Páginas

sábado, 31 de outubro de 2015

496 DE REFORMA PROTESTANTE: REFLEXÕES PARA IGREJAS TRADICIONAIS - Parte 1/2




Em 31 de Outubro de 1517 a Reforma Protestante, movimento do século XVI, completa 496 anos. Essa data é pontuada na história do cristianismo, mas não significa dizer que o "movimento de Reforma da igreja de Cristo" está circunscrito a esse tempo e espaço. A expressão Latina "Ecclesia Reformata et Semper Reformanda est", que significa "igreja Reformada, sempre se Reformando", dá o tom de como deve ser entendido esse movimento. Gosto da palavra "movimento" para falar da reforma, pois ela trás uma ideia de gerúndio, de continuação. Portanto, seria mais adequado falar de "Reformas". A Reforma não foi "movimento estático". Isso constituiria uma contradição entre os termos.  A história do povo de Deus está cheia delas e cada uma com seus próprios "Reformadores'. Nesse sentido, Neemias foi um reformador, o Rei Josias foi um reformador, os profetas, cada um a seu tempo, foram reformadores. Os apóstolos foram reformadores. Agostinho foi um reformador. Sabe aqueles que ficaram conhecidos como "pré-reformadores"? Esse é um título equivocado e injusto. Foram reformadores em seu tempo. Jonh Huss e Wiclif, só para citar alguns, foram verdadeiramente reformadores. Os Puritanos foram reformadores. Todos esses e tantos outros foram tão reformadores da igreja de Cristo quanto Lutero e Calvino.

O que há em comum entre todos esses Reformadores, ao longo a história do cristianismo? Muitas características. Citarei apenas algumas: o amor e apego pela palavra revelada de Deus, seguindo-a como única regra de fé e de prática; o desejo sincero de ter a glória de Deus como objetivo principal e fim supremo de suas vidas e muitas outras facilmente percebida em todos eles. 

Mas, há em todos os Reformadores, citados e não citados aqui, uma característica indispensável, sem a qual não poderiam receber tal designação: A CORAGEM. Eles eram Homens de Verdade. Temiam somente à Deus, verdadeiramente. Não eram frouxos.

Lutero, por exemplo, ao ser convocado para comparecer à Dieta de Worms, para ser julgado diante do Imperador Carlos V, de Joann Eck, assistente do arcebispo de Trier e de outros emissários do Papa, não temeu, frente ao eminente perigo.

“Segundo John Fox, no seu famoso Livro de Mártires Cristãos, no capítulo História da Vida e Perseguições de Martinho Lutero, este foi dissuadido por seus amigos a não comparecer diante do Imperador, que não era simpático à causa reformada, o que poderia acarretar em condenação à morte, Fox assim descreve o ocorrido: “... Veio de modo contrário às expectativas de muitos, tanto dos adversários como dos amigos. Os seus admiradores deliberaram juntos, e muitos trataram despersuadi-lo para que não se aventurasse ao perigo de ir a Roma, pois consideraram que tantas vezes não se havia respeitado a promessa de segurança para as pessoas nesta condição. Ele, após ter ouvido todas as suas persuasões e conselhos, respondeu-lhes do seguinte modo: “No que a mim me diz respeito, uma vez que me chamaram, resolvi e estou certamente decidido a ir a Worms, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo; sim, mesmo sabedor de que há ali tantos demônios para resistir-me, em número tão grande como o das telhas que cobrem as casas da cidade de Worms”. Segundo ainda algumas “lendas pias”, Lutero teria dito: “Se cada telha dos Castelos de Worms fosse um demônio, mesmo assim, eu iria, pois Castelo Forte é o nosso Deus!”, desta forma a canção que ele compôs foi chamada assim. Conforme:
 
(http://joceleniltongomes.blogspot.com.br/2012_10_01_archive.html#sthash.qRrKpkOk.dpuf). 

É exatamente essa CORAGEM que distingue um "Reformador" de um não "Reformador". Os fracos e covardes, que preferem assistir passivamente o lobo devorando as ovelhas, mesmo sendo sua função e chamado defendê-las, não merecem essa designação. "Poupar o lobo é sacrificar as ovelhas". 

Há no Brasil, também,  igrejas que são herdeiras diretas da Reforma Protestante do século XVI. Geralmente são chamadas de "tradicionais". Não só por conta do estilo sóbrio, simples e ortodoxo de sua liturgia. O termo remete à sua raiz histórica com a chamada Reforma Protestante do século XVI. São elas: Igreja Luterana, Igreja Presbiteriana, Igreja Reformada, Igreja Batista (se a consideramos fruto do movimento anabatista, ainda que um pouco tardiamente), entre outras pouquíssimas.

Com relação a essas igrejas, é quase unânime a afirmação que estão enfrentando uma "grave crise de identidade doutrinária", o que discordo, em certo sentido.

Vejo essa crise apenas na Igreja Batista,  não nas outras. 

Na Igreja Presbiteriana, por exemplo, não há uma "crise de identidade doutrinária", antes houvesse. A igreja, como instituição, preserva, ainda hoje, uma forte identificação confessional com os chamados símbolos de fé de Westminster - Confissão de Fé e Catecismos Maior e Breve, que constituem a interpretação oficial da igreja sobre diversos temas das Escrituras. A igreja sabe exatamente no que crê. Todas as suas estruturas funcionam perfeitamente como uma espécie de blindagem contra esse tipo de crise. É uma igreja confessional. Portanto, não sofre dessa "crise de identidade doutrinária".

Mas, o fato da IPB não sofrer dessa crise especifica, não significa dizer que está isenta de toda e qualquer crise. Pelo contrário, há uma GRAVE crise em seu meio: "a crise de HOMENS DE VERDADE, de HOMENS DE CORAGEM à semelhança dos Reformadores; de profetas de Deus que não temem perder o pescoço, à semelhança de João Batista; crise de Reformadores, de fato". 

Muitos pastores não fazem o que tem que ser feito, nas igrejas e nos concílios competentes, por conta de uma espécie de corporativismo velado que existe na "classe" e por conta de sua reeleição como pastor efetivo da igreja local. Aprovam candidatos sem condições, recepcionam pastores de outras denominações que não conhecem ao menos o básico da teologia da igreja, e tudo isso, na maioria das vezes, para satisfazerem aos anseios das "amizades". Além disso, fecham os olhos aos grotescos erros teológicos e de práxis religiosa e litúrgica de seus "colegas". E o que não dizer dos Presbíteros, principalmente, e dos Diáconos? A maioria deles são adeptos da filosofia do pragmatismo. Negociam práticas que são claramente contrárias às Escrituras, em nome de um suposto "não-radicalismo", mas, que, na verdade, querem ser "bem vistos" pelas "ovelhas subnutridas" das igrejas e, principalmente, pelas sociedades internas, transformadas, algumas vezes, em palanques "eclesiástico-eleitorais". Isso, sim, é verdadeiramente uma crise. Crise da Falta de HOMENS com a CORAGEM e a paixão pelas Escrituras que os Reformadores, de todos os tempos, tiveram. Essa crise é tão grave que parece supor a existência de uma "crise de identidade doutrinária", mas ela não existe. Essa falta de compromisso doutrinário de algumas igrejas locais e a quebra dos votos confessionais de alguns pastores e oficiais só ocorre por falta de HOMENS de CORAGEM no seio da igreja. Essa é a verdadeira crise que desencadeia todos os outros problemas da IPB.

Nunca pensei que publicaria uma música de origem pentecostal, muito menos ainda num post sobre a Reforma Protestante e, para piorar,  cantada por um "astro gospel" que não tem o menor compromisso com o Cristianismo, segundo ele mesmo. Mas, o fato é que ela se encaixa perfeitamente aqui, nesse contexto. Algo do tipo, como diria o Presb.Jonas Carvalho - um daqueles que têm coragem - "até as pedras clamarão". Na IPB, então: "Tá faltando João Batista, tá sobrando Salomé":

496 ANOS DE REFORMA PROTESTANTE: REFLEXÕES PARA IGREJAS PENTECOSTAIS 2/2



Quem já leu nossa série intitulada "Pentecostalismo e Reforma Protestante", arquivada aqui no blog em setembro e outubro/2011, sabe que não considero as igrejas pentecostais como igrejas "protestantes", no sentido de serem fruto ou de terem alguma espécie de ligação com a Reforma Protestante do século XVI. Em nossa opinião, o Pentecostalismo é muito grande para caber dentro da reforma. É um movimento completamente outro. Além disso, entendemos que as igrejas chamadas "Neo-Pentecostais" nada mais são que igrejas "Pentecostais", com algumas poucas variações; para pior, geralmente.

Por conta isso, reconhecemos que é um pouco fora de sentido direcionar algumas reflexões para as igrejas "Pentecostais históricas" e suas variantes Neo-pentecostais, dentro de uma postagem sobre a Reforma Protestante. Cometeremos esse deslize de forma consciente, entretanto:

Para iniciarmos nossas reflexões às igrejas Pentecostais, evocaremos a "tese" de nª 20/95, de Lutero, que diz: 

"O Teólogo da Glória chama de bom aquilo que é mau, e chama de mau aquilo que é bom; o teólogo da cruz chama as coisas pelo que são".

Para Lutero, os teólogos de seu tempo, a quem ele chama de "Teólogo da Glória", "criavam uma imagem de Deus que refletia apenas as próprias expectativas da humanidade sobre como Deus deveria ser", como afirma Carl Trueman, em seu excelente livro "Reforma ontem, hoje e amanhã", p.39. Eles, continua ele: "como a maioria das pessoas, esperam que Deus recompense aos que fazem coisas boas, entendendo, obviamente, que suas próprias obras são boas e louváveis diante de Deus".

Acaso não são "Teólogos da Glória" também os defensores hodiernos da teologia da prosperidade? Para eles, os crentes em Cristo precisam ser prósperos financeiramente. Precisam repreender a enfermidade; precisam viver regaladamente. Para eles, o sofrimento não deve fazer parte da vida do Cristão. São triunfalistas, materialistas, pregadores da vitória consumista e da glória; a glória própria.

Lutero, o teólogo da cruz, pensava absolutamente diferente. Certamente ele receberia um sonoro "tá repreendido em nome de Jesus" ao expor sua "teologia da cruz", do sofrimento, que ensina:

"Assim como Cristo aceitou o sofrimento e a morte como parte de sua própria vida e ministério, assim os que procuram andar em seus passos não devem esperar menos do que isso. A teologia da cruz [...] inverte as concepções humanas. A pergunta natural de alguém que está sofrendo de alguma forma é a seguinte: Por que eu? Por que essa coisa terrível está acontecendo comigo? Eu não fiz nada de errado. Para Lutero, a pergunta deve ser respondida olhando para a cruz: Se o sofrimento, a perseguição, a injustiça, o ódio e o escárnio são o quinhão de Cristo [...], devemos então esperar que nosso quinhão seja melhor? Em outras palavras, a pergunta não é tanto "Por que acontecem coisas ruins a pessoas boas?", e, sim: "Por que não acontecem mais coisas ruins às Pessoas boas?". De fato, para Lutero o sofrimento e a fraqueza são essência da vida cristã" (TRUEMAN, 2013, p.46,47).


Se as palavras acima já são mais que suficientes para deixarem os "teólogos da glória e da prosperidade" de "cabelo em pé", afastando-os cada vez mais de Lutero, talvez por entenderem ter ele recebido a influência do "demônio verdugo" (para saber mais sobre isso pergunte ao futuro Apóstolo "Eraldo Filho", no facebook), que o fez pensar assim, imagine, então, as que se seguem:

"Quanto mais alguém se assemelha a Cristo, tudo indica que mais propensa essa pessoa estará a sofrer e a sentir-se fraca e inadequada [...]. Naturalmente, isso não quer dizer que somos salvos por meio do sofrimento - de maneira nenhuma! O que está implícito é que, uma vez salvos, podemos esperar sofrimento e fraqueza como parte integrante da vida centrada em Cristo. Portanto, não devemos ficar surpresos quando as dificuldades surgem em nossa vida, pois elas são parte essencial da obra estranha de Deus, por meio da qual ele completa em nós a obra peculiar. O que deve o cristão esperar dessa vida? Saúde, riqueza e felicidade? É assim que Deus mostra sua graça e favor? Certamente isso é o que um teólogo da glória tomaria por certo: se Deus é bom para comigo, então ele me dará todas as coisas que tanto desejo. Os valores e as expectativas de um teólogo da glória são as mesmas do mundo ao redor. Assim, o sucesso espiritual deve ser julgado de maneira e maneira análoga ao suesso terreno, em termos de receita, status e credibilidade social. Mas essa não é a genuína teologia cristã, como Lutero a vê, pois ela não dá lugar para a cruz. As verdadeiras expectativas cristãs centralizam-se na cruz e envolvem aceitar, e até mesmo abraçar espontaneamente o sofrimento, a fraqueza e a marginalização que inevitavelmente acontecem àqueles que seguem os passos o Senhor Jesus. esse é que deve ser o horizonte de expectativas do crente como indivíduo e da igreja como um todo" (TRUEMAN, 2013, p.47,48).

Nada mais a acrescentar. Aprendam isso "teólogos da glória e da prosperidade" dos últimos tempos. 

domingo, 18 de outubro de 2015

A QUESTÃO DA ETERNIDADE EM AGOSTINHO DE HIPONA – PARTE 11/11


Cremos que já ficou por demais demonstrado que a controvérsia entre Agostinho e Pelágio o levou a voltar mais uma vez à questão da eternidade de Deus e não somente isto, mas também a um claro conceito de vida para-além da vida, isto é, da continuidade da duração da consciência do homem após sua desintegração física. Para ele, por decreto, a vida consciente continua depois da morte física. ontudo, julgamos mais uma vez oportuno tomar testemunho dos dois mais importantes documentos agostiniano/calvinista. Primeiro para efeito comparativo e depois para termos clareza da dimensão do legado da Antropologia agostiniana e de suas sérias conseqüências na história. O primeiro testemunho data de 1618, os Cânones de Dort:

Deus nesta vida concede a fé a alguns enquanto não concede a outros. Isto procede do eterno decreto de Deus. Porque as Escrituras dizem que ele faz estas coisas conhecidas desde séculos e que ele faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade. De acordo com este decreto, ele graciosamente quebranta os corações dos eleitos, por duros que sejam, e os inclina a crer. Pelo mesmo decreto, entretanto, segundo seu justo juízo, ele deixa os não‑eleitos em sua própria maldade e dureza de coração. E aqui especialmente nos é manifesta a profunda, misericordiosa e ao mesmo tempo justa distinção entre homens que estão sob a mesma condição de perdição. Este é o decreto da eleição e reprovação revelado na Palavra de Deus. Ainda que os homens perversos, impuros e instáveis o deturpem, para sua própria perdição, ele dá um inexprimível conforto para as pessoas santas e tementes a Deus. Esta eleição é o imutável propósito de Deus, pelo qual ele, antes da fundação do mundo, escolheu um número grande e definido de pessoas para a salvação, por graça pura. Estas são escolhidas de acordo com o soberano bom propósito de sua vontade, dentre todo o gênero humano, decaído, por sua própria culpa, de sua integridade original para o pecado e a perdição. Os eleitos não são melhores ou mais dignos que os outros, mas envolvidos na mesma miséria. São escolhidos, porém, em Cristo, a quem Deus constituiu, desde a eternidade, Mediador e Cabeça de todos os eleitos e fundamento da salvação. E, para salvá‑los por Cristo, Deus decidiu dá‑los a ele e efetivamente chamá‑los e atrai‑los à sua comunhão por meio da sua Palavra e de seu Espírito. Em outras palavras, ele decidiu dar‑lhes verdadeira fé em Cristo, justificá‑los, santificá‑los, e depois, tendo‑se guardado poderosamente na comunhão de seu Filho, finalmente glorificá‑los. Deus fez isto para a demonstração de sua misericórdia e para o louvor da riqueza de sua gloriosa graça. Como está escrito “assim como nos escolheu nele, antes do fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado”. E em outro lugar: E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também, glorificou[1].

O segundo documento data de 1889, “confissão de Westmisnter”:

Pelo decreto de Deus e para manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestinados para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna. Esses homens e esses anjos, assim predestinados e preordenados, são particular e imutavelmente designados; o seu número é tão certo e definido, que não pode ser nem aumentado nem diminuído.Segundo o seu eterno e imutável propósito e segundo o santo conselho e beneplácito da sua vontade, Deus antes que fosse o mundo criado, escolheu em Cristo para a glória eterna os homens que são predestinados para a vida; para o louvor da sua gloriosa graça, ele os escolheu de sua mera e livre graça e amor, e não por previsão de fé, ou de boas obras e perseverança nelas, ou de qualquer outra coisa na criatura que a isso o movesse, como condição ou causa. Assim como Deus destinou os eleitos para a glória, assim também, pelo eterno e mui livre propósito da sua vontade, preordenou todos os meios conducentes a esse fim; os que, portanto, são eleitos, achando-se caídos em Adão, são remidos por Cristo, são eficazmente chamados para a fé em Cristo pelo seu Espírito, que opera no tempo devido, são justificados, adotados, santificados e guardados pelo seu poder por meio da fé salvadora. Além dos eleitos não há nenhum outro que seja remido por Cristo, eficazmente chamado, justificado, adotado, santificado e salvo. Segundo o inescrutável conselho da sua própria vontade, pela qual ele concede ou recusa misericórdia, como lhe apraz, para a glória do seu soberano poder sobre as suas criaturas, o resto dos homens, para louvor da sua gloriosa justiça, foi Deus servido não contemplar e ordená-los para a desonra e ira por causa dos seus pecados[2].






[1] DORT, 1996, p.18.19
[2] WESTMINSTER, 1996, p.5

domingo, 4 de outubro de 2015

A QUESTÃO DA ETERNIDADE EM AGOSTINHO DE HIPONA – PARTE 10/11


A conseqüência lógica da antropologia agostiniana: a predestinação: um retorno à sua noção de eternidade

Para Agostinho, sendo o homem incapaz de qualquer bem por si só,  estando com sua natureza corrompida e totalmente depravado, resta-lhe tão somente esperar o favor não merecido da Graça Divina. A partir desse ponto, e como conseqüência lógica e racional de sua Antropologia,   ele desenvolve seu conceito de Predestinação, que nos remeterá de volta, necessariamente, à eternidade, uma vez que é lá que nasce o decreto eterno da eleição. A predestinação ou eleição agostiniana, muito embora tenha suas bases firmadas em escritos paulinos, é a alternativa encontrada por Agostinho para resolver o problema da natureza decaída do homem. Ora, se o homem, segundo ele, não possui mais as condições para, por suas próprias forças, fazer qualquer bem que concorra para a reabilitação de sua própria natureza e considerando ainda que a revelação escriturística o fazia entender que nem todos, por mais que tentassem, alcançariam tal reabilitação, Agostinho avança, para a única conclusão cabível como desfecho de sua Antropologia, para a única alternativa de reabilitação da alma decaída, isto é, a Predestinação.

Agostinho chega a conclusão que, na eternidade, Deus teria escolhido alguns homens para agraciá-los com essa graça salvífica, não por merecimento, pois, por merecimento todos deveriam, justamente, perecer eternamente na condição decaída, como ele mesmo afirma:

Esses testemunhos demonstram a concessão da graça de Deus não em atenção aos nossos merecimentos. As vezes verifica-se a concessão não somente faltando merecimentos mas existindo desmerecimentos prévios[1] .

No segundo volume de sua obra “A graça” Agostinho desenvolve de forma clara e inequívoca, não somente as bases de sua soterologia, mas, sobretudo, o desfecho lógico de sua antropologia. Diz ele: 

Procuremos entender a vocação própria dos eleitos, os quais não são eleitos porque creram, mas são eleitos para que cheguem a crer. O próprio Senhor revela a existência desta classe de vocação ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15: 16). Pois, se fossem eleitos porque creram, tê-lo-iam escolhido antes ao crer nele e assim merecerem ser eleitos. Evita, porém, esta interpretação aquele que diz: Não fostes vós que me escolhestes. não há dúvida que eles também o escolheram, quando nele acreditaram. Daí o ter ele dito: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, não porque não o escolheram para ser escolhidos, mas para que o escolhessem, ele os escolheu. Isso porque a misericórdia se lhes antecipou (Sl 53:11) segundo a graça, não segundo uma dívida. Portanto, retirou-os do mundo quando ele vivia no mundo, mas já eram eleitos em si mesmos antes da criação do mundo. Esta é a imutável verdade da predestinação da graça. Pois, o que quis dizer o Apóstolo: Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo?(Ef 1:4). Com efeito, se de fato está escrito que Deus soube de antemão os que haveriam de crer, e não que os haveria de fazer que cressem, o Filho fala contra esta presciência ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi. Isto daria a entender que Deus sabia de antemão que eles o escolheriam para merecerem ser escolhidos por ele. Conseqüentemente, foram escolhidos antes da criação do mundo mediante a predestinação na qual Deus sabia de antemão todas as suas futuras obras, mas são retirados do mundo com a vocação com que Deus cumpriu o que predestinou. Pois, o que predestinou, também os chamou com a vocação segundo seu desígnio. Chamou os que predestinou e não a outros; predestinou os que chamou, justificou e glorificou (Rm 8:30) e não a outros com a consecução daquele fim que não tem fim. Portanto, Deus escolheu os crentes, mas para que o sejam e não porque já o eram. Diz o apóstolo Tiago: Não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam? (Tg 2:5). Portanto, ao escolher, fá-los ricos na fé, assim como herdeiros do Reino. Pois, com razão, se diz que Deus escolheu nos que crêem aquilo pelo qual os escolheu para neles realizá-lo. Pergunto: quem ouvir o Senhor, que diz: Não fostes vós que me escolhestes,  mas fui eu que vos escolhi, terá atrevimento de dizer que os homens têm fé para ser escolhidos, quando a verdade é que são escolhidos para crer? A não ser que se ponham contra a sentença da Verdade e digam que escolheram antes a Cristo aqueles aos quais ele disse: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi[2].




[1] AGOSTINHO. A Graça II. Editora Paulus, 1999. VI.13, Pág, 37

[2] GRAÇA II, 1999. p. 194, 195

domingo, 27 de setembro de 2015

A QUESTÃO DA ETERNIDADE EM AGOSTINHO DE HIPONA – PARTE 9/11


A antropologia agostiniana em contraponto com os pelagianos - Continuação


A antropologia Agostiniana tem sido ainda bastante estudada, sobretudo pelos calvinistas, e tem sido considerada como um ponto fundamental  para a  soteriologia, de forma que não é errado afirmar que a visão  agostiniana/calvinista da depravação total do homem é o pilar principal do Pensamento Reformado, de forma que dele depende a compreensão de todo o resto do sofisticado sistema filosófico/teológico desenvolvido por Agostinho e seus sucessores.

A “Confissão de Westminster”, formulada em 1889, pelos puritanos ingleses, subscreve integralmente a antropologia Agostiniana:


Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza.  O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu pr6prio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza. O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder[1].

Outro importante documento agostiniano/calvinista, intitulado “contra o arminianismo” , formulado em 1618, no sínodo de Dort, para combater  um dos mais entusiasmado seguidores de Pelágio, o holandês Thiago Armínius, mais uma vez  subscreveu integralmente a Antopologia  Agostiniana:

No princípio o homem foi criado à imagem de Deus. Foi adornado em seu entendimento com o verdadeiro e salutar conhecimento de Deus e de todas as coisas espirituais. Sua vontade e seu coração eram retos, todos os seus afetos, puros; portanto, era o homem completamente santo. Mas, desviando-se de Deus [...] pela sua livre vontade, ele privou desses dons excelentes. Em lugar disso trouxe sobre si cegueira, trevas terríveis, leviano e perverso juízo em seu entendimento; malícia, rebeldia e dureza em sua vontade e em seu coração; e ainda impureza em todos os seus afetos[2].

Também devemos citar aqui o testemunho de um importante monge agostiniano do século de XVI, Martinho Lutero, que em reação à retomada dos ensinamentos pelagianos, em relação ao livre-arbítrio, por Erasmo de Rotterdam, escreveu sua obra “A escravidão da vontade”, que é uma contundente crítica aos ensinamentos pelagianos no melhor estilo agostiniano; diz ele:

Erasmo [...] você assevera que o “livre-arbítrio” é a capacidade que a vontade humana tem, por si mesma, de decidir [...] Os pelagianos também fizeram isso. Mas você os ultrapassa! [...] Prefiro até mesmo o ensinamento de alguns dos antigos filósofos aos seus. Eles diziam que um homem entregue a si mesmo só faria o errado. O homem só poderia escolher o bom com a ajuda da graça divina. Eles diziam que os homens são livres para decair, mas que precisam de ajuda para elevarem-se! Porém, é motivo de riso chamar a isso de “livre-arbítrio”. Com base em tais conceitos, eu poderia afirmar que uma pedra tem “livre-arbítrio”, pois só pode cair, a menos que seja erguida por alguém! O ensino daqueles filósofos, põem, ainda é melhor do que o seu. A sua pedra, Erasmo, pode escolher se sobe ou desce![3].

Como já dissemos, esta controvérsia com os pelagianos foi de suma importância. Sua discórdia com Pelágio tem sido atualizada na História por várias pessoas e por diversas vezes, a exemplo de Erasmo e Lutero, Calvinistas e Arminianos.

Assim diferem radicalmente as antropologias de Pelágio e de Agostinho, e, conseqüentemente, sua éticas e doutrina da salvação. Agostinho não vai contra a natureza. Pelágio não vai contra a graça. Pelágio escreveu seu livro para defender a força, os dotes das condições naturais do homem. Agostinho para defender a graça, que não vai contra a natureza, mas a restaura, a salva demonstrando que, para não tornar vã a cruz de Cristo, é preciso defender não só a natureza, mas também a graça, que cura e liberta a natureza [...] Dessa polêmica nasceram as doutrinas ocidentais do pecado original, da graça, da predestinação e da satisfação vicária[4].



[1]WESTMINSTER, 1996, p.11
[2] OS CÂNONES DE DORT. Contra o Arminianismo. São Paulo: Ed.Cultura Cristã, 1996, p.34.
[3] LUTERO. Fragmentos. In: Nascido escravo. Trad.Born Slaves. São José dos Campos: Fiel, 1988, p.41
[4] Ibid., p.108, 109

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A QUESTÃO DA ETERNIDADE EM AGOSTINHO DE HIPONA – PARTE 8/11


A antropologia agostiniana em contraponto com os pelagianos

Agostinho discordava de Pelágio essencialmente quanto à sua Antropologia, de tal forma que as outras discórdias advêm dessa. Por causa do estilo dissimulado de Pelágio, que ora o fazia afirmar e logo depois negar o que afirmou, Agostinho apressou-se em pedir-lhe clareza em seus argumentos e o intimava a confessar abertamente que “essa graça tem o sentido bem claro nos oráculos divinos, e não oculte por timidez descarada, mas descubra com dor salutar que seus sentimentos têm sido muito tempo contrários a esses ensinamentos”[1].

Diferentemente de Pelágio, Agostinho entendia que a queda trouxe conseqüências extremante severas para o primeiro homem; e não somente para ele mas também para toda sua descendência. Ele não o via como um indivíduo isolado mas, essencialmente, como o representante legal de toda a raça humana. Para Agostinho com a queda, em certo sentido, veio também uma privação da liberdade, isto é, o homem que outrora não tendia nem para o bem nem para o mal, depois da queda, adquiriu certa tendência para o mal, passando a conviver com uma natureza pecaminosa que passa a seus herdeiros de forma hereditária, ou seja, essa natureza passa a habitar no homem, coisa que inicialmente não existia. A morte física vem também ao homem depois e só depois da queda e como conseqüência dela.

Agostinho afirma de forma bastante clara que o pecado corrompeu a natureza humana, criada por Deus, sem vicio nenhum, e não somente seu mérito, como pensava Pelágio. Este ponto de seu pensamento é essencial para entendermos sua Antropologia. Devemos ficar atentos para seu pensamento de que o homem foi criado com uma natureza boa, sem nenhuma propensão ao mal, ao pecado e que esta natureza foi, de fato, modificada, acrescentada, depois da queda com uma mórbida tendência à concupiscência, como afirma:

A natureza do homem foi criada no princípio sem culpa e sem vício. Mas a atual natureza, com a qual todos vêm ao mundo como descendentes de Adão, tem agora necessidade de médico devido a não gozar de saúde. O sumo Deus é o criador e autor de todos os bens que ele possui em sua constituição: vida, sentidos e inteligência. O vício, no entanto, que cobre de trevas e enfraquece os bens naturais, a ponto de necessitar de iluminação e de cura, não foi perpetrado pelo seu criador, ao qual não cabe culpa alguma. Sua fonte é o pecado original que foi cometido por livre vontade do homem. Por isso, a natureza sujeita ao castigo atrai com justiça a condenação[2].

Para Agostinho o homem recebe de Deus a justa punição pelo seu erro, pelo seu pecado. Isto demonstra seu entendimento da gravidade do problema. Para ele “toda a raça humana merece castigo. E se todos recebessem a punição, a punição não seria injusta”[3]. Continua.


[1] Ibid., p.241
[2] GRAÇA, 1999,  p.114
[3] Ibid.,p.115

A QUESTÃO DA ETERNIDADE EM AGOSTINHO DE HIPONA – PARTE 7/11


A controvérsia contra os Pelágio                                              

A antropologia pelagiana: centro da discussão

A outra controvérsia que leva Agostinho a trabalhar o conceito de eternidade, desta vez pelo prisma de sua Antropologia, é a controvérsia contra Pelágio e seus seguidores, por volta de 411 a 412, em Cartago. Monge Britânico, eunuco, natural da Irlanda, engajou-se em intenso conflito contra Agostinho, numa questão que envolvia basicamente o problema do livre-arbítrio humano.

Sproul, citando Harnack, demonstra a importância histórica desse debate, contando-o como um dos mais intensos e proveitosos:

A questão entre Pelágio e Agostinho era clara. Não estava ofuscada por argumentos teológicos intricados, especialmente no começo. “nunca houve, talvez, uma outra crise de igual importância na história da igreja na qual os oponentes tenham expressado os princípios em debate tão clara e abstratamente. Somente a disputa Ariana pode ser comparada a ela”[1].
                       
Para Pelágio, o homem continuava habilitado, mesmo depois da queda, a fazer o bem se assim desejasse e que não se fazia necessário uma assistência especial da graça de Deus para que o ser humano o obedecesse.

Ele acreditava que o homem estava habilitado para atender a todos os chamados de Deus e quando Ele o convoca a arrepender-se é porque o homem pode fazer isto, por ele só, sem que seja necessário o auxílio da Graça Divina; caso contrário, Deus não o haveria ordenado, pois não ordena nada que seja impossível. A idéia de livre-arbítrio é predominante no pensamento Pelagiano. Para ele, o homem pode alcançar tudo o que se requer dele, quer em assuntos que digam respeito à moral quer em assuntos pertinentes à religião e à sotereologia, por meio de seu próprio esforço. Esta habilidade do homem se estende, em Pelágio, inclusive, à escolha do seu eterno destino.

Para efeito didático, veremos resumidamente as premissas do Pensamento Pelagiano com o objetivo de contrastar, posteriormente, com o Pensamento Agostiniano sobre o destino dos homens e a continuação da vida de sua alma, de sua consciência; o que, conseqüentemente, nos conduzirá de volta à questão do tempo, fazendo um  contraponto entre duração e eternidade.

A primeira premissa é que Deus é bom e as outras decorrem basicamente desta. A segunda é que Deus sendo completamente bom, criou tudo igualmente bom, sendo boa toda sua criação; isto inclui o homem que tem a liberdade como bem supremo. Para Pelágio, a essência do livre-arbítrio do homem consiste em sua habilitação para escolher entre o bem e o mal, tendo recebido essa habilitação, como parte integrante de sua natureza, do próprio Deus. A terceira premissa aponta para a impossibilidade de mudança nessa natureza, livre e boa do homem, aconteça o que acontecer. Para ele, não há corrupção inerente no homem; muito menos alguma coisa o impele para o pecado ou para o mal; cada maldade que o homem pratica “flui de um novo começo, um bloco limpo de papel que não é inscrito a priori com alguma predileção”[2]. Sua quarta premissa ensina que a natureza humana, como tal, é inalteravelmente boa, isto é, o homem é essencialmente bom. A quinta premissa de seu pensamento indica que o mal ou pecado nunca pode transformar-se em natureza; para ele, o pecado é sempre um ato, nunca uma natureza. Essa mesma maldade, no homem, não pode ter sido herdada. Na sexta premissa Pelágio de certa forma retira a culpabilidade do homem. Segundo ele a maldade é fruto das armadilhas de satanás e da concupiscência sensual. Isto equivale dizer que a maldade não é interior ao homem mas age nele de forma extrínseca. A sétima premissa aponta para a possibilidade do homem, por ele mesmo, alcançar a perfeição. Pelágio não só acreditava ser isto possível como reconhecia também que alguns homens haviam conseguido tal façanha; isto posto, devido seu pensamento contrário à tese do pecado original ou ainda da hereditariedade da maldade. Na oitava premissa Pelágio ensina que o primeiro homem foi criado livre e possuidor de um livre arbítrio completo e que essa habilidade natural, por ser um dádiva e não adquirida por ele, não poderia ser mudada porquanto lhe foi atribuída e outorgada em sua criação. A nona premissa indica que o primeiro homem pecou por vontade própria, ou seja, não foi coagido por ninguém e nem mesmo pela sua própria natureza a errar, fez porque escolheu fazer, porque era livre para isto. Este pecado do primeiro homem não pode, segundo ele, ser a causa da morte dos seus descendentes pois, tanto ele como estes foram criados já com a mortalidade em sua natureza. De onde decorre a décima premissa que afirma categoricamente que a posteridade do primeiro homem não herdou nem a morte física nem a morte espiritual, simplesmente morre sua descendência porque, à semelhança do material genético inicial, também é mortal; e ainda, se morre uma morte espiritual, isto é, a separação definitiva de seu criador, é por culpa particular, não podendo ser atribuída culpabilidade ao tronco da espécie. Assim também afirma a décima primeira premissa. Pelágio considerava a doutrina do pecado transmitido “como uma doutrina blasfema arraigada no maniqueísmo. Pelagio insistia que seria injustiça de Deus transmitir ou imputar o pecado de um a outros”[3]. A décima segunda premissa afirma que todos os homens são criados por Deus na mesma condição de Adão antes da queda. Isto equivale dizer que o homem nasce natural e essencialmente bom. Em sua décima terceira premissa afirma que  o hábito de pecar enfraquece a vontade; mas isto, em hipótese alguma deve ser interpretado como uma mudança de natureza. A décima quarta premissa revela que Pelágio não rejeitava de todo a graça. Para ele, a graça facilita a bondade, o que não significa dizer que o homem só pode ser bom com o auxilio da graça, ao contrário, ele pode ser bom sem essa assistência, seguindo sua própria natureza boa. A décima quinta premissa afirma que a graça de Deus é dada no ato da criação, isto é, ela vem incorporada à sua natureza que é essencialmente boa e daí decorre que não pode haver mudança de essência. A décima sexta premissa aponta para a graça da instrução, que muito embora não possua nenhum valor de modificação no interior do homem ela produz uma clara definição da bondade. A décima sétima afirmação pelagiana afirma que a graça é dada não só por meio da lei mas também por meio de Cristo, cuja principal obra foi tão somente nos fornecer o exemplo da bondade. E, por fim, sua ultima argumentação ensina que a graça de Deus é compatível com sua justiça, ou seja, ela não fornece benefício adicional algum mas é dada mediante o mérito de cada um, isto é, uma graça que não é graça, uma graça merecida.

Como vimos as principais reivindicações pelagianas diziam respeito à sua Antropologia, ao seu conceito de homem, como afirma Sproul citando Schaff, fazendo  a seguinte observação acerca da Antropologia de Pelágio:

Pelágio, destituído da idéia do todo orgânico da raça ou da natureza humana, via Adão meramente como um indivíduo isolado; ele não deu a Adão nenhum lugar representativo, logo seus atos não acarretavam conseqüências além de si mesmo. Em sua visão, o pecado do primeiro homem consistiu de um único e isolado ato de desobediência ao comando divino [...]. Esse ato de transgressão único e desculpável não gerou conseqüências à alma e nem ao corpo de Adão, muito menos à sua posteridade, onde todos se mantém ou caem por si mesmos[1].

Apesar de sua antropologia diferenciada da habitual, Pelágio tentava manter-se ligado à Igreja e por vezes até fazia questão de ser considerado como um ortodoxo:

Orósio, um amigo e discípulo de Agostinho, solicitou uma sindicância contra Pelágio em 415, mas Pelágio foi exonerado. Em dezembro desse mesmo ano, um sínodo palestino denunciou alguns escritos de Pelágio. Quando o sínodo exigiu que ele renunciasse ao seu ensino de que o homem pode estar sem pecado sem a ajuda da graça, Pelágio capitulou. Ele disse, “eu os anatemizo como insensatos, não como heréticos, visto não ser caso de dogma”. Ele repudiou o ensino de Coelestius, dizendo: “Mas as coisas que declarei não serem minhas, eu, de acordo com a opinião da santa igreja reprovo, pronunciando um anátema a todo aquele que se opuser” [...] Como resultado Pelágio foi considerado ortodoxo. [...] Isso deixou Pelágio com a difícil tarefa de recuperar a sua credibilidade diante de seus próprios defensores [...] e Agostinho disse, “não  foi a heresia que foi absolvida lá, mas o homem que a negou”. Dois sínodos norte-africanos aconteceram em 416 e ambos condenaram o pelagianismo[2].

Fica claro no Pensamento Pelagiano uma visão positiva acerca do homem e isto influencia todo o restante da sua construção intelectual. Para ele a queda do homem não trouxe para si uma repentina destruição, muito menos ainda para sua descendência:

O homem pelagiano goza de perfeito equilíbrio moral.
O pecado não atinge sua natureza, mas seu mérito. Quando peca, torna-se culpável de sua má ação. Perdoado volta à sua perfeição. Não é prisioneiro de uma inclinação mórbida para o mal[3].




[1] SPROUL, 2001, p.35
[2] Ibid., p.40
[3] AGOSTINHO. A graça . São Paulo: Editora Paulus, 1999, p.105


[1] SPROUL, R.C. Sola Gratia.: a controversia sobre o livre arbítrio na história. São Paulo: Ed.Cultura Cristã, 2001, p.31
[2] SPROUL, 2001, p.33
[3] SPROUL, 2001, p.34

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A QUESTÃO DA ETERNIDADE EM AGOSTINHO DE HIPONA – PARTE 6/11


A segunda controvérsia contra os Maniqueus: O Problema do Mal. Cont.

Esta questão da origem do mal afligiu o coração de Agostinho e foi uma das razões que o fez enveredar pelo caminho maniqueu, pois acreditava ter encontrado nesta seita uma resposta que pudesse ao mesmo tempo explicar a origem do mal e isentar Deus de tal culpa. O prof.Drº Marcos Roberto Nunes Costa, em sua importante obra “O Problema do Mal na Polêmica Antimaniqueia de Santo Agostinho”, clarifica isso. Diz ele:


Os maniqueus, e agostinho, durante o tempo em que pertenceu a essa seita, estavam preocupados em  responder a uma simples pergunta: como é possível conciliar as maldades presentes no mundo – as injustiças, as desgraças, os ódios, as pestes, as calamidades, as misérias dos homens, os defeitos das sociedades e muitas outras com a bondade de Deus? Ou seja, Deus, O Bem, pode ser causa do mal? Ou devemos atribuir a outro ser tão poderoso quanto Ele a causa do mal? Tentando responder a tal dilema, os maniqueus vão construir uma doutrina que isenta Deus de toda responsabilidade pelos males existentes no universo e o homem pelas maldades praticadas individualmente[1].

O próprio Agostinho quando esteve como ouvinte entre os maniqueus concordava e de certa forma nutria a idéia da possibilidade do mal ter sido criado por outra divindade. Diz ele:

Certa religiosidade que possuía me obrigava a crer que um deus bom não podia ter criado uma natureza má [...], me parecia mais justo crer que não tivesses criado  mal nenhum, do que acreditar que a natureza do mal – como eu a imaginava – proviesse de ti[2].

Por fim, reconhece que “desse princípio peçonhento derivam todos os outras idéias errôneas”[3]. Afastado do Maniqueísmo ele agora entende o erro deles com relação à criação de todas as coisas, como afirma:

Com  atenção procurei saber se por sete ou oito vezes viste que as tuas obras eram boas, quando te agradaram. Mas não encontrei uma seqüência de tempo, enquanto contemplavas, pela qual pudesse deduzir quantas vezes contemplaste tuas criaturas. E eu disse: “Senhor, por acaso não será verdadeira a tua Escritura, ditada que foi por ti, que és verdadeiro ou melhor, que és a própria verdade? E porque então me dizes que a visão dos seres criados não está sujeita ao tempo, quando a tua Escritura me afirma que dia por dia estavas vendo que as tuas obras eram boas, e que eu, contando, encontrei o número de vezes que as contemplastes? A esta minha pergunta, respondes que tu és o meu Deus e dizes, falando com voz poderosa ao ouvido interior do teu servo, respondendo-lhe a surdez e clamando: “Homem, o que a minha Escritura diz, eu o digo. Mas ela o diz no tempo, e este não atinge o meu verbo, que subsiste comigo numa eternidade igual à minha. Assim o que vedes através do meu espírito, sou eu que vejo; o que dizeis pelo meu espírito, sou eu que digo. Mas, o que vedes no tempo, eu não vejo no tempo; assim também o que dizeis no tempo, eu não o digo no tempo[4].            

E ainda,

Escutei, Senhor meu Deus, e consegui recolher uma doce gota da tua verdade. Compreendi que a alguns desagradam as tuas obras. Sustentam que muitas delas criaste impelido pela necessidade; assim por exemplo, a estrutura dos céus e o sistema dos astros. Dizem que essas não foram criadas por ti, mas que já existiam, provindas de outra fonte. Tu as terias apenas reunido, compondo-as e coordenando-as, quando edificaste as muralhas do mundo, depois de teres vencido os teus inimigos, para que cativos, nessa construção, não pudessem de novo rebelar-se contra ti. Quanto aos outros seres, não os terias criado nem ao menos ordenado; assim por exemplo os corpos carnais, os animais menores e tudo o que se radica na terra; teria sido um espírito hostil e uma natureza não criada por ti e oposta à tua; quem teria gerado e formado tais seres nas regiões inferiores do universo. São loucos os que assim falam porque não vêem as tuas obras através do teu espírito; nem nelas te reconhecem[5].
            
Em relação à origem do mal, Agostinho tentou convencer os maniqueus que a existência de qualquer coisa que seja, no céu, no mar, no ar ou na terra, é criação de Deus; no caso do mal, por ser criatura, foi Deus também que criou, contudo, não podendo ser responsabilizado moralmente por sua utilização.

A clareza em relação à criação de tudo e de todas as coisas inundou a mente de Agostinho fazendo-o corrigir seu antigo erro e ao mesmo tempo entender que tudo é perfeito e todas as coisas existem para determinados fins, como partes integrantes de um grande projeto.

Agostinho chega a esta conclusão já no final de suas “Confissões”, como reconhece:

“No Espírito Santo nós vemos que é bom tudo o que de algum modo existe, porque precede, não de quem existe em certo grau, mas daquele que é por essência”[6].

Assim sendo, Agostinho mais uma vez reafirma a eternidade e o poder criacional de Deus.

Evidentemente que esse tema – a origem do mal – precisa de um trabalho especificamente sobre ele. Há muitas outras questões a serem abordadas, como por exemplo, o tratamento que Agostinho dá a essa questão na sua obra “Livre Arbítrio”, onde parece intentar uma “defesa” de Deus, em relação a suposta criação do mal. Sobre essa obra, vale salientar que foi revisitada e repaginada por Agostinho, no que diz respeito a muitos assuntos ali abordados, inclusive o “Livre-Arbítrio”, mudando radicalmente sua posição inicial, como pode ser visto em sua última obra “A Graça”. Outro tema a ser pensado dentro desse assunto é a influência de Plotino na formulação do conceito de mal de Agostinho. Sendo ele – Plotino – um neoplatônico, entendia o mal como sendo o distanciamento ou a ausência do Sumo Bem e não um ente. Todas essas são facetas desse difícil tema – O problema do mal – que precisam ser aprofundadas. Aqui, porém, não é nosso objetivo principal, visto que o que nos interessa é a questão da eternidade.



[1] COSTA, Marcos Roberto Nunes. O problema do mal na polêmica antimaniquéia. Porto Alegre: Edipuc, 2002, p.58,59.
[2] Conf., V.10,20
[3] Ibid.,V.10,20
[4] Ibid., XIII, 29,44
[5] Conf., XIII, 30, 45
[6] Ibid., XIII, 31,46

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A QUESTÃO DA ETERNIDADE EM AGOSTINHO DE HIPONA – PARTE 5/11


A segunda controvérsia contra os Maniqueus: O Problema do Mal .


A primeira controvérsia nos conduz, necessariamente, a outra controvérsia entre  Agostinho e os mesmos maniqueus: a questão da origem do mal, que abordaremos apenas rapidamente.

Sendo Deus criador de todas as coisas teria ele também criado o mal? Apesar de ser este um grave problema, considerado como um dos mais profundos, tanto para a Teologia quanto para a Filosofia, não nos deteremos demoradamente nele, pois nossa intenção é demonstrar a eternidade em Agostinho, como já o fizemos  na controvérsia sobre a eternidade de Deus, e o faremos ainda quando tratarmos da controvérsia contra os pelagianos, sempre objetivando a eternidade. Contudo, vale salientar que:

Este mal era explicado de várias maneiras. Kant o considerava como uma coisa pertencente à esfera super-racional, que ele confessa não ter condições de explicar. Para Leibnitz, devia-se às necessárias limitações do universo. Scheiermacher via sua origem na natureza sentimental do homem e Ritsche na ignorância do homem, ao passo que os evolucionistas o atribui à oposição das propensões inferiores à consciência moral em seu desenvolvimento gradativo [...]. De algum modo, o mal do homem está ligado à sua condição de criatura[1].

A “confissão de Westminster”, um importante documento Agostiniano, em certo sentido, via calvinismo, afirma o seguinte sobre a origem de todas as coisas, em seu capítulo III, que trata sobre os eternos decretos de Deus:

Desde toda eternidade, e pelo sapientíssimo e santíssimo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e imutavelmente tudo quanto acontece. Embora Deus saiba tudo quanto há de suceder em todas as circunstâncias imagináveis, contudo não decretou coisa alguma por havê-la previsto como futuras, nem como algo que haveria de acontecer em tais circunstâncias[2].

Assim como Agostinho, e não poderia deixar de ser, devido sua clara influência nas mentes de calvinistas e luteranos, os formuladores dessa Confissão, de fato, criam que as coisas existentes, não eternas, todas elas, sem exceção, foram criadas por Deus; não simplesmente porque previu seu surgimento, antes, por decreto as criou, independentemente, repetimos, de juízos de valores, é criatura? Conseqüentemente e necessariamente, foi Deus quem criou.

No capítulo VI deste mesmo documento agostiniano/calvinista, vemos uma afirmação ainda mais contundente e surpreendente sobre a criação de Deus, e, desta feita, não de uma criação geral, mas da criação do próprio mal ou antes, na ordenação de sua disposição: 

“Nossos primeiros pais [...] pecaram [...]. Segundo seu sábio e santo conselho, aprouve a Deus permitir o pecado deles, havendo proposto ordená-lo para sua própria glória”[3].

Berkhof, interpretando os eternos decretos de Deus, apontados acima, sendo também um pensador de linha calvinista, e, conseqüentemente, muito próximo do pensamento agostiniano, faz a seguinte afirmação: “O decreto eterno de Deus evidentemente deu a certeza da entrada do mal no mundo, mas não se pode interpretar isso de modo que faça Deus a causa do mal no sentido de ser ele o seu autor responsável”[4]. Continua...


[1] BERKHOF, 1998, p.221
[2] WESTMINSTER, confissão. São Paulo: Ed.Cultura Cristã, 1996, p.5
[3] WESTMINSTER, 1996, p.7
[4] BERKHOF, 1998, p.221

Divulgue meu Blog no seu Blog