quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A QUESTÃO DA ETERNIDADE EM AGOSTINHO DE HIPONA – PARTE 2/11


As duas controvérsias com os maniqueus

O Maniqueísmo foi uma espécie de seita  fundada por Mani, no século III. Ele acreditava que a difícil situação humana era causada por dois princípios que co-existem naturalmente em todos os seres humanos:  o primeiro espiritual e luminoso o segundo material, físico e tenebroso. Mani afirmava ainda que essa doutrina tinha sido revelada em diversas épocas a vários profetas, entre os quais estavam Buda, Zoroastro, Jesus, e por último, ele próprio.

O Maniqueísmo espalhou-se principalmente pela Pérsia, contemporaneamente Irã e por toda costa do Mediterrâneo.  Sua doutrina misturava as doutrinas de Zoroastro com o Cristianismo. Para efeito ilustrativo e com o objetivo de situar-nos exatamente nos primórdios da formação de Agostinho, até para facilitar o entendimento de seus argumentos acerca de assuntos como por exemplo, que trataremos mais adiante, da questão da eternidade: Basicamente a doutrina maniqueísta está fundamentada sob o pilar da existência de dois princípios antagônicos: o bem e o mal. O bem sendo representado por Deus e o mal por Satanás. Deus, para libertar a luz do cativeiro da matéria criou, por intermédio dos espíritos, inimigos dos demônios, o sol, a lua, os astros e a terra. E para salvar os homens enviou Cristo. Para ele, o Espírito Santo era menor que o filho. Com relação a Cristo, afirmava que, ao contrário dos demônios, Cristo tomou corpo apenas aparente e não real, isto posto, em virtude de sua compreensão negativa acerca do corpo, e por isso, conseqüentemente, sua morte não foi verdadeira; tendo sido uma espécie de teatro, de encenação. Ele dizia-se enviado por Deus para completar a obra de Cristo, chegando a ter, analogamente a Cristo, 12 ministros, numa clara tentativa de imitação do mistério de Cristo e de seu apostolado; além desses, tinha a frente um chefe, um homem chamado,  Fausto de Mileve e ainda  72 bispos, diáconos e presbíteros; era uma seita, no sentido organizacional, bem instituída. Celebravam missa sem vinho, festejavam o Domingo, sexta-feira santa e, principalmente, o dia de aniversário de Mani.

Tudo isso parecia ser uma resposta para as dúvidas de Agostinho, na juventude, antes da conversão, que basicamente caminhavam por duas direções: a primeira era com relação às Escrituras Cristãs, que considerava escritos rústicos, desprovidos de sutileza e elegância. A segunda era a questão da origem do mal; desde cedo sua mãe lhe havia ensinado que só havia um Deus. Mas Agostinho perguntava de onde vinha todo o mal se, como aprendera, Deus é bom e autor de tudo o que é bom. Nestes dos pontos especificamente as doutrinas do Maniqueísmo parecia, e somente aprecia, ter respostas que acalentassem aos anseios de Agostinho. Para o Maniqueísmo, as Escrituras não eram as palavras do princípio da luz, e o mal também não era produto deste princípio, mas o princípio das trevas; respostas que pareciam fazer sentido para Agostinho que durante nove anos - de 374 a 383 - foi, como ele mesmo afirma, um ouvinte das idéias maniqueístas. Ouvinte não simplesmente como sugere a palavra; existia entre os maniqueus uma gradação de proximidade e envolvimento com a seita: eram chamados de “eleitos” aqueles que se envolviam completamente com seus rituais e cerimônias, aqueles que cumpriam integralmente todas as suas exigências. Agostinho fazia parte da outra classe de maniqueus. Uma espécie de catecúmeno que não se obrigava a todos os votos exigidos pela seita, chamados de ouvintes.
Posteriormente, Agostinho foi um forte oponente das doutrinas maniqueístas, como afirma em sua confissão:

Meu entusiasmo pelos escritos dos maniqueus acabou. Pois se o mais famoso entre eles (Fausto, bispo maniqueu) mostra-se tão inepto para resolver as questões que me angustiam, que poderia esperar dos outros mestres? Todavia, mantive relacionamento com ele, baseado no grande interesse comum pela literatura, que eu, como professor, ensinava aos jovens de Catargo. Lia com ele as obras que ele desejava conhecer, e as que eu julgava adequadas à sua inteligência. De resto, depois de conhecê-lo, meu propósito de prosseguir naquela seita caiu por terra, mas não a ponto de separa-me totalmente dela. Não havendo, por assim dizer, nada melhor, decidi permanecer no ponto a que chegara, enquanto não aparecesse algo mais calmo, que merecesse ser abraçado. Dessa forma, aquele Fausto, que foi para muitos uma armadilha mortal, sem que soubesse, começou a afrouxar o laço que me prendia[1].




[1] Conf.,V,7.13

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