sexta-feira, 28 de outubro de 2016

QUEREM DINIMUIR AINDA MAIS O TRABALHO DOS PASTORES

Tenho postado e chamado a atenção dos pastores, no bom sentido e de forma geral, não pensando, obviamente, em nenhum especificamente, de que eles precisam TRABALHAR MAIS e se DEDICAR MAIS  às igrejas locais, onde pastoreiam. 

Em 2011 publiquei a polêmica postagem "Fórmula pra saber se seu pastor ganha bem", que pode ser lida clicando no link: http://filosofiacalvinista.blogspot.com.br/2011/07/formula-pra-saber-se-seu-pastor-ganha.html.

Quando trato desse assunto meu objetivo é um só: que a igreja local seja mais beneficiada com o importante trabalho do seu pastor.

Na contramão da maioria dos membros das igrejas locais, que entendem, percebem e precisam que seus pastores se DEDIQUEM MAIS ao seu ministério local, recentemente tive o desprazer de ler um texto no facebook, cuja a tônica era "15 motivos pelos quais seu pastor não deve visitar muito". Pior: esse texto foi compartilhado e até ovacionado por muitos pastores. Imagino que muitos devem ter marcado os membros de suas igrejas, para que pudessem ler o infame texto. Lamentável!

O infeliz texto, em nossa opinião, traduzido para o português, é de autoria de Tom Rainer.  Alguém conhece? Vou transcrever cada um dos 15 motivos pelos quais o pastor não deve visitar muito e tentar comentar um a um (os comentários estarão em vermelho). Segundo o autor, PASTOR VISITAR MUITO:

1- Não é bíblico. Efésios 4.12 diz que pastores devem treinar os santos ou crentes para fazerem a obra do ministério. Isso significa que os pastores não devem fazer toda a obra. Usar esse texto de Efésios para defender tal ideia chega a ser desonesto. Por esta mesma forma tacanha de interpretação cabe até dizer também: "pastores não devem pregar muito; devem treinar os santos ou crentes para fazerem a obre do ministério".

  2- Priva os membros de seus papéis e oportunidades. A segunda parte de Efésios 4.12 claramente nos informa que o ministério é para toda a igreja. Quando o pastor faz tudo ou a maior parte do ministério, os membros são privados de uma oportunidade dada por Deus. Que ministérios? Da muita visitação? Tá de brincadeira?

    3-  Fomenta uma mentalidade de clube de campo. “Nós pagamos o salário do pastor. Ele trabalha para nós, para fazer a obra e nos servir”. Dízimos e ofertas tornam-se mensalidades de clube de  campo a serem usufruídas. Repito: pela mesmíssima argumentação furada se poderia dizer o mesmo em relação à pregação, por exemplo. Pastores: não caiam nessa; isso vai ser um tiro no pé. Daqui a pouco os senhores não farão mais nada e a igreja vai acabar percebendo.

4-  Desvia uma igreja interiormente. Os membros ficam perguntando o que o pastor está fazendo por eles, em vez de perguntarem-se como eles podem servir outros através da igreja. Ou seja, pague a côngrua pastoral em dias, 13º, férias, etc, mas não cobre nunca dele dedicação e cuidado com o rebanho.

5-  Diminui a preparação do sermão. Esses mesmos membros que se queixam que o pastor não dedicou tempo suficiente no sermão são os mesmos que esperam que o ele os visite. Esse ponto chega a ser patético. Até parece que quando o pastor não está visitando está “preparando o sermão”. E o tempo que ele gasta: a) levando o filho na escola, b) malhando na academia, b) almoçando com outros amigos pastores, c) jogando futebol, d) indo ver o jogo do seu time, e) viajando, f) cuidando de outra atividade profissional, g) fazendo Faculdade ou outro curso qualquer para crescimento pessoal e etc, não conta? Detalhe: a maioria dos pastores são de “tempo integral”. Pra quem?

6-  Tira o foco externo do pastor. Se os pastores passam todo ou maior parte do seu tempo visitando, como se pode esperar que eles entrem na comunidade e compartilhem o evangelho? Ai, aí, releia a parte em vermelho do ponto 5.

7-  Subtrai a liderança essencial do pastor. Como podemos esperar que os pastores liderem se não lhes damos tempo para tal, uma vez que estão ocupados com a visitação de membros? Tá bom! Quando não está visitando ele está liderando? Ok!

8-  Fomenta comparações perniciosas entre os membros. “O pastor visitou os Silvas duas vezes este mês, mas me visitou apenas uma”. O que dirão aqueles (a grande maioria) que nunca receberam uma visita do pastor?

9-  Nunca é o suficiente. Quando as igrejas esperam que seus pastores façam a maior parte das visitas, elas possuem uma mentalidade de concessão de direitos. Tal mentalidade nunca pode ser satisfeita. Vamos mandar todos os membros aos seminários para saberem o que vão dizer nas visitas. As pessoas querem e precisam uma visita de alguém preparado para lhe dar com seus conflitos: o pastor;

10-     Conduz ao esgotamento pastoral. Aos pastores, é impossível manter o ritmo que se espera de todos os membros cumulativamente, especialmente na área da visitação. Pois é! Academia, envolvimento com outras atividades profissionais e/ou acadêmicas para fins de crescimento pessoal, familiares, etc, não né?

11-    Conduz a uma alta rotatividade pastoral. O esgotamento conduz à rotatividade pastoral. Ministérios de curta duração não fazem bem às igrejas. Reler a parte em vermelho do ponto 10.

12-     Restringe o crescimento da Grande Comissão da igreja. Um dos grandes obstáculos para o crescimento de igrejas é a expectativa de que uma pessoa faça a maior parte do ministério, especialmente a visitação. Esse tipo de dependência resulta numa restrição ao crescimento. Sério? A grande comissão era pra os membros das igrejas visitarem-se uns aos outro? Sabia não!

13-     Leva os pastores a obterem seus reconhecimentos da fonte errada. Eles se tornam agradadores de pessoas, em vez de agradadores de Deus. Confesso que esse eu não entendi. Devo tá pensando errado. Acho que o autor não escreveria uma besteira tão grande!

14-      Faz com que membros de igrejas bíblicas deixem-nas. Muitos dos melhores membros de igrejas as deixarão porque sabem que a igreja não foi feita para funcionar dessa maneira. A igreja, assim, fica mais fraca. Tá apelando?

15-    É um sinal de que a igreja está morrendo. Os dois comentários mais comuns de uma igreja que está morrendo são: “Nunca fizemos isso desse jeito antes”, e “Por que o pastor não me visitou?”. Se o pastor visitar muitos membros é sinal que a igreja está morrendo? Tô preocupado para que os pastores não morram de estafa. 

É mais que evidente que ninguém normal quer que o pastor passe todos os dias e todas as horas disponíveis em visitação. Só alguém muito retardado pra pensar que se pensa assim. Você pode dizer também que a presente análise não é séria e está cheia de "gracejos". Bem, é possível. Peço desculpas: é que esse tipo de assunto irrita de forma particular.

O Pastor Thabiti Anyabwile, em seu livro "Encontrando Presbíteros e Diáconos fiés", publicado pela editora Fiel, faz uma afirmação bem interessante e que nos leva a refletir sobre o trabalho que o pastor deve executar em sua igreja local. Diz ele:

    Um pastor vigia sua vida quanto ao descanso e a recreação necessários. Deve haver descanso adequado e recreação apropriada na agenda de um pastor. Para estar certo de que tem o descanso devido, o pastor deve receber com agrado comentários sobre sua agenda de atividades e de seus hábitos de trabalho" (ANYABWILE, 2015, p.214).

Mas, será mesmo que a maioria de nossos pastores ouviriam, sobre sua agenda de trabalho: "o senhor precisa descansar, está trabalhando muito, estudando muito, visitando muito"?

Abordando especificamente sobre a questão da visita, o Pastor Franklin Ferreira, sobre o ministério do Puritano Richard Baxter, autor de “O pastor Aprovado”, afirma:  

Sua prática consistia em visitar sistematicamente as famílias, com o propósito de tratar espiritualmente com cada uma delas. Baxter visitava sete ou oito famílias por dia, duas vezes por semana, a fim de visitar todas as oitocentas famílias de sua congregação a cada ano. “Primeiramente eu as ouvia recitar as palavras do catecismo ele usava o Breve Catecismo de Westminster,18 e então examinava as respostas quanto ao seu sentido, e, finalmente, exortava as famílias, com toda a capacidade de raciocínio e veemência, a fim de que tais estudos resultassem em sentimento e prática. Eu passava cerca de uma hora com cada família”.Conforme: http://www.monergismo.com/textos/pastores/servo_baxter.pdf

Joseph A. Pipa Jr, em brilhante artigo sobre “A tarefa esquecida da visita pastoral”, afirma:
 
Minha primeira visita pastoral foi a primeira que fiz quando era um jovem pastor. Naquele tempo, eu já estava na igreja há onze anos. Meu caso não era único na época e nem o é hoje. Estou certo de que muitos de vocês irão se identificar com a minha experiência. De fato, muitos leitores não reconhecerão que estavam sendo privados de algo que era uma parte essencial da experiência da igreja. Em nossos dias, o trabalho pastoral é absurdamente negligenciado. Muitos pretensos pastores enchem suas vidas de assuntos administrativos ou acadêmicos de forma que eles possuem pouco tempo para as pessoas do rebanho. Outros têm igrejas tão grandes que  não conseguem sequer começar a pastorar os membros de suas congregações.  Cada vez mais, esses homens abordam a supervisão congregacional como se fossem o Chefe do Poder Executivo. Mas, mesmo em nossas pequenas igrejas reformadas, o ministro frequentemente negligencia o importante trabalho de pastorear.  Muitos membros de igreja somente recebem visita quando estão doentes (e olhe lá). Não podemos saber a condição de nosso rebanho ou ministrar efetivamente a ele sem fazer cuidadosamente o trabalho de visitação às famílias. Além disso, esse trabalho é necessário para a cimentação da verdade e de seus resultados na vida das pessoas.

Ele ainda afirma:

Historicamente, a visitação pastoral era parte do trabalho esperado de um pastor reformado. Nossos pais na fé levaram essa parte do trabalho ministerial muito a sério. Calvino, os Puritanos, os Ministros Escoceses e os Presbiterianos e Batistas Americanos era comprometidos com o trabalho da visitação pastoral. A respeito dos puritanos, Parcker escreveu: Baxter separava dois dias por semana, terças e quartas, para realizar esse trabalho. Cópias do Breve Catecismo de Westminster foram distribuídas para todas as famílias da paróquia (cerca de 800). A reunião do conselho acontecia uma semana antes de famílias a serem visitadas serem contatadas já  com o tempo e o lugar das visita. Dessa forma, Baxter visitava por volta de 15 famílias por semana.

Pipa finaliza:

Uma palavra aos ministros. Nós ouvimos muito, e ainda bem que sim, sobre igrejas comprometidas com os meios de graça. Pois eu digo que se em seu ministério não há espaço para uma sistemática visitação pastoral, então você está negligenciando um importante meio de graça.  Eu desafio você a repensar sua filosofia ministerial. Se você não tem feito regulares visitas pastorais, eu encorajo você a se arrepender e a buscar pela graça de Deus para começar imediatamente. Conforme: http://reforma21.org/artigos/a-tarefa-esquecida-da-visita-pastoral.html

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A CONTRIBUIÇÃO DO CALVINISMO NA CRIAÇÃO DE UM AMBIENTE FAVORÁVEL À ÉTICA E À MORAL, A PARTIR DA ATITUDE INDIVIDUAL - Parte 3/3


Essa nova atitude traz profundas implicações éticas e morais, criando no “eleito”, naturalmente, uma espécie de doutrina da “prova” de sua eleição, isto é, o eleito deveria viver de tal forma que sua pregação fosse completamente ajustada e alinhada à sua práxis, bem como deveria fazer girar todos os seus outros objetivos em órbita daquele que é a razão da sua própria vida nova: a glória de Deus; eliminando também, com isso, por completo, qualquer possibilidade alienante de “salvação por obras ou por sacramentos mágicos”.

Além disso, a antiga dicotomia romana entre Sagrado e Profano cai por terra. Para Calvino e seus seguidores não apenas as atividades relacionadas à religião e a fé deveriam glorificar a Deus, antes, pelo contrário, absolutamente tudo, inclusive atividades consideradas “seculares”, como a comercial, por exemplo, deveriam ser direcionadas aos céus, sob pena de não serem realizadas, não havendo nem mesmo um só instante que ficasse de fora, todos eles deveriam trazer em si a preocupação de glorificar a Deus.

Weber parece ter percebido isso com muita clareza quando afirma:  “O Deus de Calvino exigia de seus crentes não boas ações isoladas, mas uma vida de boas ações combinadas em um sistema unificado” (WEBER, 2002. p.91).

Como já vimos o Calvinismo não é apenas uma questão de fé nem tão pouco um complicado conglomerado metafísico que não reflete nas atitudes do cotidiano das pessoas, antes, pelo contrário, o Calvinismo invade todas as áreas do ser, inclusive a que o catolicismo considera “secular”, como observa Weber:
 
O efeito da Reforma foi o de aumentar em si mesmo, se comparado à atitude católica, e aumentar de forma poderosamente a ênfase moral e a sanção religiosa em relação ao trabalho secular organizado no âmbito da vocação” (WEBER, 2002. p.128).

É uma verdadeira avalanche mista de conhecimento profundo e prática anexada: “O teólogo norte-americano BB.Warfied descreve o Calvinismo como sendo a visão da majestade de Deus que permeia a vida e a experiência como um todo” (MARTINS, 2001, p.9).

Seguindo a orientação Paulina, os Calvinistas procuram “fazer todas as coisas como se estivessem fazendo para Deus” (RM 14:23, FP 2:3-15).

Weber confirma isso ao afirmar que: “No curso de seu desenvolvimento, o calvinismo acrescentou algo de positivo a isso tudo, ou seja, a ideia de comprovar a fé do indivíduo pelas atitudes seculares” (WEBER, 2002. p.120).

Finalmente, concluímos com as palavras sintetizadoras de Bieller:

Este dogma da predestinação engendrou o individualismo [...], este dogma teve principal efeito engendrar, entre aqueles que aceitavam as suas grandiosas consequências, indefectível sentimento de comunhão individual com Deus, comunhão que nada no mundo poderia alterar [...]. É esta inabalável e exclusiva confiança na só decisão de Deus sobre a sorte de cada um que e causa do tão acusado individualismo que caracteriza todas as populações influenciadas pelo Puritanismo [...]; eis aí um dos caracteres que o calvinismo comunicará a toda organização social que criará e que, ainda hoje, permanece vivo, na condição de um sentimento profano, nas populações protestantes secularizadas [...]. Este individualismo imprime igualmente sua marca na concepção peculiar do Calvinismo do amor ao próximo. Não é o próximo considerado em si mesmo, que é gerador deste amor; é-o a ordem e o mandamento de Deus que quer que todo o universo se conforme a Seu propósito, para Sua só glória. É assim que o exercício de um trabalho e de uma profissão é uma atividade divina ordenada para o serviço do próximo [...]. O autêntico serviço do próximo é a busca da glória de Deus e não da glória da criatura. Tudo quanto o homem empreende, para seu Deus ou para seu próximo tem, pois, certo caráter utilitário: deve ser útil à glória de Deus. E é este fim último comum a todos os atos e a todas as atividades da vida que dá à existência inteira, segundo a moral calvinista, um caráter ascético[1] (BIÉLER, 1999. p.630,631).


REFERÊNCIAS

BIÉLER. André. O Pensamento Econômico e Social de Calvino. São Paulo: CEP, 1990. p

LEITE. Cardoso. Cosmovisão Cristã e Transformação: espiritualidade, razão e ordem social. Ultimato: Viçosa-MG, 2006. pg.57

LEMBO. Cláudio. O Pensamento de João Calvino. São Paulo: Makenzie, 2000. 117.p

MARTINS. A.N. As inplicações Práticas do Calvinismo. São Paulo: Ed.Os Puritanos, 2001. p

NICODEMUS. Augustos. FIDES REFORMATA. V.1, n.1. São Paulo: Editora Makenzie, 1996, p.

PACKER.J.I. Entre os Gigantes de Deus. São Paulo: Ed.Os Puritanos. 1991. p

PORTELA. Solano. FIDES REFORMATA. V.1, n.1. São Paulo: Editora Makenzie, 1996, p.

RYKEN.Leland.Santos no Mundo. São José dos Campos-SP: Editora Fiel. 2013.p

WEBER.Max. Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2002.224 p.

WESTMINSTER. Confissão de Fé de Westminster. Rio de Janeiro: Cultura Cristã, 1999. p.

WESTMINSTER. Catecismo Maior. Rio de Janeiro: Cultura Cristã, 1999. p.



[1] O ascetismo ou asceticismo é uma filosofia de vida na qual são refreados os prazeres mundanos, onde se propõem a austeridade. Aquelas que praticam um estilo de vida austero definem suas práticas como virtuosa e perseguem o objetivo de adquirir uma grande espiritualidade.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A CONTRIBUIÇÃO DO CALVINISMO NA CRIAÇÃO DE UM AMBIENTE FAVORÁVEL À ÉTICA E À MORAL, A PARTIR DA ATITUDE INDIVIDUAL - Parte 2/3


Já no século XIX, os Calvinistas ingleses, conhecidos como Puritanos[1], que também influenciaram positivamente a política e a economia, continuavam com essa forma característica de vida, de busca pela retidão moral e ética, que não se permitia conviver com uma consciência conivente com a corrupção. Parker, em sua importante obra sobre os Puritanos, intitulada “Entre os Gigantes de Deus”, afirma:

Todos os teólogos Puritanos, desde Perkins, concordavam em conceber a consciência como uma faculdade racional, um poder de autoconhecimento e juízo moral, que trata com questões de certo e errado, de dever e privilégio, lidando com essas coisas autoritativamente, como a voz de Deus (PARKER, 1996, p.117).
                  
E ainda:

A atenção que os puritanos davam à boa consciência emprestava grande força ética ao seu ensino [...], os puritanos foram os maiores pregadores da retidão pessoal (PACKER, 1999. p.11).

Sobre os Puritanos e sua consciência cativa à ética e à moral, por força de sua devoção a Deus, Ryken, em sua reconhecida obra “Santos no mundo”, afirma: “As recompensas do trabalho, de acordo com a teoria puritana, eram morais e espirituais, isto é, o trabalho glorificava a Deus e beneficiava a sociedade” (RYKEN, 2013, p.70).

Apesar dos necessários exemplos de como Calvino e os Calvinistas Puritanos se relacionam com a questão da equidade, da justiça, da moral e da ética, nossa intenção, neste ensaio, é tentar identificar o que há no Calvinismo que cria esse ambiente favorável ao proceder ético e moral.

A produção dessa ética particular, entendida aqui como Modus vivendi, apresentada por Calvino e seus seguidores, é atribuída, principalmente, aos efeitos psicológicos causados pela doutrina da eleição ou da predestinação[2].

A crença nessa sistematização doutrinária calvinista leva o “eleito” a um imenso sentimento de gratidão a Deus, uma vez que, mesmo sem merecer, recebe esta graça extraordinária.
        
Dessa forma, coube aos puritanos, que se consideravam eleitos, viver a santificação da vida cotidiana. Pois o caráter sectário – a consciência de ser minoria e a motivação de ser eleito de Deus – fazia de cada membro dessas comunidades não mero adepto do rebanho mas, mas um vocacionado que se dedicava simultaneamente ao aprimoramento ético, intelectual e profissional (WEBER, 2002. p.21).
                  
Como consequência e em gratidão, o “eleito” passa a viver e a dedicar todos os seus momentos, inclusive atividades seculares, para a “glória de Deus”.

Weber considera a doutrina da eleição ou predestinação como ponto central na produção dessa ética Calvinista:

Consideramos apenas o Calvinismo e adotamos a doutrina da predestinação como arcabouço dogmático da moralidade puritana, no sentido de racionalização metódica da conduta ética (WEBER, 2002, p.91).

Para os Calvinistas, o conhecimento e aceitação dessa verdade escriturística compreende, necessariamente, uma mudança nas próprias práticas, isto é, o conhecimento não pode ser apenas intelectual, antes, precisa descer ao coração e traduzir-se em ações: “O propósito da verdade de Deus colocada nas mentes do seu povo é que, ao compreendê-las, eles venham a conhecer o seu efeito na sua experiência pessoal” (MARTINS, 2001. p.9).

Um importante Catecismo calvinista dá o tom dos objetivos dessa nova vida outorgada pela graça, já na pergunta inicial: “Qual é o Fim supremo e principal do homem? O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus” (CATECISMO MAIOR, 2007. p.31).
                  
Martins, sobre isso faz uma pertinente colocação:

Quando Deus torna uma pessoa Calvinista [...] esse encontro traz um conhecimento íntimo da voz de Deus, uma total resignação à vontade e aos caminhos de Deus (MARTINS, 2001. p.19).


[1] Movimento religioso protestante dos séculos 16 e 17 que buscou “purificar” a Igreja da Inglaterra em linhas mais reformadas. O movimento foi calvinista quanto à teologia e presbiteriano ou congregacional quanto ao governo eclesiástico. Conforme: http://www.mackenzie.br/7058.html, acessado em 31/08/2016.
[2] Aspecto da pré-ordenação de Deus, através do qual a salvação do crente é considerada efetuada de acordo com a vontade de Deus, que o chamou e o elegeu em Cristo, para a vida eterna, sendo a sua aceitação voluntária, da pessoa e do sacrifício de Cristo, uma consequência desta eleição e do trabalho do Espírito Santo, que efetiva esta eleição, tocando em seu coração e abrindo-lhe os olhos para as coisas espirituais. Conforme: http://www.monergismo.com/textos/predestinacao/predestinacao_isaias.htm, Acessado em 28/08/2016.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A CONTRIBUIÇÃO DO CALVINISMO NA CRIAÇÃO DE UM AMBIENTE FAVORÁVEL À ÉTICA E À MORAL, A PARTIR DA ATITUDE INDIVIDUAL - Parte 1/3


O Calvinismo não é apenas uma sistematização teológica a partir de preceitos das Escrituras Sagradas. Ele é, antes, um Sistema, uma Cosmovisão de Mundo, capaz de refletir sobre as mais graves e profundas inquietações do homem, oferecendo-lhes respostas. Tendo a bíblia como a fonte fundamentadora de sua Cosmovisão, seu olhar sobre o homem, sobre Deus e sobre o mundo tem contribuído para promover grandes avanços na área social, na área econômica, na área política e em muitas outras áreas.

O Calvinismo realmente nos prevê uma unidade de sistema de vida [...]. Devemos perguntar quais são as condições requeridas para sistemas gerais de vida, tais como o Paganismo, o Islamismo, o Romanismo e o Modernismo, e então mostrar que o Calvinismo realmente preenche essas condições [...]. Portanto, como fenômeno central no desenvolvimento da humanidade, o Calvinismo não está apenas habilitado a uma posição de honra ao lado das formas paganista, islâmica e romanista, visto que como estes ele representa um princípio peculiar dominando o todo da vida, mas também satisfaz cada condição requerida para o avanço do desenvolvimento humano a um estágio superior. E isto permaneceria ainda uma simples possibilidade sem qualquer realidade correspondente, se a história não testificasse que o Calvinismo tem realmente induzido o rio da vida humana a fluir em outro canal e tem enobrecido a vida social das nações (KUYPER, 2002. p.28,47).

Lembo, escrevendo sobre isto ainda observa:

O Calvinismo não é somente um sistema teológico completo [....], mas também é uma completa biocosmovisão que determina para o calvinista o ponto de partida para toda a sua reflexão e sua vida prática; que determina enfim diretrizes pressuposicionais de qualquer área da vida e do pensamento (LEMBO, 2000. p.120).

Além disso, o calvinismo é capaz de promover, naqueles que abraçam essa Cosmovisão de mundo, um rigoroso sentido de busca pela Ética, pela Moral e pelas virtudes. Basta um olhar, ainda que não muito atento, para os países que, de alguma forma, foram influenciados pelo Calvinismo e logo ficará evidente que são países com um grau de justiça social e de desenvolvimento extremamente relevantes, como bem observa Weber:

Um simples olhar às estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição mista mostrará, com notável frequência, uma situação que muitas vezes provocou discussões na imprensa e literatura católicas.O fato de que os homens de negócios e donos do capital, assim como os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das modernas empresas é predominantemente protestante (WEBER, 2002. p.37)

Em tempos de colapsos, de relativismo das virtudes, da falta de Ética e da moral questionável, o Calvinismo tem surgido como sendo um antídoto interessante, já testado historicamente.

Esse ambiente favorável à Ética e à moral não é promovido apenas pelos chamados “calvinistas”. O próprio Calvino, no século XVI, pondo em prática a Cosmovisão de Mundo que tinha, influenciou grandemente, positivamente, e até com certa radicalidade moral, segundo alguns historiadores, a política, a economia e muitas outras áreas[1].

Calvino é um dos teólogos clássicos que mais escreveram sobre o governo civil e em suas ideias firma-se a tradição reformada sobre política. Sua atuação na cidade de Genebra não foi somente teológica e eclesiástica, mas [...] teve intensa atuação na estruturação da sociedade civil daquela cidade, participando igualmente da administração e dos detalhes operacionais do seu dia-a-dia (PORTELA, 1996, p.98).

Calvino, além de ter tido uma grande atuação na esfera Política e na Administração Civil, áreas das mais afetadas pela frouxidão Moral e Ética, também deu grande contribuição escrevendo sobre o tema. Em seu mais famoso trabalho  As Institutas da religião Cristã[2],  no Livro Quatro, capítulo 20, que tem por título “Do Governo Civil”, Calvino dedica 32 seções sobre o assunto.

Escrevendo sobre os governantes, Calvino deixa claro que é inconcebível que vivam de forma corrupta. Ele entendia a atuação do governo civil quase que como um ministério divino, conforme observa Portela, citando-o, no livro 4 capítulo 20:

Se eles cometem qualquer pecado isso não é apenas um mal realizado contra pessoas que estão sendo perversamente atormentadas por eles, mas representa, igualmente, um insulto contra o próprio Deus de quem profanam o sagrado tribunal. Por outro lado, possuem uma admirável fonte de conforto quando eles refletem que não estão meramente envolvidos em ocupações profanas [...], mas ocupam um ofício por demais sagrado, até porque são embaixadores de Deus (PORTELA, 2009, p.99).

E ainda, em seu tempo,

Genebra foi o primeiro lugar na Europa a ter leis especiais que proibiam [...]; sendo comerciante, cobrar além do preço permitido ou roubar no peso e também (e isso se estendia aos produtores) estocar mercadorias para fazê-las faltar no mercado e assim majorar o preço (NICODEMUS, 1998, p.131).

Calvino parece ter entendido como ninguém que:
                  
A compreensão do cristianismo como um sistema total de vida é fundamental para nosso engajamento nas questões de desenvolvimento, busca de equidade e justiça social em nosso tempo (LEITE, 2006. pg.57).

Biéler deixa isso muito claro ao citar as palavras de Calvino:

Os pobres aí estão como testemunhas do ministério de Jesus Cristo, destinados a serem reconhecidos como tais pelas pessoas de fé [...] e os ricos são ricos senão para exercer o ministério do rico, segundo Deus, que consiste em reconhecer que a parte suplementar que recebeu é precisamente destinada aos pobres (BIÉLER, 1990. p.643).

E ainda:

O homem é apenas o fiduciário dos bens que lhes foram entregues pela graça de Deus. Ele deve, como o servo da parábola, prestar contas até o último centavo do que lhe foi confiado, e seria no mínimo perigoso gastar qualquer deles apenas para seu prazer, em detrimento da glória de Deus. (BIÉLER, 1990. p.127).


[1] Embora não tenha ocupado nenhum cargo governamental, Calvino exerceu enorme influência sobre a comunidade, não somente no aspecto moral e eclesiástico, mas em outras áreas. Ele ajudou a tornar mais humanas as leis da cidade, contribuiu para a criação de um sistema educacional acessível a todos e incentivou a formação de importantes entidades assistenciais como um hospital para carentes e um fundo de assistência aos estrangeiros pobres. Conforme: http://www.mackenzie.br/7034.html, acessado em 31/08/2016.
[2] As Institutas: Calvino produziu ao todo oito edições do texto latino (1536-1559) e cinco traduções para o francês. A 1ª edição tinha apenas seis capítulos; a última totalizou oitenta. Equivale em tamanho ao Antigo Testamento mais os Evangelhos sinóticos e segue o padrão geral do Credo dos Apóstolos. Visava ser um guia para o estudo das Escrituras.Livro I:    O Conhecimento de Deus, o Criador: o duplo conhecimento de Deus, as Escrituras, a Trindade, a criação e a providência.Livro II:   O Conhecimento de Deus, o Redentor: a queda e a corrupção humana, a Lei, o Antigo e o Novo Testamento, Cristo o Mediador – sua pessoa (profeta, sacerdote, rei) e sua obra  (expiação).Livro III: A Maneira Como Recebemos a Graça de Cristo, Seus Benefícios Efeitos: fé e regeneração, arrependimento, vida cristã, justificação, predestinação, ressurreição final.Livro IV: Os Meios Externos Pelos Quais Deus nos Convida Para a Sociedade de Cristo: a igreja, os sacramentos, o governo civil. Conforme: http://www.mackenzie.br/15914.html, acessado em 02/09/2016.

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