sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A CONTRIBUIÇÃO DO CALVINISMO NA CRIAÇÃO DE UM AMBIENTE FAVORÁVEL À ÉTICA E À MORAL, A PARTIR DA ATITUDE INDIVIDUAL - Parte 2/3


Já no século XIX, os Calvinistas ingleses, conhecidos como Puritanos[1], que também influenciaram positivamente a política e a economia, continuavam com essa forma característica de vida, de busca pela retidão moral e ética, que não se permitia conviver com uma consciência conivente com a corrupção. Parker, em sua importante obra sobre os Puritanos, intitulada “Entre os Gigantes de Deus”, afirma:

Todos os teólogos Puritanos, desde Perkins, concordavam em conceber a consciência como uma faculdade racional, um poder de autoconhecimento e juízo moral, que trata com questões de certo e errado, de dever e privilégio, lidando com essas coisas autoritativamente, como a voz de Deus (PARKER, 1996, p.117).
                  
E ainda:

A atenção que os puritanos davam à boa consciência emprestava grande força ética ao seu ensino [...], os puritanos foram os maiores pregadores da retidão pessoal (PACKER, 1999. p.11).

Sobre os Puritanos e sua consciência cativa à ética e à moral, por força de sua devoção a Deus, Ryken, em sua reconhecida obra “Santos no mundo”, afirma: “As recompensas do trabalho, de acordo com a teoria puritana, eram morais e espirituais, isto é, o trabalho glorificava a Deus e beneficiava a sociedade” (RYKEN, 2013, p.70).

Apesar dos necessários exemplos de como Calvino e os Calvinistas Puritanos se relacionam com a questão da equidade, da justiça, da moral e da ética, nossa intenção, neste ensaio, é tentar identificar o que há no Calvinismo que cria esse ambiente favorável ao proceder ético e moral.

A produção dessa ética particular, entendida aqui como Modus vivendi, apresentada por Calvino e seus seguidores, é atribuída, principalmente, aos efeitos psicológicos causados pela doutrina da eleição ou da predestinação[2].

A crença nessa sistematização doutrinária calvinista leva o “eleito” a um imenso sentimento de gratidão a Deus, uma vez que, mesmo sem merecer, recebe esta graça extraordinária.
        
Dessa forma, coube aos puritanos, que se consideravam eleitos, viver a santificação da vida cotidiana. Pois o caráter sectário – a consciência de ser minoria e a motivação de ser eleito de Deus – fazia de cada membro dessas comunidades não mero adepto do rebanho mas, mas um vocacionado que se dedicava simultaneamente ao aprimoramento ético, intelectual e profissional (WEBER, 2002. p.21).
                  
Como consequência e em gratidão, o “eleito” passa a viver e a dedicar todos os seus momentos, inclusive atividades seculares, para a “glória de Deus”.

Weber considera a doutrina da eleição ou predestinação como ponto central na produção dessa ética Calvinista:

Consideramos apenas o Calvinismo e adotamos a doutrina da predestinação como arcabouço dogmático da moralidade puritana, no sentido de racionalização metódica da conduta ética (WEBER, 2002, p.91).

Para os Calvinistas, o conhecimento e aceitação dessa verdade escriturística compreende, necessariamente, uma mudança nas próprias práticas, isto é, o conhecimento não pode ser apenas intelectual, antes, precisa descer ao coração e traduzir-se em ações: “O propósito da verdade de Deus colocada nas mentes do seu povo é que, ao compreendê-las, eles venham a conhecer o seu efeito na sua experiência pessoal” (MARTINS, 2001. p.9).

Um importante Catecismo calvinista dá o tom dos objetivos dessa nova vida outorgada pela graça, já na pergunta inicial: “Qual é o Fim supremo e principal do homem? O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus” (CATECISMO MAIOR, 2007. p.31).
                  
Martins, sobre isso faz uma pertinente colocação:

Quando Deus torna uma pessoa Calvinista [...] esse encontro traz um conhecimento íntimo da voz de Deus, uma total resignação à vontade e aos caminhos de Deus (MARTINS, 2001. p.19).


[1] Movimento religioso protestante dos séculos 16 e 17 que buscou “purificar” a Igreja da Inglaterra em linhas mais reformadas. O movimento foi calvinista quanto à teologia e presbiteriano ou congregacional quanto ao governo eclesiástico. Conforme: http://www.mackenzie.br/7058.html, acessado em 31/08/2016.
[2] Aspecto da pré-ordenação de Deus, através do qual a salvação do crente é considerada efetuada de acordo com a vontade de Deus, que o chamou e o elegeu em Cristo, para a vida eterna, sendo a sua aceitação voluntária, da pessoa e do sacrifício de Cristo, uma consequência desta eleição e do trabalho do Espírito Santo, que efetiva esta eleição, tocando em seu coração e abrindo-lhe os olhos para as coisas espirituais. Conforme: http://www.monergismo.com/textos/predestinacao/predestinacao_isaias.htm, Acessado em 28/08/2016.

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