". Portanto, os Salmos são cânticos, louvores ao Criador.

d- Salmo: Hino de louvor a Deus (Dicionário da Bíblia de Almeida, da Sociedade Bíblica do Brasil).

Parece mais que claro que a palavra salmo, essencialmente, significa: hino, cântico.

Quando a Confissão de Fé de Westminster, no capítulo XXI, que trata sobre “O Culto religioso e do Domingo”, afirma “o cantar salmos com graças no coração”, está, de fato mandando cantar “exclusivamente” os Salmos da bíblia? Claro que não. O que significa salmo? Como vimos, a frase poderia muitíssimo bem ter sido redigida da seguinte maneira: ”o cantar hinos ou cânticos com ações de graças no coração”, sem perder, contudo, seu sentido original. Há ainda o fato de que a palavra “salmos” está grafada, na confissão, com a letra “s” (minúscula), o que, segundo alguns, pode ser mais um indício de que ela signifique, de fato, qualquer cântico espiritual e não exclusivamente os “Salmos” inspirados das escrituras, uma vez que este sempre é grafado com a letra “S” (maiúscula). Esse último argumento está sendo bastante rebatido, pelos “exclusivistas”.

Para nós, a grande questão está na interpretação de um texto bíblico básico, citado pela confissão, para embasar tal afirmação:

“Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Colossenses 3:16).

Os defensores da S.E afirmam existir nessa passagem uma espécie de “hebraísmo”, ou seja, salmos, hinos e cânticos significariam a mesma coisas, isto é: Salmos.

Para não estender muito a questão vamos evocar um dos mais aclamados teólogos dos últimos tempos, Wlliam Hendriksen. Diz ele, comentando o texto em questão:

Paulo reconhece claramente a natureza edificante do canto que glorifica a Deus [....]. Assim, no que se refere a salmos [...] nenhuma dificuldade. Quanto a hinos, se a definição de Agostinho for correta, existem hinos que não pertencem ao saltério do Antigo Testamento; hinos tais como o Magnifiacat (Lc 1:46-55). E o Benedictus (Lc 1:68-79). Fragmentos de outros hinos do Novo Testamento parecem estar incluídos nas cartas de Paulo (Ef 5:14; Cl 1:15-20; I Tm 3:16) [...]. A palavra canção [...] Efésios 5.19 e Colossenses 3.16, mas também Apocalipse 5.9; 14:3, onde “o novo cântico” é indicado [...]. Em tudo e por tudo, parece que o apóstolo emprega esses três termos [...] distinguno-os [...]: O termo salmos se refere [...] ao Saltério do Antigo Testamento; hinos, principalmente aos cânticos neotestamentários de louvor a Deus ou a Cristo; e cânticos espirituais, a quaisquer outras canções sacras” (HENDRIKSEN, 2007, p.431).

Alguém se habilita a dizer que o Hendriksen está errado? (Tenho certeza que sim). Com que autoridade? A de quem leu meia dúzia de livros?

Em nossa opinião, a clara posição do teólogo acima acaba com a discussão sobre o “possível” ensinamento de salmodia exclusiva. Isso nunca foi um prática na e da IPB.

O importante teólogo da Igreja Reformada, querido irmão, por quem tenho muita estima e respeito, Rev.Adriano Gama, ao analisar o badalado livro “Salmodia exclusiva, uma defesa bíblica” do Pr. Brian M. Schwertley, publicou em seu blog a seguinte conclusão sobre o assunto:

“Parece que o Pr. Brian pretende transformar o mandamento de se “cantar os Salmos” em “cantar EXCLUSIVAMENTE os Salmos”. Para tanto, alega que há um livro de cântico oficial na Bíblia que é justamente a coleção de 150 Salmos. Ele sempre insiste que não podemos, portanto, cantar composições mesmo inspiradas no Culto que não seja EXCLUSIVAMENTE os Salmos e cantar qualquer coisa que não Salmos é sacrilégio. Quando, mencionamos que há outros “cânticos inspirados” nas Escrituras como o Cântico de Mirian, os Cânticos que o Apóstolo Paulo e outros dirigiram ao Senhor, o Pr. Brian parece criar uma classe inferior de “Cânticos ou composições inspiradas” ao dar a entender que tais “composições inspiradas” não fazem parte da coleção de 150 Salmos. Perguntamos: poderíamos cantar estes cânticos inspirados ou outras partes das Escrituras no Culto? Ou cometeríamos sacrilégio? Haveria os Salmos de ser “mais” inspirados do que outras partes das Escrituras? E quando acrescentamos que há para as igrejas reformadas outros elementos de culto que são “composições humanas não-inspiradas” como Credo Apostólico, leitura do Catecismo de Heidelberg, Confissão Belga, as Formas litúrgicas, as orações e a própria pregação, ele diz que o louvor é um elemento distinto. Mas o que significa esta distinção? Qual o problema finalmente, o fato de ser “composições humanas não-inspiradas”, não estar na coleção dos 150 Salmos, ou o que? A própria formulação: ou a coleção dos 150 Salmos ou nada, parece ser estabelecida de forma arbitrária. Parece que assim ele estabelece um Cânon dentro do Cânon sendo o primeiro superior ao segundo. Parece que a conclusão é que há uma supervalorização dos Salmos em detrimento de outras partes das Escrituras”.

Já poderíamos parar nossa argumentação por aqui, entretanto, como não somos teólogos e sim leigos (o que pressupõe uma visão limitada e interpretação sem nenhuma expressão técnica) solicitamos a um dos mais respeitados teólogos, professor do SPN - Seminário Presbiteriano do Norte, Rev.Gaspar de Souza (www.profgaspardesouza.blogspot.com), para dar sua opinião sobre o assunto. Veja o que ele pensa:

“FORMAÇÃO E ESTRUTURA DO SALTÉRIO: 1) O Saltério passou por 4 estágios até alcançar sua composição atual. Só passou a ser usado como livro de cânticos (2Cr 29.30) e como pode ser percebido na divisão do Escrito: 1 - 41; 42 - 72; 73 - 89; 90 - 106; 107 – 150; 2) Do fato de que o Saltério não é composto apenas de cânticos, mas também de orações e lamentos, que eram recitados e não cantados. Os indicadores técnicos apontam para isso. Por exemplo, o termo Mizmor (Salmo) é para canção acompanhada de instrumento de corda(Ops!) (57 salmos têm esta designação); Masquil (Salmo Didático) é um poema para meditação; Tephilah (Oração) etc. 3) Os Indicadores Instrumentais do Salmos: Binguinot - instrumento de corda (Sl 4; 5; 54; 55 etc); Al-Almalot (sobre donzelas, literalmente... rssss. Para vozes femininas, soprano e poderia indicar, instrumento afinados à voz de soprano); Al-Hashminit (instrumento de oito cordas). DA LEXICOGRAFIA MUSICAL DO NOVO TESTAMENTO: 1) O termo Himnos é um estrangeirismo no NT, mas os rabinos passaram a usar para distinguir os cânticos sagrados dos profanos. A idéia de que Himnos refere-se a um cântico de Halel (especialmente em Mt 26.30) é tardia, do Talmude Babilônico, 300 anos depois de Cristo. O termo Himnos, no NT, era usado para qualquer cântico da ação (Cf. At 16.25). 2) O substantivo Psalmós fala da vibração das cordas do arco e o do som do instrumento de corda. No AT, o verbo Pallein, tradução de Nignah (música) aparece em Sl 69.12 (68.13 na LXX) para falar de cântico profano. 3) No NT Psalmós aparece 4x em Lc; 3x em Paulo; o verbo aparece 3x em Paulo e 1x em Tiago. Em Lucas (20.42; 24.44), por exemplo, tem em vista o conjunto dos Escritos do AT chamado de Ketubhim (inclui os Sl, Pv, Jó, Ester, Ed-Ne, Dn, Cr, Rt, Lm, Ct). Restingir, então, o termo ao Saltério é desonestidade exegética. 4) O termo Odé no NT, com o adjetivo Pneumatikós, quer dizer que os cânticos, mesmo que improvisados, deveriam ser a Cristo e sua obra redentora, como acontece em 1Tm 3.16. DA SINTAXE E DA TEOLOGIA EM Ef 5.18, 19 e Col 3.16: 1) A expressão "hinos, salmos e cânticos espirituais" não quer dizer "Saltério". Paulo (e a quem ele escreveu) conhecia a expressão "Livro dos Salmos" (Lc 20.42; At 1. 20). Se Paulo quisesse que o Saltério fosse cantado, teria sido extremamente específico, como era de seu costume. 2) O texto diz que devemos "falar", "cantar" e "salmodiar", todos no Particípio presente, o que diz que são ações simultânea. Então, todo sermão, oração e ensino devem vir do Saltério, se for o caso dos 3 termos serem sinônimos. 3) Que, embora pudesse haver (há muito que se discutir aqui) hebraísmo nestes versos, sempre haverá diferenças entre os termos. Por exemplo, "mandamentos, estatutos e juízos", embora possam significar TUDO que Deus ordena, há diferenças entre eles (Cf. Amós 2.4) 4) Que os termos de Ef 5.19 são da LXX (Septuaginta), versão grega não inspirada e cujos títulos são apenas isagógicos, isto é, referências históricas dos salmos. 5) Que o adjetivo "espirituais" não quer dizer só "inspirado", mas aqui os cânticos devem contrastar com "carnais" (Cf. Ef. 1.3; 6.12; 1Co 2.15; Gl 6.1). Ou seja, os cânticos devem refletir os pensamentos renovados (Ef. 4. 17 - 23; Cf. Col 3.2 e Fp 4. 8,9) 6) Que em Col 3.16, o contexto não é de "Culto Público", mas da vida diária dos cristãos (vv. 3.1 - 25:4. 1 6). Daí o fato de Paulo falar em "ensinando-vos" e "admoestando-vos" "uns aos outros"(pron. refl. plural). 7) Se se tratasse de "culto público" teríamos uma balbúrdia, pois TODOS ensinariam e admoestariam uns aos outros (Cf. Col. 1. 2). 8) Se "salmos, hinos e cânticos espirituais" refere-se ao Saltério, então é com este que devemos ensinar e admoestar, pois a sintaxe diz que estas duas ações verbais (particípio presente) ligam-se aos dativos "salmos, hinos e cânticos espirituais". O Dativo é locativo ou instrumental. Aqui, sem dúvida, é instrumental. Em outras palavras: ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros usando como instrumento "salmos, hinos e cânticos espirituais". Veja a confusão se os 3 termos querem dizer Saltério apenas. O PRINCÍPIO REGULADOR DO CULTO (PRC): 1) O Objetivo do PRC era excluir a Missa, Orações pelo Mortos e pelos Santos, Serviços Litúrgicos Católico ou Anglicano. 2) Os nossos irmãos Puritanos NÃO cantavam SÓ Salmos. Isso pode ser atestado pelo Saltério de Calvino (http://genevanpsalter.redeemer.ca/) 3) Outros Saltérios também incluíram cânticos. Por exemplo, o Saltério Escocês. 4) Os Reformadores, Puritanos e Comentaristas Reformados NUNCA apoiaram a Salmodia Exclusiva e NUNCA entenderam o PRC como princípio para S.E. HISTÓRIA DA IGREJA: 1) A Igreja Primitiva compôs Hinos e Cânticos (e Salmo - Cf. Ef 1. 3 - 14): e.g Fp 2. 6 – 11. 2) Clemente de Alexandria (200 d.C) compôs o hino "Shepherd of Tender Youth"; 3) O Historiador Plínio disse que os "cristãos entoavam hinos a Cristo como a um deus"; 4) Os Comentaristas Peter Lange, Lenski, W. Hendriksen, Manton, M. Henry, A.T.Robertson, J. Lightfood, Hodge e outros confirmam que tanto a Igreja do NT quanto os cristãos pós-apostólico não cantavam APENAS os Salmos. 5) Como forma de combater as Heresias, as igrejas incentivavam a composição de hinos Trinitários, por exemplo. 6) Na Idade Média, Bernard de Clairvaux compôs hinos que foram cantados ao lado dos Salmos. 7) Lutero compôs hinos que foram cantados entre os protestantes; 8) Isaac Watts, o primeiro a revisar o saltério, começou a compor hinos e cânticos. Isto desencadeou uma reação de um pequeno grupo de algumas igrejas que descartou o Saltério. 9) Este grupo adotou a posição da Salmodia Exclusiva. Foram eles que começaram a restringir o cânticos aos Salmos e a proibir os instrumentos musicais. Deste grupo, por não conseguir transformar todas as igrejas reformadas, surgiu a Igreja Livre da Escócia. 10) Faltam testemunhos apostólicos, das igrejas cristãs de todas as épocas (seja Ocidental ou Oriental), das igrejas protestantes (luterana, reformadas e arminianas) acerca da SALMODIA EXCLUSIVA. Só isso seria suficiente para fazer os irmãos adeptos desta posição pensarem bem. CONSIDERAÇÕES: 1) Os Salmos Metrificados não passam de paráfrases. Não são os SALMOS mesmos, como traduzidos, mas são paráfrases. Sendo assim, os "salmodistas" adicionam palavras não inspiradas, subtraem palavras inspiradas; reorganizam as palavras dos Salmos (licença poética, claro). O Saltério como temos não passa de uma produção humana. Deveríamos cantar A TRADUÇÃO MAIS FIEL POSSÍVEL. Na minha opinião, Fábio, quem faz isso é o grupo VPC, por exemplo, ao cantar o Sl 96. Compare um Salmo Metrificado abaixo com o Salmo traduzido:

Metrificado:
Feliz é o homem
que não vai Conforme os ímpios vão
Nem com os pecadores tem
Alguma comunhão

Traduzido:
Bem-aventurado o homem
que não anda segundo o conselho dos ímpios
nem se assenta na roda dos escarnecedores

Na minha modesta opinião (ainda como um conhecedor médio de exegese e línguas bíblicas), não temos o Salmo 1 ali. Temos uma interpretação, uma paráfrase. Faltam os verbos principais (anda, detém, assenta), faltam adjetivo e substantivos (conselho, caminho, roda e escarnecedores); interpreta-se a parte final do verso (nem sem assenta....) como "alguma comunhão". Enfim, não há diferença alguma desta paráfrase da paráfrase que encontramos no NCC, e.g. N. 22 (Sl 19), N. 29 (Sl 103), N. 34 (Sl 136) e outros. 2) Existem centenas de Salmos fora do Livro de Salmos (Cf. Êx 15. 20; Jz 5; Is 51; 26.1; Ef. 1. 3 - 14) 3) A História da Redenção levou aos Cristãos a comporem hinos (Lc 2. 13, 14; 46 - 55; 19. 37, 38; Ap 4.11; 5. 4 - 6; 9 - 14); 4) Deveríamos, mesmo assim, cantar ao lado dos cânticos, hinos de nossos hinários, os Salmos e outras porções das Escrituras. Bom, são estas as breve razões pelas quais eu não sou adepto da Salmodia Exclusiva. Cantos os Salmos parafraseados (metrificados), mas canto os cânticos que exaltam a Jesus Cristo e Sua Obra e as glórias do Deus Triúno. O que está acima é apenas um resumo. Muito mais tem para ser dito. Já me propus a analisar o livro do Brian, mas falta-me tempo. Por outro lado, aceitei o convite para falar sobre esse assunto, muito mais para que os irmãos salmodistas entendam que há diversidade neste ponto; e que isso não diminuirá em nada os princípios da Reforma abraçados por nós. À luz do exposto acima, entendo que a CFW não está falando de Salmos (Livro), mas de cânticos que reflitam o ensinamento bíblico. Assim interpretaram nossos irmãos da IPB em seu PL/IPB. Espero ter ajudado, irmão Fábio. Queira Deus que os irmãos salmodistas não nos pertubem, visto que nossas consciências estão cativas à Palavra de Cristo. Oriente aos irmãos a investigarem as questões. Por não investigarem, abraçam todas as novidades que se digam "Reformada". Em Cristo Jesus, Gaspar de Souza”.

6.2- Proibição de Instrumentos musicais, corais e solos nos cultos: Segundo essa mesma “célula”, não existe base bíblica para permitir-se a utilização de tudo isso no culto.

Recentemente as igrejas que utilizam em seus cultos “cantores (solos)”, corais e instrumentos musicais têm sido acusadas de trazer “fogo estranho” ao culto, de cometerem “sacrilégio”, de pecarem contra o Senhor. O “Princípio” Regulador do culto tem sido usado, de forma equivocada, em nossa opinião, para fundamentar tal posição. Um dos textos preferidos daqueles que querem proibir tais práticas está registrado na Confissão de Fé de Westminster, capítulo XXI: “Mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás”.

A grande questão é: quem inventou essa história de “cantores” no culto? Quem inventou essa história de corais no culto? Quem inventou essa história de instrumentos musicais no culto? As imaginações e invenções dos homens? As sugestões de satanás? Respondemos: nem uma coisa nem outra. O próprio Deus inventou. O próprio Deus ordenou, o próprio Deus instituiu. Gerard Van Groningen reconhece isso:

"Davi deu prescrições, em nome de Deus, a respeito dos corais e grupos instrumentais, mas os sacrifícios, o serviço sacerdotal, e as festas de sábado continuaram".
http://www.musicaeadoracao.com.br/artigos/meio/culto_antigo_liturgia.htm
Vejamos agora alguns textos bíblicos que fundamentam o que acabamos de argumentar acima:

Cantores/solos:

II Crônicas 20.21 Aconselhou-se com o povo e ordenou cantores para o SENHOR, que, vestidos de ornamentos sagrados e marchando à frente do exército, louvassem a Deus, dizendo: Rendei graças ao SENHOR, porque a sua misericórdia dura para sempre. II Crônicas 5.12: e quando todos os levitas que eram cantores, isto é, Asafe, Hemã, Jedutum e os filhos e irmãos deles, vestidos de linho fino, estavam de pé, para o oriente do altar, com címbalos, alaúdes e harpas, e com eles até cento e vinte sacerdotes, que tocavam as trombetas; II Crônicas 35.25 Jeremias compôs uma lamentação sobre Josias; e todos os cantores e cantoras, nas suas lamentações, se têm referido a Josias, até ao dia de hoje; porque as deram por prática em Israel, e estão escritas no Livro de Lamentações. Esdras 2.41 Os cantores: os filhos de Asafe, cento e vinte e oito. Esdras 2.65 afora os seus servos e as suas servas, que foram sete mil trezentos e trinta e sete; e tinham duzentos cantores e cantoras. Esdras 2.70 Os sacerdotes, os levitas e alguns do povo, tanto os cantores como os porteiros e os servidores do templo habitaram nas suas cidades, como também todo o Israel. Esdras 7.7 Também subiram a Jerusalém alguns dos filhos de Israel, dos sacerdotes, dos levitas, dos cantores, dos porteiros e dos servidores do templo, no sétimo ano do rei Artaxerxes. Neemias 11.22 O superintendente dos levitas em Jerusalém era Uzi, filho de Bani, filho de Hasabias, filho de Matanias, filho de Mica, dos filhos de Asafe, que eram cantores ao serviço da Casa de Deus. Neemias 12.45 e executavam o serviço do seu Deus e o da purificação; como também os cantores e porteiros, segundo o mandado de Davi e de seu filho Salomão. Neemias 12.46 Pois já outrora, nos dias de Davi e de Asafe, havia chefes dos cantores, cânticos de louvor e ações de graças a Deus.

Quero ainda, apenas para reflexão, citar mais um texto nessa cessão. Antes, porém, quero lembrar ao nosso leitor que alguns defendem, de forma apaixonada, a salmodia exclusiva. Vejamos o texto. I Coríntios 14.26: “Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação”. Observe a expressão “um tem salmo”. O que significa? Que toda a congregação cantaria o Salmo ou, ao contrário, seria cantado por “um”? Isso não seria um solo (forçando um pouco)? Fica a pergunta para nossa reflexão.

Coral/coro:

Neemias 12.24 Foram, pois, chefes dos levitas: Hasabias, Serebias e Jesua, filho de Cadmiel; os irmãos deles lhes estavam fronteiros para louvarem e darem graças, segundo o mandado de Davi, homem de Deus, coro contra coro. Neemias 12.31 Então, fiz subir os príncipes de Judá sobre o muro e formei dois grandes coros em procissão, sendo um à mão direita sobre a muralha para o lado da Porta do Monturo. Neemias 12.38 O segundo coro ia em frente, e eu, após ele; metade do povo ia por cima do muro, desde a Torre dos Fornos até ao Muro Largo; Neemias 12.40 Então, ambos os coros pararam na Casa de Deus, como também eu e a metade dos magistrados comigo.

Instrumentos musicais:

I Reis 10.12 Desta madeira de sândalo, fez o rei balaústres para a Casa do SENHOR e para a casa real, como também harpas e alaúdes para os cantores; tal madeira nunca se havia trazido para ali, nem se viu mais semelhante madeira até ao dia de hoje. II Samuel 6.5 Davi e toda a casa de Israel alegravam-se perante o SENHOR, com toda sorte de instrumentos de pau de faia, com harpas, com saltérios, com tamboris, com pandeiros e com címbalos. I Crônicas 15.16 Disse Davi aos chefes dos levitas que constituíssem a seus irmãos, os cantores, para que, com instrumentos músicos, com alaúdes, harpas e címbalos se fizessem ouvir e levantassem a voz com alegria. I Crônicas 16.42 Com eles, pois, estavam Hemã e Jedutum, que faziam ressoar trombetas, e címbalos, e instrumentos de música de Deus; os filhos de Jedutum eram porteiros. I Crônicas 23.5 quatro mil porteiros e quatro mil para louvarem o SENHOR com os instrumentos que Davi fez para esse mister. II Crônicas 5.13 e quando em uníssono, a um tempo, tocaram as trombetas e cantaram para se fazerem ouvir, para louvarem o SENHOR e render-lhe graças; e quando levantaram eles a voz com trombetas, címbalos e outros instrumentos músicos para louvarem o SENHOR, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre, então, sucedeu que a casa, a saber, a Casa do SENHOR, se encheu de uma nuvem; Salmos 61.1 [Ao mestre de canto. Com instrumentos de cordas. De Davi] Ouve, ó Deus, a minha súplica; atende à minha oração.
Creio que essa quantidade de citações já é suficiente. Há problemas de interpretação nessas passagens, no que diz respeito à utilização tanto de coro, cantores e instrumentos musicais no VT e em nossos dias? Claro, reconhecemos, contudo, não podemos fugir dessa verdade: “Não foi a imaginação ou invenção do homem, nem tão pouco as sugestões de satanás que os incluíram no louvor a Deus. O próprio Deus um dia declarou que se agradava disso e, portanto, os instituiu para seu louvor”. Se utilizarmos o “Princípio” Regulador do Culto, equivocadamente, como uma “regra ou norma rígida”, como querem, dificilmente poderíamos inferir ser utilizável esses recursos (que Deus se agradara no passado) no culto hoje. Contudo, se fazemos a aplicação correta desse princípio “como um princípio”, provavelmente teremos a possibilidade de louvarmos ao Senhor com esses recursos, instituídos por Ele mesmo, para seu louvor e adoração. Vejamos abaixo como seria a utilização correta, em nossa opinião, nestes casos, do “Princípio” Regulador do Culto, baseados na origem, na raiz do termo, conforme tratamos no item 4.1. Vejamos a diferença entre “Princípio” e “Regra”, no que diz respeito à questão da adoração:

PRINCÍPIO
Deus gosta de ser adorado com música

REGRA
Só os levitas podem ser cantores no templo.
Só os levitas podem ser cantores e participar de corais no templo;

PRINCÍPIO
Deus gosta de ser adorado com instrumentos musicais

REGRA
Só os levitas podem tocar instrumentos no culto

Notem: O “Princípio” é mais geral e Invariante. A norma é mais específica e pode variar. Isto é, o fato de não existir mais o sacerdócio levítico não implica, necessariamente, que Deus não quer ou não goste mais de ser adorado com músicas, instrumentos musicais, solos ou corais. Pelo menos não baseados na opção feita pela IPB: “Princípio Regulador” e não “Regra Reguladora”.

Vejamos agora outra situação, hipotética e apenas para efeito didático:

PRINCÍPIO
Deus não gosta de ser adorado com música

REGRA
Os levitas estão autorizados a adorar a Deus com música;
Os levitas podem fazer solos e corais

PRINCÍPIO
Deus não gosta de ser adorado com instrumentos musicais

REGRA
Só os levitas podem tocar esses instrumentos no culto

Neste segundo caso, estaríamos então desautorizados, hoje, não somente de utilizarmos solos e corais, mas, primariamente de adorar a Deus com músicas e instrumentos musicais.

A “Regra” deve estar submissa ao “Princípio”. Cantar, solar, ter corais no culto, utilizar instrumentos musicais, em última análise, depende tão somente da identificação do “Princípio Geral”, ou seja, neste caso especificamente: Deus gosta de ser adorado com música ou Deus não gosta de ser adorado com música? Deus gosta de ser adorado com instrumentos musicais ou Deus não gosta? Se o princípio é “gosta de ser adorado com música” então, logicamente, não há nem um problema em fazer isso com solos, corais e instrumentos musicais. Se, ao contrário, o princípio é “Deus não gosta de ser adorado com música”, decorre daí, igualmente, que não podemos ter em nossos cultos nenhum tipo de música, muito menos ainda, por razões obvias, corais, solos e instrumentos musicais.

Um princípio é um princípio e uma regra é uma regra. Redundâncias à parte, isso precisa ficar absolutamente claro, pois tem muita gente querendo transformar o que é “apenas” um “princípio norteador” em uma “Regra rígida e legalista”.

O reconhecido teólogo Jonh Mackarto Jr, parece ter compreendido perfeitamente a distinção entre “Princípio” e “Regra” que acabamos de demonstrar acima. Fugindo dos “detalhes” (por coerência com a proposta de qualquer “princípio”, que é ser mais geral e norteador), nosso teólogo se afasta da utilização errada do chamado “Princípio Regulador do Culto”, diferentemente do que fez Spurgeon (que transformou o que era para ser apenas um “princípio norteador em “rígida regra”), aproximando-se de forma prudente e coerente de todas as bênçãos trazidas pela correta compreensão e utilização desse que é um “Princípio Norteador e não uma Regra Rígida e Frívola”. Vejamos:

“A questão que surge a seguir é sobre como o princípio Sola Scriptura pode ser usado para regular o culto. Alguém pode indicar o fato de que Charles Spurgeon utilizava o princípio regulador para excluir o uso de qualquer instrumento musical no culto. Spurgeon recusou permitir a utilização de um órgão no Tabernáculo Metropolitano, porque acreditava que não havia base bíblica para música instrumental no culto cristão. Na verdade, ainda existem crentes que, pelo mesmo motivo, se opõem a música instrumental. É óbvio que nem todos os que afirmam a ortodoxia do princípio regulador necessariamente concordam em todos os detalhes sobre como ele deveria ser aplicado. Alguns poderiam salientar tais diferenças nas questões práticas e sugerir que todo o princípio regulador é, por isso mesmo, insustentável. William Cunningham observou que críticas contra o princípio regulador freqüentemente procuram desacreditá-lo recorrendo à tática do reduzi-lo ao absurdo. Mas o princípio regulador tem de ser interpretado e explicado com o exercício do bom senso. Dificuldades e diferenças de opiniões podem surgir a respeito dos detalhes, mesmo quando o discernimento correto e o bom senso influenciam a interpretação e aplicação do princípio. Mas isto não oferece qualquer fundamento para negar ou duvidar das verdades ou da ortodoxia do próprio princípio regulador. Cunningham reconheceu que o princípio regulador com freqüência é empregado para argumentar contra coisas que podem ser reputadas como relativamente sem importância, tais como ritos, cerimônias, vestimentas, órgãos, ajoelhar-se, prostrar-se e outros recursos exteriores da religião formal. Por causa disso, Cunningham afirmou: “Algumas pessoas parecem imaginar que o princípio regulador se preocupa com a insignificância intrínseca das coisas”. Portanto, muitos concluem: os que advogam o princípio regulador fazem-no porque realmente gostam de contender por coisas insignificantes. Com certeza, ninguém se deleitaria em disputas por questões irrelevantes. É verdade que o princípio regulador ocasionalmente tem sido utilizado daquela maneira. Uma obsessão por aplicar qualquer princípio aos menores detalhes pode facilmente se tornar uma forma destrutiva de legalismo. Mas o princípio Sola Scriptura, aplicado ao culto, é sempre digno de ser defendido com ferocidade. O princípio em si mesmo não é trivial. Além disso, a falha de apegar-se à prescrição bíblica no que se refere ao culto é exatamente aquilo que mergulhou a igreja nas trevas e na idolatria da Idade Média. Não tenho interesse em suscitar um debate sobre instrumentos musicais, vestimentas pastorais, decoração do templo ou outros assuntos. Se existem aqueles que utilizam o princípio regulador como um trampolim para tais debates, excluam-me de entre eles. As questões que inflamam minha preocupação relacionada ao culto contemporâneo são mais profundas do que tais assuntos. Referem-se ao próprio âmago do que significa adorar a Deus em espírito e em verdade.

7- Conclusão:

Não precisaríamos ter “perdido” todo o tempo empreendido nesse post. A IPB, de forma coerente já se pronunciou sobre o assunto. Com essa decisão concluo:

CE-SC/IPB - 2008 – Doc. CXCIII - Quanto ao documento 202 - Proveniente do Presbitério Sul Paulistano - Sínodo de Piratininga - Ementa: Consulta do Presbitério Sul Paulistano Sobre Práticas Neo-Puritanas. Considerando: 1. Que as práticas elencadas pelo PSPA tais como: cântico exclusivo de salmos, proibição de mulheres cristãs de orarem nos cultos da Igreja, proibição de instrumentos musicais e de corais nos cultos não encontram amparo nos símbolos de fé da Igreja e nem nos Princípios de Liturgia que regem o culto na Igreja Presbiteriana do Brasil; 2. Que a Igreja Presbiteriana do Brasil é historicamente uma Igreja litúrgica, e que tem primado por um culto solene, embasado nas Sagradas Escrituras conforme interpretado pelos seus símbolos de fé; A CE-SC/IPB-2008 RESOLVE: 1. Lamentar que as restrições esposadas por aqueles que defendem tais práticas estejam trazendo confusão no seio do povo presbiteriano; 2. Determinar aos pastores que observem os ―Princípios de Liturgia da Igreja Presbiteriana do Brasil como parâmetro litúrgico para os cultos em suas igrejas, bem como os fundamentos teológicos do culto esposados pela Confissão de Fé de Westminster e seus Catecismos Maior e Breve como norteadores para uma sadia teologia do culto; 3. Determinar aos concílios da Igreja Presbiteriana do Brasil que velem pela execução da liturgia reformada, conforme expressa nos Símbolos de Fé e Princípios de Liturgia adotados pela IPB, repelindo todas as práticas estranhas a eles, quer sejam elas ―Neo-Puritanas de restrição de genuínos atos litúrgicos quer sejam de acréscimos de práticas antropocêntricas ―Neo-pentecostais.

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