sábado, 26 de março de 2016

INTRODUÇÃO À DOUTRINA DO SER DE DEUS - Parte 1/4


TEXTO BÁSICO: Mateus 16:13-17

INTRODUÇÃO:

Por que estudar sobre o SER de Deus?

Eu diria que nossa vida, nossa salvação depende, em última análise, do correto entendimento acerca do Ser de Deus; de quem Ele É. Um entendimento errado sobre quem é Deus reflete diretamente no relacionamento que eu terei com Ele.

Por exemplo, o testemunha de Jeová não acredita na Trindade; acredita que Jesus não é Deus. No máximo acreditam que ele seja um deus menor, inferior. E isso é muito grave. Perceba como um entendimento errado acerca do SER de Deus pode direcionar toda uma comunidade para um total distanciamento do Deus verdadeiro.

O que cremos sobre Deus determinará os nossos padrões de moralidade [...]. Tudo o que viermos a saber sobre Deus determinará tosos os outros relacionamentos nos vários campos da teologia (CAMPOS, 2002, p.13).

ELUCIDAÇÃO:

No texto que lemos vimos Jesus perguntando acerca da visão que as pessoas tinha sobre Ele mesmo. É interessante ver a diversidade de respostas apresentadas pelos discípulos. “Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas” (Mateus 16:14).

É claro que todas essas respostas estavam erradas. É claro também que essas respostas descreveriam, necessariamente,  o nível de relacionamento que essas pessoas teriam com Jesus. Ora, se ele é apenas um profeta, ainda que um grande profeta, mesmo assim,. Ele não mereceria adoração e, portanto, não seria adorado por essas pessoas que tinham essa definição acerca Dele.

Jesus então insiste e agora quer saber da boca dos seus próprios discípulos qual a visão que tinham acerca dele. E ele pergunta: E vós, quem dizeis que eu sou? (Mateus 16:15).

Interessantes essa insistência de Jesus. Talvez isso denote a importância de termos uma visão correta acerca de Deus, acerca do Ser de Deus;

Pedro, prontamente respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.
(Mateus 16:16).

Jesus, então, aprova a resposta de Pedro e ainda diz que ele só pode dar essa resposta devido a uma comunicação especial de Deus ao seu coração, que ele não poderia ter chegado a essa conclusão sozinho, apenas pelo seu esforço racional, mas que somente pela revelação de Deus:

“E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus”
(
Mateus 16:17).

É evidente que a resposta de Pedro, em contraste com a resposta das outras pessoas, atendia perfeitamente o objetivo pelo qual levou Jesus a essas indagações.

Porém, afirmar que Jesus é Deus ou ainda afirmar a existência de Deus não resolve todos os problemas e todas as dificuldades. A questão é: o que significa ser Deus, pra mim? Quem é Deus, pra mim? Quais são as prerrogativas que um SER precisa ter para ser Deus, pra mim?

Sim, você pode acreditar que existe um Deus e mesmo assim ter uma visão errada sobre Deus e isso te levará, necessariamente, a ter um relacionamento distorcido com esse Deus que você diz acreditar que existe.

Por exemplo: os deístas acreditam em Deus. Mais ainda: eles acreditam que Deus é soberano, criador, cheio de poder e Santo, Santo, Santo. Tá errado isso? Evidente que não. Qual o problema então? Eles acreditam Deus criou o mundo, suas leis naturais e, depois disso, se afastou e não intervém mais nem no mundo nem na história.


Pensar isso acerca de Deus, de quem Ele é e, portanto, acerca do SER de Deus, levará a pessoa a não mais ver a necessidade de orar a Deus, porque Deus não responderia mesmo sua oração, porque é um Deus distante, longe, apenas transcendente. 

INTRODUÇÃO À DOUTRINA DO SER DE DEUS - Parte 2/4


 TEMA: O Ser de Deus

 ARGUMENTAÇÃO:

1º) Em primeiro lugar, precisamos saber que uma das dificuldade para entender acerca do SER de Deus é que a bíblia não está muito preocupada em afirmar a existência de Deus, em provar a existência de Deus.
Se fosse essa a preocupação das Escrituras deveríamos ter um sofisticado sistema de provas sobre a existência de Deus. Mas, ao contrário, logo em Gêneses,  o que temos? “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gêneses 1:1).  Nada sobre quem Deus ou mesmo sobre o que é SER Deus.

Por conta disso, uma série de argumentos filosóficos precisam ser postos, sobre a existência de Deus. Quais sejam:

a)     Argumento cosmológico

Defende que tudo que existe, existe de forma causal, isto é, foi causado por algo ou alguém.

Aristóteles defendia também que “tudo que se move neste mundo tem que ser movido por algo que não seja ele próprio”. Ele entende também que existe um “motor que move todas as coisas”. Ele não chama esse motor de Deus, mas ele reconhece a necessidade da existência desse motor.

Já Tomás de Aquino vai dizer que esse motor de Aristóteles é precisamente Deus. Para ele: “Deus é a causa não causada que causou todas as causas” (Tomás de Aquino).

            b)    Argumento Teleológico (telos=propósito)

Defende que tudo tem um propósito e, assim sendo, também é necessário a existência de alguém que indique esse propósito e que seja autor do projeto que terá um propósito.

Por exemplo, um relógio não veio de uma explosão, de forma que tenha sido criado ao acaso e sem propósito. Alguém fez não somente o projeto desse objetivo, mas também pensou acerca do propósito da existência dele.

c)     Argumento antropológico (antros=homem)

Homem não é apenas um ser físico, tem senso moral, diferente de outros seres, intelecto, emoções e volição/vontade. Essa distinção que lhe é característica só pode ter sido fruto de uma comunicação de outro Ser que possui essas características.

d)    Argumento Ontológico – Anselmo 1033

Parte da afirmação que a crença em Deus é universal.  Todo homem  projeta a ideia de perfeição, de infinito. Ora, como um ser finito para conceber algo infinito? Descartes vai dizer que isso é a assinatura do Criador no homem.

2º) Em segundo lugar, precisamos entender a diferença entre Ontologia e Teontologia. Essa simples distinção falará sobre as propriedades do SER de Deus.

Ontologia significa “estudo do ser” e consiste em uma parte da filosofia que estuda a natureza do ser, a existência e a realidade. É o estudo daquilo que se “É” e não das qualificações que se possui.

Então, a ontologia pode ser utilizada também para o estudo do SER de Deus? Conceitualmente, não.

ONTOLOGIA é o Ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres.

Ou seja, a Ontologia estuda o que é inerente ao homem. Podemos pegar Adão como modelo, para efeito didático. Adão tem  senso moral, diferente de outros seres, intelecto, emoções e volição/vontade.  Isso é Adão, isso faz parte inerente do seu Ser. Adão é um homem e não um vegetal; Adão é um homem e não um cachorro; por conta dessas características. Mas não existe só Adão de homem, correto? Existem outros homens e pra que seja considerado homem é preciso ter essas mesmas características que foram identificadas em Adão, num ser em particular.

Adão e os homens possuem essência e qualidades em distinção. Já Deus é tanto essência quanto seus Atributos ou qualidades, não há distinção entre essência e qualidades.

Por isso não podemos usar a Ontologia para estudarmos o SER de Deus, visto que ele é ÚNICO e que não há ninguém como o Senhor. Ele possui algumas características inerentes somente a ele, que nenhum outro ser possui.

Sproul chega a afirmar corretamente que “apenas Deus “É” que apenas Deus tem SER, nós somos efêmeros, passageiros, uma espécie de subproduto daquele que “É”.

Por isso, o estudo acerca do SER de Deus é TEONTOLOGIA e não ONTOLOGIA.

INTRODUÇÃO À DOUTRINA DO SER DE DEUS - Parte 3/4


3º) Em terceiro lugar, depois dessas informações, veremos sobre algumas características peculiares acerca do SER de Deus:

a)    Singularidade:

Deus é único, sem par. Não há outro como Ele, além Dele. Existem muitos textos que comprovam essa singularidade. Vejamos alguns: Dt 6:4, 32:39, I Rs 8:60-61, I Cor 8:4,6 e Ef 4:5-6.

Se houvesse mais de um Deus, não haveria Deus de fato. O politeísmo nega o Absoluto, nega a Última Causa, nega a independência de Deus, nega a imutabilidade de Deus, nega a eternidade de Deus (CAMPOS, 2002, p.13).

b)    Imanência e Transcendência

A imanência e a transcendência de Deus, segundo  Millard Erickson, “não deveria se consideradas como atributos de Deus” (CAMPOS, 2002, p.14). De fato, são conceitos muito mais ligados ao que Deus é, portanto, ao ser SER, que às qualidades que possui.

O Teísmo tem uma visão correta acerca do SER de Deus; é assim que as Escrituras apresenta Deus. Um Deus que é, ao mesmo tempo IMANENTE (que se relaciona com a criação) e TRANSCENDENTE (que está acima da criação).

Isso parece um assunto distante de nós, mas está mais perto que imaginamos. Por exemplo, tem uma música que cantamos em nossas igrejas, cuja a letra está errada e para cantarmos precisamos fazer uma modificação teológica. A música diz “és Deus de perto e não de longe”. Ou seja, ensina que Deus se relaciona conosco e que não é um Deus que também está longe, transcendente. O problema é que a bíblia ensina tanto a imanência de Deus (o Deus que se relaciona com sua criação) quanto a transcendência de Deus (o Deus que é superior e que está acima de nós).

b1)  IMANÊNCIA
Como já deixamos claro, diz respeito ao relacionamento de Deus com o mundo criado, especialmente com o ser humano e sua história. Deus se envolve com a história humana. Vejamos alguns textos: Mt 1:23, Ex 3:7-8, Sl 104:27-30, Hb 4:15.


Perigos da Imanência:

 Além do Panteísmo, que é a identificação exacerbada da criatura com o criador, gerando fusão e confusão entre um e outro, outro grande perigo que deve ser evitado no que diz respeito a doutrina da Imanência é, segundo Herber Campos, a “identificação de Deus com Satanás”.
Citando Karl Barth, ele lembra de dois casos em que cristãos associaram momentos políticos com a obra de Deus cumprindo seus propósitos: o primeiro tem conexão com a política de guerra de Kaiser Wilhelm e o segundo quando alguns cristãos consideraram as políticas de Adolf Hitler e do Nazismo como uma atividade de Deus no mundo.
Interessante porque percebemos essa característica nas manifestações contra Dilma. Vários cristãos afirmando que estão agindo em conformidade com Deus e com seus princípios. Isso pode ser considerado uma distorção da doutrina da imanência de Deus.

b2)  TRANSCEDÊNCIA:

Essa doutrina está presente em todas as religiões teístas. É a doutrina que fala que Deus está assentado nas alturas, no seu trono, sendo um Deus separado da sua criação e independente dela. Vejamos alguns textos: Isaías 55:8-9, Apo 4:1-11.  

Perigos da Transcendência:

O principal erro a ser combatido para quem crê na doutrina da transcendência de Deus é o perigo do deísmo, que crê num Deus distante e sem qualquer relacionamento com o homem e com sua história, negando a doutrina da providência divina, trazendo como consequência o pensamento da não necessidade de orar a Deus. A principal figura que exemplifica o deísmo é um relógio, cujo seu criador o constrói e depois não tem mais nenhum compromisso ou relacionamento com ele.

b3)   IMANÊNCIA e TRANSCEDÊNCIA lado a lado. 

Isaias 6:1-5, Salmo 113:5-7, Isaias 57:15, Lucas 2:14, Salmo 47:8

INTRODUÇÃO À DOUTRINA DO SER DE DEUS - Parte 4/4


4º) Em quarto lugar, com uma dimensão prática, afirmamos que usar o nome de Deus em vão é atentar contra o contra o seu SER.

Os teólogos de Westminster parecem fazer um link absolutamente consistente entre o NOME de DEUS e seu próprio SER. Vejamos:

111. Qual é o terceiro mandamento?
O terceiro mandamento é: "Não tomarás o nome to Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar em vão o nome do Senhor seu Deus": Ex 20:7

112. O que se exige no terceiro mandamento?
No terceiro mandamento exige-se que o Nome de Deus, os seus títulos, atributos, ordenanças, a Palavra, os sacramentos, a oração, os juramentos, os votos, as sortes, suas obras e tudo quanto por meio do quê Deus se faz conhecido, sejam santa e reverentemente usados em nossos pensamentos, meditações, palavras e escritos, por uma afirmação santa de fé e um comportamento conveniente, para a glória de Deus e para o nosso próprio bem e o de nosso próximo: Dt 28:58;Mq 4:5; Jr 4:2;32:39. Leia-se todo o Salmo 8.Sl 29:2;76:11;102:18;105:2,5;107:21,22;138:2; Mt 1:14;3:16;6:9;  I Tm 2:8; At 1:24,26; I Co 10:31;11:28,29; Fp 1:27;Cl 3:17; I Pe 2:12;3:15; Ap 15:3,4.

CONCLUSÃO:

Quando estudarmos o ser de Deus e os seus atributos, estaremos estudando sobre o caráter de Deus. Enquanto estivermos estudando os atributos de Deus, veremos algumas coisas acontecerem em nós, pelo impacto que o conhecimento do ser divino nos traz (CAMPOS, 2002, p.22).

Divulgue meu Blog no seu Blog