quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

COLÓQUIO PROTESTANTISMO E POLÍTICA NO CONTEXTO ATUAL: Breves reflexões acerca de protestantes que votam em partidos de esquerda



Da proposta do colóquio “Protestantismo no contexto atual”, entendo que devemos pensar sobre a postura do protestante diante do atual cenário de polarização política em que vivemos. De um lado, um projeto de poder mais à esquerda e do outro uma forma de governar mais à direita. Já adianto que gosto dessa polarização. Acho que isso traz clareza para o eleitor. Aqueles que gostam de um modelo mais à esquerda (com Estado grande e intervencionista), com todos os seus ônus e bônus (se é que existem bônus), escolherão candidatos com esse perfil, o mesmo ocorrendo com o eleitor que prefere um modelo mais à direita (com um Estado mínimo). Vou tentar direcionar minha fala no sentido de identificar o modelo que mais se adequaria ao que entendo ser pressupostos basilares do protestantismo e se isso está acontecendo e por qual motivo.

Inicio minha fala dizendo que, no contexto atual, sou protestante mas não sou militante político. Já fui. Era um ativo militante Ptista, ainda que moderado, igual a maioria dos que estão presentes aqui. Minhas credenciais: votei duas vezes em Lula, duas vezes em Dilma e nas eleições municipais e estaduais sempre escolhi candidatos mais à esquerda e quem tivesse doido falasse mal do “companheiro Lula”. Peguei várias brigas com amigos pastores que ousavam falar mal daquele que se auto intitula como a “alma mais honesta do país”.

Mudei! Mudei porque entendo que o que vou chamar de “esquerdismo” traz algumas incompatibilidades teóricas com o cristianismo, que tentarei, com brevidade, expor.

Abraan Kuypper (1837-1920), ex-primeiro ministro da Holanda, costumava apontar a existência do que ele chamava de “sistemas de vida”. Um sistema é uma cosmovisão ampla que engloba o que vc pensa acerca do homem, de Deus e do mundo. Segundo ele: “Dois sistemas de vida estão em combate mortal”.  De um lado “o Modernismo [...] comprometido em construir um mundo próprio a partir de elementos do homem natural, e a construir o próprio homem a partir de elementos da natureza”, do outro, o cristianismo, em linhas gerais. (KUYPER, 2002, p.19). Nessa mesma linha, referindo-se à concepção materialista de um filósofo da antiguidade, Heráclito, segundo o qual "o mundo forma uma unidade por si mesmo e não foi criado por nenhum deus e por nenhum homem, mas foi, é e será eternamente um fogo vivo que se acende e se apaga de acordo com as leis", diz Lenin: "Eis aqui uma excelente definição dos princípios do materialismo dialético." (Lenin, "Cadernos filosóficos", pag. 318).

Essa ideia parece representar bem a polarização que vivemos hoje, também no Brasil. De um lado, um conservadorismo que tenta recuperar os pressupostos cristãos de família como “célula mater” da sociedade, que asfaltou o caminho para a civilização ocidental e do outro lado um modelo mais secularista/materialista que tenta desmistificar e se colocar numa posição antagônica ao cristianismo. Isso é muito interessante porque, no final das contas, trata-se de um embate sobre temas gerais religiosos, sintetizados por Kuypper como sendo “nossa relação com Deus, nossa relação com o homem e nossa relação com o mundo”. De forma prática: Deus existe/Deus não existe; o homem e o próprio mundo são criados/não são criados e todas as outras coisas decorrentes dessas.

Nesse sentido, então, não é difícil concluir que Partidos e Políticos de esquerda são, necessariamente, por conta de sua base teórica, voltados para a construção de um Estado e de uma Sociedade mais aproximada com os pressupostos do Ateísmo, que é bem diferente de um Estado Laico[1].  Gramisc já deixava isso muito claro ao afirmar: “A nossa religião torna a ser a história, a nossa fé torna a ser o homem, a sua vontade e atividade” (GRAMSCI, 1972a, p. 231) e ainda: “O mundo civilizado tem sido saturado com cristianismo por 2000 anos, e um regime fundado em crenças e valores judaico-cristãos não pode ser derrubado até que as raízes sejam cortadas”[2]. Gramisc também considerava o Socialismo como uma espécie de “religião” secular que dispensa “a necessidade da religião para a produção do bem, da verdade, da vida moral” (GRAMSCI, 1972b, p. 116). Por sua vez, Marx já se referia à religião da seguinte forma: “suspiro da criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, espírito de uma situação sem espírito: a religião é o ópio do mundo[3]; Por fim, Gramisc atribuía à “filosofia práxis”, Marxismo, o papel de, em certo sentido, usar a religião como uma espécie de “degrau”, para, por fim, superá-la; substituí-la. Diz ele:  “Uma concepção do mundo não pode revelar-se como válida e impregnar toda uma sociedade até converter-se em uma fé, se não demonstrar que é capaz de substituir as concepções e crenças anteriores em todos os graus da vida estatal”[4]. Isto é, usou o catolicismo para acabar com o catolicismo[5].

Esse tipo de visão de mundo, reverbera na sociedade pela defesa de pautas que confrontam diretamente a moralidade cristã, como por exemplo:  aborto, toda a agenda LGBT, incluindo a teoria Queer, mais conhecida como ideologia de gênero, um Estado grande, intervencionista, que interfere até mesmo na criação dos filhos, diminuição das liberdades individuais, como se ver em países onde o socialismo avançou mais, diminuição das liberdades religiosas, da mesma forma (em alguns países com severas perseguições a cristãos), controle social das mídias, etc.

Dito isso, penso que o protestante que ainda insiste em votar e defender partidos e políticos esquerdistas estão remando na contramão do cristianismo e do modelo forjado por ele no mundo ocidental e ajudando a construir uma nova ordem social, incompatível com o cristianismo. Não é coerente votar fortalecendo a “ideologia marxista”, ateia e anticristã por definição e, ao mesmo tempo, orar por missionários que sofrem perseguição em países com esse viés ideológico. Em última análise, votar significa escolher entre uma cosmovisão cristã (que não tem nada a ver com igreja, num sentido mais amplo) e a cosmovisão secularista/marxista. Uma antagônica em relação à outra. Por isso mudei!

Mas, não tivesse esse entendimento teórico, como cristão protestante, também me sentiria na obrigação de mudar de lado ou de, pelo menos, votar diferente. Não me sentiria à vontade em continuar votando num modelo que se corrompeu tanto que acabou por estabelecer a Cleptocracia, no dizer do ministro Gilmar Mendes. Continuar a apoiar esse esquema criminoso seria pecar contra o oitavo mandamento, conforme a interpretação do Catecismo Maior de Wesminster, em sua pergunta de nº 142: 142. Quais são os pecados proibidos no oitavo mandamento? Os pecados proibidos no oitavo mandamento, além da negligência dos deveres exigidos, são: o furto, o roubo [...] a recepção de qualquer coisa furtada; as transações fraudulentas [...] o suborno, [...] os meios ilícitos de vida, e todos os outros modos injustos e pecaminosos de tirar ou de reter de nosso próximo aquilo que lhe pertence, ou de nos enriquecer a nós mesmos; a cobiça, a estima e o amor desordenado aos bens mundanos.

Os números da corrupção são astronômicos. Só a Operação Lava Jato, que envolveu basicamente a corrupção no âmbito Petrobras já recuperou R$ 4.069.514.758,69, até outubro de 2019, de um total já previstos em acordos de leniência, colaboração, TAC e renúncias voluntárias chega a R$ 14,3 bilhões[6]. Por conta disso e de muitos outros crimes, praticamente toda a cúpula do PT já foi condenada e presa ou está aguardando em liberdade o dia do encarceramento final: José Genuíno, presidente do PT, preso; José Dirceu, homem forte do PT, ministro chefe da casa civil, preso, Antônio Palocci, ministro da economia, preso; João Vacari, secretário do PT, preso; Delúbio Soares, tesoureiro do PT, preso; e, finalmente, o poderoso chefão, Luis Inácio Lula da Silva, preso depois de duas condenações em segunda instância, aguardando o julgamento de pelo menos mais sete processos e por aí vai. Alista é grande.

Por tudo isso, penso que, assim como eu, muitos protestantes mudaram foram ler um pouco, observar e voltaram a um realinhamento com a Cosmovisão Cristã, tão importante à construção do mundo ocidental. Claro que muitos protestantes ainda ousam gritar “Lula Livre”, mas estão sendo incoerentes com o que dizem crer, na minha humilde opinião.


[1] Um Estado secular ou estado laico é um conceito do secularismo onde o Estado é oficialmente neutro em relação às questões religiosasnão apoiando nem se opondo a nenhuma religião. O Estado secular deve garantir e proteger a liberdade religiosa e filosófica de cada cidadão, evitando que alguma religião exerça controle ou interfira em questões políticas. Difere-se do estado ateu - como era a extinta URSS - porque no último o estado se opõe a qualquer prática de natureza religiosa. Entretanto, apesar de não ser um Estado ateu, o Estado Laico deve respeitar também o direito à descrença religiosa”. Conforme: http://pt.wikipedia.org/wiki/Estado_secular. Para saber mais, acessar: http://filosofiacalvinista.blogspot.com/2013/05/breves-reflexoes-sobre-laicidade-do.html.
[2] A ESCOLA DO MST: REVOLUÇÃO ANTICRISTÃ E ASSALTO À SAGRADA ESCRITURA http://www.puggina.org/artigo/outrosAutores/a-escola-do-mst-revolucao-anticristaeassalt/3279).
[3] (MARX, Karl. “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”. In: Temas de Ciências Humanas. Vol. 2. São Paulo, Editorial Grijalbo, 1977, p. 2.)
[4] GRAMSCI, Antonio. Concepção Dialética da História. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966, p. 20
[5] Decreto contra o comunismo foi uma designação popular de um documento da Igreja Católica, publicado pelo Santo Ofício no dia 1 de Julho de 1949, durante o pontificado do Papa Pio XII. Este documento afirmava a excomunhão automática ipso facto (ou latae sententiae) de todos os católicos que, em obstinação consciente, aderem ao ateísmo e ao materialismo associado ao comunismo e às doutrinas marxistas. Além deste célebre documento de 1949, outros decretos contra o comunismo também foram publicados pelo Santo Ofício entre as décadas de 1940 e 1950.

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